Balanços da semana
O petróleo cobra o preço da guerra, os chips ganham um dia de trégua e o Brasil abre a temporada de convenções.
Esta é a primeira edição do Diário de Mercado aqui no Substack (nome que, aliás, ainda preciso pensar num melhor).
Sou Erik Pajunk, da Nomos, assessor de investimentos há mais de 10 anos e com essa mania de acompanhar o mercado todos os dias. Comecei fazendo vídeos, mas, com a agenda apertada, acabei focando num texto bem resumido de WhatsApp, que inclusive é enviado no TradeNews de WhatsApp para todos os participantes dos canais.
Só que nem sempre tudo que eu quero dizer e tudo que acompanho cabe lá, então resolvi fazer esta newsletter: você recebe a mensagem do dia e, logo abaixo, a cozinha inteira. Espero que goste, e todos os feedbacks são sempre bem-vindos. Antes da conversa, os fatos: o que aconteceu no fim de semana e o que já se sabe nesta manhã.
ONTEM (sexta a domingo, 17 a 19 de julho)
Ibovespa fechou a semana em queda de 2,3%, aos 173.714 pontos, com o dólar a R$ 5,11. Em NY, S&P caiu 1,1% e Nasdaq 3,8% na semana, com o setor de chips concentrando a aversão a risco depois do modelo da Moonshot.
No fim de semana a guerra mudou de natureza: ataques do Irã mataram militares americanos na Jordânia e no Iraque, o total de mortos dos EUA chegou a 17 e Washington completou a 9ª noite seguida de bombardeios.
A Espanha venceu a Argentina por 1 a 0 na prorrogação e é bicampeã do mundo.
HOJE / MADRUGADA (20 de julho)
Brent furou US$ 90 pela primeira vez desde o início de junho e devolveu pra perto de US$ 88 depois de o Irã dizer que recebeu propostas de mediadores. Gasolina média nos EUA de volta aos US$ 4/galão.
Kospi caiu 4,5% e Hong Kong subiu 2,4%: a rotação pra fora de chips continua na Ásia, mas a China se recuperou e os futuros em NY sobem.
No Brasil, começa hoje o período de convenções partidárias; o tarifaço de 25% entra em vigor na quarta.
O que me chama atenção na guerra não é o nono dia de bombardeio, é a mudança de natureza. Militar americano morto muda o cálculo político de Trump, e o barril percebeu isso antes de todo mundo. Na sexta escrevi que o Fed não aliviava com o Brent a US$ 86; de madrugada ele furou US$ 90, e só devolveu porque o Irã diz que anda recebendo propostas de mediadores. O mercado adora acreditar em mediador. A bomba de gasolina nos EUA chega novamente a US$ 4 o galão nos EUA e é o nível que a própria AAA aponta como o ponto em que o americano muda de hábito.
Também na sexta perguntei se a Moonshot era um novo DeepSeek. Ainda não dá pra responder: um dia e meio de mercado não faz tendência, e hoje o estrago até deu trégua, com futuros subindo e a China se recuperando. O que os números mostram é uma divergência que já vinha se acumulando no mês e que a Moonshot pode ter acelerado: Hong Kong sobe 10% em julho enquanto a Coreia cai 23%, a maior diferença da história entre os dois índices, segundo a Bloomberg. Se isso é o dinheiro trocando de endereço dentro da Ásia ou só a Coreia devolvendo o que era o maior rali do mundo, é cedo pra cravar. Fica em observação: se virar rotação de verdade, a pergunta seguinte é quando ela passa perto da B3. Por enquanto, o recap aí de cima responde: o Ibovespa caiu 2,3% na semana.
Pela frente, semana com pouco dado e muita empresa abrindo número: Alphabet e Tesla na quarta, Intel na quinta, decisão de juros na zona do euro também na quinta, e o Fed já em silêncio até a decisão da semana que vem. Por aqui, o calendário eleitoral começou a correr de verdade: convenções abertas hoje, tarifaço em vigor na quarta e o PL formalizando Flávio no sábado, com Milei na plateia. A guerra dita o barril, os balanços ditam o humor e o Brasil entra no relógio da eleição.
Segue a versão resumida disso tudo que falei:
Balanços essa semana
📅 20 de julho. Bom dia. Erik Pajunk da Nomos aqui.
🛢️ Os EUA bombardearam o Irã pela 9ª noite seguida e ontem o número de militares americanos mortos subiu pra 17. Ormuz segue praticamente parado. Brent furou US$ 90 de madrugada, maior desde junho, mas devolveu pra US$ 88: o Irã diz que tem recebido propostas de mediadores. Será? Gasolina nos EUA de volta aos US$ 4/galão.
💻 A Moonshot, que sexta acordou a lembrança da DeepSeek e derrubou chips no mundo todo, hoje dá trégua: bolsas na China se recuperaram e futuros em NY sobem.
📊 Semana fraca de dados (inflação no Reino Unido e decisão do ECB quinta), então o jogo é dos balanços: Alphabet e Tesla quarta, Intel quinta.
🇧🇷 Na semana, Ibovespa caiu 2,3%, aos 173,7 mil, e dólar fechou a R$ 5,11. Hoje começa o período de convenções partidárias: dia 25 o PL formaliza Flávio, ainda sem vice definido, e dia 2/8 Lula deve renovar a chapa com Alckmin.
Daqui para baixo é a cozinha: um resumo por tópico de tudo que li hoje nos veículos e fontes que acompanho, com a origem de cada informação. Ter isso organizado me ajuda demais na leitura do dia, e imagino que ajude você também. Tudo com ajuda da minha IA favorita, é claro.
RESUMO POR TÓPICO (com as fontes)
Petróleo / Geopolítica
Ataques do Irã mataram militares americanos na Jordânia (base aérea) e no Iraque (descarte de drone), os primeiros mortos por fogo hostil desde a trégua de abril. O total de baixas dos EUA na guerra chegou a 17 e o Kuwait levou parte da retaliação iraniana, com uma planta de energia e dessalinização atingida (Bloomberg, NYT, WSJ).
Os EUA completaram a 9ª noite seguida de bombardeios, uma operação de três horas contra alvos militares e redes de comunicação, e o Brent furou US$ 90 pela primeira vez desde o início de junho. Devolveu pra casa de US$ 88 depois de o Irã dizer que recebeu propostas de mediadores (Bloomberg, Barron’s). Trump segue sem dar pistas públicas do próximo passo (Bloomberg).
O tráfego visível em Ormuz está praticamente parado (Bloomberg). E o preço já chegou na bomba americana: gasolina média a US$ 4,00/galão, ante US$ 3,87 há uma semana, com diesel a US$ 5,11. Pesquisa da AAA de 2022 aponta os US$ 4 como o ponto em que 59% dos americanos dizem mudar hábitos de consumo (AAA via WSJ).
Por aqui, a conta da defasagem: diesel da Petrobras 63% abaixo da paridade (R$ 2,07/L) e gasolina 47% (R$ 1,20/L) com Brent acima de US$ 86. O governo manteve o subsídio ao diesel de R$ 1,12/L (Abicom via XP, Folha). Quanto mais tempo o barril fica lá em cima, maior a pressão represada.
Mercados / IA
O dia na Ásia: Kospi caiu 4,5%, menor nível desde abril, enquanto o Hang Seng subiu 2,4%. No mês, Hong Kong sobe 10% e a Coreia cai 23%, a maior diferença mensal a favor do índice de HK desde a criação do Kospi, em 1983, com Samsung e SK Hynix caindo 25% ou mais no período (Bloomberg). A Bloomberg lê o movimento como debandada dos chips com Hong Kong de beneficiária, mas duas ressalvas antes de chamar isso de rotação: o Hang Seng nem tem as grandes fabricantes de chips na carteira, e a Coreia vinha do maior rali do mundo, então parte da queda pode ser só devolução. Michael Burry, o investidor de “A Grande Aposta”, está short em Nvidia e no ETF de semicondutores e comprando em Hong Kong (Bloomberg).
A Moonshot disse a investidores que prepara IPO em Hong Kong em até 6 meses, com valuation que pode passar de US$ 30 bi. E a Alibaba lançou o preview do Qwen3.8 Max, que descreve como atrás apenas do Fable 5 da Anthropic; a ação subiu 5,4% (Bloomberg, WSJ).
Contexto pra quem não lembra do original: o DeepSeek foi o laboratório chinês que, em janeiro de 2025, lançou um modelo comparável aos líderes americanos alegando custo de treino de uns US$ 5,6 milhões, uma fração do padrão da indústria. Na segunda-feira seguinte o mercado acordou questionando o capex inteiro de IA: a Nvidia caiu 17% e perdeu perto de US$ 590 bilhões num único pregão, na época a maior destruição de valor da história pra uma empresa em um dia. Só que a recuperação foi rápida: os índices absorveram o choque em cerca de uma semana, a Nvidia voltou ao preço em duas ou três, e a narrativa virou quando as big techs aumentaram o capex em vez de cortar. O susto de eficiência acabou reforçando o trade. Esse é o precedente por trás da pergunta que fiz na sexta, e a reação de agora foi bem menor: nada perto de uma Nvidia caindo 17% num dia. A diferença técnica está no item abaixo.
Um detalhe técnico que muda a leitura do sell-off: segundo a Bloomberg, o Kimi K3 economiza computação (ativa poucos dos seus 2,8 tri de parâmetros por tarefa), mas todos esses parâmetros precisam estar carregados em memória, cerca de 1,4 terabyte, o que exige clusters ricos em HBM da SK Hynix e sistemas avançados da Nvidia e da TSMC. Ou seja: o modelo pode sustentar a demanda por memória, e o mercado vendeu justamente as fabricantes de memória. Se essa leitura estiver certa, o sell-off pode ter escolhido o vilão errado.
Futuros do Nasdaq sobem 0,6% com a pausa no sell-off de chips (WSJ). O varejo americano, aliás, está migrando dos Magnificent 7 pra apostas novas de IA, como SK Hynix e um ETF de memória (WSJ). O teste da semana é o capex: o de Alphabet deve mais que dobrar no ano, pra US$ 187 bi, e o mercado quer prova de retorno (Bloomberg).
Bancos Centrais / Macro
O Fed entrou em silêncio até a decisão de quarta que vem, 29/07 (WSJ). O FT lembra que o estilo de Warsh, avesso a sinalizar os próximos passos, pode estressar justamente os fundos alavancados que carregam Treasuries: sem guidance, cada dado vira gatilho. É um ponto pra acompanhar com o Tesouro americano precisando rolar cerca de US$ 2 tri por ano (FT, WSJ).
Dado novo da madrugada: o PPI da Alemanha, a inflação ao produtor, subiu 1,8% em junho na comparação anual, abaixo do esperado (1,9%) e desacelerando dos 2,2% de maio, que tinha sido a maior alta desde 2023 puxada pelo salto do óleo mineral com a guerra (Destatis via EconoTimes). É o tipo de dado que dá argumento pro ECB manter os juros na quinta em vez de subir de novo: o choque de energia está entrando na cadeia, mas por ora sem acelerar.
A revisão estatística que o BEA fará no PCE, o índice de inflação preferido do Fed, pode na margem enfraquecer o caso de alta de juros (WSJ). Detalhe pequeno com timing grande.
Brasil
Fechamento da semana: Ibovespa caiu 2,3% aos 173.714 pontos, dólar terminou a R$ 5,11 e o DI jan/36 abriu 34 bps, a 14,58%. A pressão veio da aversão a risco externa, do tarifaço e das pesquisas eleitorais; petróleo foi o único setor no azul (+1,4%), com Vibra +6,3% de destaque. Curiosidade que guardo pra acompanhar: a XP registrou entrada líquida estrangeira de R$ 985 mi na semana (dados até quarta), ainda que a saída acumulada desde 15 de abril siga em R$ 32,9 bi (XP Estratégia de Ações).
Abre o período de convenções partidárias. O PL formaliza Flávio no dia 25, em SP, ainda sem vice e sem alianças definidas; Republicanos e a federação PP-União tendem à neutralidade (CNN e O Globo via XP News Clipping). Milei vem a SP no sábado, participa da convenção e se reúne com Tarcísio (Estadão). Lula deve renovar a chapa com Alckmin no dia 2 de agosto (Valor via News XPress).
Saíram recortes inéditos da Genial/Quaest de quarta passada (a mesma que citei nas edições de quinta e sexta): 55% dos eleitores acreditam na vitória de Lula, contra 25% que apostam em Flávio, maioria em todas as regiões, gêneros e religiões (O Globo/Thomas Traumann). Outro recorte mapeia os indecisos: 11% do eleitorado, dois terços mulheres, 53% no Sudeste, majoritariamente independentes e com rejeição alta aos dois polos (O Globo/Malu Gaspar). Traumann resume o risco pro PL: expectativa de derrota pode virar profecia autorrealizável.
O tarifaço de 25% entra em vigor na quarta. O governo começa hoje a ouvir os setores mais afetados pra calibrar o reforço do Brasil Soberano, com prioridade pra imobiliário, calçados, madeira e máquinas, e adota cautela com a Lei de Reciprocidade pra não provocar nova reação da Casa Branca (O Globo via News XPress).
No fiscal, o Estadão reporta que o governo aposta em pacote de crédito de R$ 145 bi fora do arcabouço em ano eleitoral; especialistas ouvidos pelo jornal apontam pressão sobre dívida, inflação e juros (Estadão). Mais uma peça do pano de fundo que trava o prêmio dos ativos locais.
E uma visão de gestor que vale registrar: João Braga, da Encore, listou no comentário mensal as quatro datas eleitorais pra ter na cabeça: 25/07 (convenção do PL), 3/08 (convenção do PT, com atenção especial a quem será o vice de Lula), 5/08 (registro das candidaturas) e 15/08 (prazo das coligações, quando as cartas estarão todas na mesa). Ele também cita duas contas que conversam com o que venho escrevendo: pela conta do Bradesco que ele apresentou, o real estaria em R$ 4,64 se tivesse acompanhado a cesta de moedas parecidas desde 2024; e, pelo UBS, o Brasil tem exposição praticamente zero a IA no índice de emergentes, contra 81% de Taiwan e metade da Coreia. É a outra ponta do trade que esvaziou a bolsa este ano: quem quiser diversificar do risco concentrado em IA, uma hora olha pra cá (Encore/João Braga).
AGENDA DA SEMANA
Hoje: começa o período de convenções partidárias; indicadores antecedentes nos EUA; balanços de Domino’s e AMC (WSJ, XP).
Terça: GM, 3M, Capital One e Chubb reportam; pesquisa Real Time Big Data pode sair (WSJ, XP).
Quarta: tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros entra em vigor; Alphabet e Tesla abrem a temporada das big techs, com IBM e AT&T no mesmo dia. O capex de IA é o número que o mercado vai caçar (Bloomberg, WSJ).
Quinta: decisão do ECB, com expectativa de manutenção e a porta de setembro aberta; Intel, American Airlines e Blackstone reportam; jobless claims (Bloomberg, WSJ).
Sexta: American Express e Verizon; novas vendas de casas e PMIs nos EUA; novo Datafolha pode sair a partir de sexta (WSJ, XP News Clipping).
Sábado: convenção do PL formaliza Flávio, com presença de Milei em SP (Estadão).


