Braskem [#BRKM5]: O que a proteção judicial e o rebaixamento do rating relevam
Com dívida de R$ 54 bilhões e valor de mercado cerca de dez vezes menor, Braskem obtém proteção judicial enquanto o rebaixamento do rating intensifica preocupações com sua reestruturação financeira.
As ações da Braskem já acumulam queda de 16,34% em apenas três dias de negociação, após a notícia de que a companhia obteve na Justiça de São Paulo o deferimento de um pedido de Tutela de Urgência Cautelar, garantindo uma blindagem jurídica de 60 dias contra execuções e cobranças de seus credores financeiros. A medida protetiva visa assegurar um ambiente de imunidade para que a petroquímica conduza um processo de mediação e reestruture sua estrutura de capital.
O movimento preventivo, contudo, disparou uma reação imediata das agências de classificação de risco Fitch e S&P Global Ratings, que revisaram as notas de crédito globais da companhia para as categorias C e D, respectivamente, reforçando a percepção de elevado risco de inadimplência e a necessidade de reestruturação da dívida.
A mecânica da Recuperação Judicial
O mecanismo acionado pela Braskem está amparado na Lei de Recuperação Judicial e suspende temporariamente a antecipação de vencimentos de dívidas enquanto durarem as negociações coletivas perante a Câmara Wind de Mediação. Segundo comunicados emitidos pela companhia, o escopo da ação é estritamente financeiro. Na prática, as obrigações operacionais correntes com fornecedores, clientes e prestadores de serviço permanecem fora do guarda-chuva jurídico e continuam sendo honradas normalmente.
O tamanho do desequilíbrio patrimonial da petroquímica justifica as medidas jurídicas adotadas. Na prática, o mercado atribui hoje à companhia um valor de mercado significativamente inferior ao seu passivo financeiro, evidenciando o desafio da reestruturação. De acordo com Reydson Matos, estrategista de ações da NMS Research, a Braskem está avaliada pelo mercado em cerca de R$ 4,90 bilhões, mas carrega um passivo total acumulado na casa dos R$ 54 bilhões.
“Quem analisa as ações da Braskem hoje observa um Enterprise Value (valor de firma) em que a dívida supera em mais de dez vezes o seu valor de mercado líquido (Market Cap)”, pontua o estrategista.
Os fatores por trás da deterioração financeira
O ingresso com a tutela de urgência ocorreu após o esgotamento das métricas de liquidez da empresa, afetada por um ciclo severamente deprimido nas margens petroquímicas globais e pelas provisões bilionárias remanescentes vinculadas ao desastre geológico de Alagoas. Em relatório distribuído ao mercado, a Benndorf Research pondera que, embora a companhia tenha optado por uma abordagem preventiva e negociada em vez de uma recuperação judicial tradicional, o anúncio foi recebido de forma negativa pelos analistas por confirmar que a pressão financeira atingiu um ponto crítico. A Benndorf reiterou a necessidade de cautela, reforçando que não recomenda exposição aos ativos e emissões de dívida da companhia.
Para as mesas de operação, analistas avaliam que uma das alternativas consideradas pelo mercado seria uma reestruturação semelhante à observada em empresas como Light, Gol e Azul, envolvendo uma conversão parcial de dívida em capital. O equacionamento de um passivo dessa magnitude poderia ampliar significativamente o número de ações em circulação. Na avaliação de Matos, o investidor focado no longo prazo precisa estar ciente de que o patrimônio líquido atual é substancialmente menor que as obrigações, e o processo de equalização pode resultar em uma diluição agressiva dos acionistas minoritários. Embora os dados de tela não identifiquem os participantes diários, gestores consultados indicam que o fluxo vendedor recente tem sido dominado por estratégias long & short e fundos multimercados com viés tático de curto prazo.
O que monitorar a partir de agora?
No horizonte de curto prazo, o mercado acompanha o andamento das reuniões com os comitês de bancos e detentores de títulos, além da possibilidade de a Braskem estender pedidos de proteção semelhantes a jurisdições estrangeiras para blindar ativos no exterior.
Os próximos 60 dias tendem a ser decisivos para definir se a companhia conseguirá construir um acordo consensual com os credores ou se precisará recorrer a instrumentos mais amplos de reestruturação previstos na Lei de Recuperação Judicial. Até lá, Reydson Matos projeta que o papel deve continuar operando sob forte volatilidade nas cotações, refletindo as incertezas sobre o plano de capitalização final.



