BBAS3 cai após balanço: alta da inadimplência no cartão e críticas à qualidade do resultado pesam sobre a ação
Analistas veem deterioração de crédito como problema específico do BB e recomendam cautela, enquanto gestão aposta em desaceleração das provisões no 2º semestre
O Banco do Brasil (BBAS3) registrou alta no lucro líquido ajustado no segundo trimestre de 2026, mas o resultado divulgado nesta quarta-feira (12) não foi suficiente para sustentar as ações. No pregão desta quinta-feira (13), os papéis encerraram em queda de 3,68%, cotados a R$ 18,30 na B3. A reação negativa refletiu a deterioração da qualidade do crédito, com forte aumento da inadimplência no cartão, e a avaliação de analistas de que a expansão dos lucros não se traduziu em uma melhora equivalente na qualidade dos resultados.

O principal ponto de preocupação do balanço do 2T26 foi a inadimplência acima de 90 dias no cartão de crédito, que saltou de 7,12% no ano anterior para 14,58%. A formação de novos créditos inadimplentes (NPL creation) no segmento avançou de R$ 5,66 bilhões para R$ 11,84 bilhões, enquanto o indicador de atrasos na carteira geral de pessoa física atingiu 8,41%.
Para João Tonello, analista CNPI da Nomos, o movimento tem características mais idiossincráticas do que sistêmicas e sugere falhas específicas no processo de concessão de crédito do próprio banco.
O comportamento do BB chama atenção justamente por não encontrar paralelo no restante do sistema financeiro: excluindo a carteira do Banco do Brasil, a inadimplência média dos cartões dos demais bancos recuou de 9,3% no primeiro trimestre para 9,1% no segundo. A divergência reforça a hipótese de um problema concentrado na gestão de risco do estatal, e não de um colapso generalizado na capacidade de pagamento do consumidor brasileiro.
Lucro cresce, mas qualidade do resultado entra no radar
O lucro líquido ajustado avançou 3,3% em relação ao mesmo período de 2025 e 13,9% na comparação trimestral, somando R$ 3,9 bilhões no trimestre, com retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) em 8,3%.
Apesar da expansão, relatórios divulgados após a teleconferência por Itaú BBA, Safra, BTG Pactual e JPMorgan chamaram atenção para o aumento do custo de crédito, a compressão do patrimônio tangível e a fragilidade na composição do resultado. O ponto central para o mercado passa a ser quanto do lucro atual é sustentável e até que ponto o ritmo de provisionamento continuará limitando a rentabilidade nos próximos trimestres.
Gestão aposta em desaceleração das provisões
A administração do banco, por sua vez, adotou um tom mais construtivo. Em interação com analistas na tarde desta quinta-feira, o vice-presidente de Gestão Financeira e Relações com Investidores, Geovanne Tobias, afirmou que o pico do custo de crédito da safra recente de cartões já foi atingido e projetou uma desaceleração no volume de provisões ao longo do segundo semestre de 2026.
A expectativa da gestão também considera a repactuação e renegociação de dívidas no agronegócio, segmento cuja inadimplência alcançou 6,27%. O mercado, contudo, aguarda os próximos trimestres para checar se a melhora projetada pela diretoria compensará a pressão observada na pessoa física.
Valuation e Dividendos: Onde fica o investidor?
Apesar da queda, o movimento recente reacende o debate sobre o desconto das ações. Negociado a cerca de 0,6x Preço/Valor Patrimonial (P/VP) e com um P/L projetado na casa de 4,2x para 2026, ambos segundo estimativas compiladas em relatório do BTG Pactual, o Banco do Brasil segue negociado com um desconto relevante em relação aos seus pares privados, como o Itaú (ITUB4), que roda próximo de 1,4x P/VP.
Por outro lado, o avanço da inadimplência e o ROE comprimido a 8,3% colocam em xeque a capacidade de distribuição de proventos. Embora o banco mantenha um payout histórico atrativo — com o consenso de mercado apontando para um dividend yield acima de 9% ao ano, a necessidade de reter capital para reforçar o balanço contra perdas no crédito pode limitar anúncios extraordinários de proventos nos próximos trimestres.
O que observar a seguir
Diante do diagnóstico, Tonello avalia que a tese de investimento no Banco do Brasil exige maior cautela e disciplina de alocação, reduzindo o peso tático na carteira até que haja sinais claros de estabilização da carteira de cartões.
Para o investidor, os pontos centrais de monitoramento para o 3T26 (com divulgação prevista para novembro) serão:
O ritmo do NPL creation no cartão de crédito, confirmando se o pico de atrasos projetado pela gestão de fato ocorreu no 2T26;
A evolução da inadimplência rural, após os efeitos das renegociações safra 2025/2026;
Eventuais revisões formais de guidance para o custo de crédito total do ano.
Até lá, a ação deve seguir pressionada pela volatilidade e pelo dilema entre um valuation convidativo e uma visibilidade ainda turva para a rentabilidade de curto prazo.


