Argentina entre tropeços, câmbio em chamas e apoio dos EUA: o que esperar antes da eleição de outubro
Goldman Sachs avalia que derrota eleitoral, pressão sobre o peso e queda do PIB expõem fragilidade da Argentina, mas apoio bilionário dos EUA dá fôlego à agenda de Milei até a eleição de 26 de outubr
A Argentina vive semanas intensas. O desempenho fraco da coalizão governista de Javier Milei na eleição legislativa da Província de Buenos Aires (PBA), a pressão cambial sobre o peso e o socorro financeiro vindo de Washington se entrelaçam num cenário que mistura fragilidade política e tensão nos mercados.
Um tropeço nas urnas
No dia 7 de setembro, a coalizão La Libertad Avanza, de Milei, obteve apenas 33,7% dos votos na PBA, contra 47,4% da Fuerza Patria, bloco peronista. Foi um revés importante, já que pesquisas de boca de urna indicavam um cenário mais equilibrado. Apesar disso, analistas não veem impacto imediato na condução da política econômica: Milei segue comprometido com a disciplina fiscal. Ainda assim, a derrota fragiliza a administração em meio à escalada de pressões sobre o peso, ao crescimento lento e ao atrito constante com o Congresso.
Pressão sobre o peso argentino
A eleição acentuou um quadro que já vinha difícil. O Banco Central da Argentina (BCRA) precisou intervir fortemente no câmbio: entre 17 e 19 de setembro foram US$ 1,1 bilhão em reservas queimadas para segurar a moeda. Só no dia 19, foram US$ 678 milhões. O Goldman alerta que a estratégia é insustentável, já que o peso segue sobrevalorizado e o mercado continua testando os limites da política cambial.
A mão estendida de Washington
Foi nesse contexto que os Estados Unidos anunciaram um pacote de apoio robusto. O Tesouro americano prometeu uma linha de swap de US$ 20 bilhões com o BCRA, além da possibilidade de comprar títulos argentinos em dólar e fornecer crédito stand-by via Exchange Stabilization Fund. A secretária do Tesouro, Bessent, foi direta: os EUA farão “o que for necessário” para ajudar a estabilizar a economia argentina, que chamou de “aliado sistemicamente importante” na América Latina.
Esse suporte alivia as tensões no curto prazo. Os títulos em dólar se recuperaram, o peso ganhou fôlego e o BCRA conseguiu até reduzir a taxa de recompra overnight para 25%. Mas, para o Goldman, a verdadeira solução exigirá mudanças estruturais: após as eleições de outubro, o ideal seria abandonar as bandas cambiais e adotar um regime mais flexível, permitindo ao país acumular reservas e dar competitividade ao setor real.
Crescimento volta a decepcionar
Se no câmbio a tensão foi o destaque, na economia real os números também preocupam. O PIB do segundo trimestre caiu 0,1% em relação ao trimestre anterior, interrompendo a recuperação que havia começado no fim de 2024. O consumo das famílias caiu 1,1% e os investimentos recuaram 0,4%. Exportações e importações também encolheram.
A leitura do Goldman é de que a fraqueza vai se prolongar. A atividade já encolheu em julho e agosto deve repetir a queda. A projeção de crescimento para 2025 foi cortada de 4,7% para 4,2%, com viés negativo.
O que está em jogo
Milei chega às eleições de meio de mandato, em 26 de outubro, pressionado por uma derrota política regional, um crescimento claudicante e um câmbio sob ataque. O apoio dos EUA dá um fôlego importante, mas não elimina o desafio central: sustentar as reformas e manter governabilidade para convencer investidores e sociedade de que o programa de ajuste não só é possível, como sustentável.




