Brent (+4%) encosta nos US$100 e gringo comprou Brasil ontem
Bab el-Mandeb entra na linha de tiro, o capex de IA assusta quem paga a conta e o fluxo gringo faz o Ibovespa saltar 2,4% sem notícia local.
Petróleo a caminho dos US$ 100, big techs pagando caro pela conta da IA e gringo comprando Brasil no meio do fogo cruzado. Se você for ler uma coisa só sobre mercado hoje, que seja essa.
ONTEM (22 de julho)
Ibovespa saltou 2,4% em pregão sem noticiário local, com fluxo estrangeiro concentrado em Vale, Petrobras e bancos; dólar caiu 0,4% a R$ 5,05 e os DIs abriram de 5 a 7 bps.
Tarifa americana de 25% sobre produtos brasileiros entrou em vigor; o governo respondeu com o Brasil Soberano 3, até R$ 18,5 bi em linhas de crédito (R$ 13,5 bi do Tesouro e R$ 5 bi do BNDES).
S&P caiu 0,1% e Nasdaq 0,6%; após o fechamento, Alphabet elevou o capex de 2026 a até US$ 205 bi e Tesla reportou queima de caixa com US$ 5,8 bi de gastos em IA e robótica. Brent fechou +3% a US$ 93,7.
HOJE / MADRUGADA (23 de julho)
Houthis atacaram dois petroleiros sauditas perto de Bab el-Mandeb; Brent salta mais de 4% e passa de US$ 98, maior nível em quase dois meses.
Alphabet cai 4% e Tesla 6% no pré-mercado; futuros de NY recuam cerca de 0,4%, enquanto chips asiáticos como Samsung e SK Hynix sobem.
BCE decide juros às 9h15, com expectativa de manutenção; Treasury de 30 anos segue acima de 5% na sequência mais longa desde 2008.
Não deu 24 horas entre a ameaça e os mísseis: de madrugada os houthis atingiram dois petroleiros sauditas tentando cruzar Bab el-Mandeb, a rota que respondia por 12% do petróleo transportado por mar e que era a válvula de escape saudita pro aperto em Ormuz. O Brent passou de US$ 98. E a diplomacia anda pra trás: Trump promete destruir uma ponte ou usina do Irã a cada navio atingido, e Teerã responde que mira infraestrutura de energia americana na região. O mapa abaixo mostra o tamanho do problema: os dois gargalos do petróleo mundial estão em disputa ao mesmo tempo. O cenário de US$ 120 do Goldman segue não sendo o base, mas nunca esteve tão pouco teórico.
Os balanços das big techs vieram e o mercado não gostou da conta. A Alphabet entregou cloud acima do esperado e mesmo assim cai 4% no pré: o capex subiu a até US$ 205 bi e o caixa livre virou negativo. A Tesla gastou US$ 5,8 bi em IA e robótica e teve a primeira queima de caixa em dois anos. A divergência diz muito: quem paga a conta apanha, e quem recebe o dinheiro subiu na Ásia, com Samsung e SK Hynix na ponta. A Bloomberg credita à expectativa dos bilhões de capex desaguando neles; eu somaria o repique técnico de um setor que caiu 13% no mês e vinha sendo sustentado por Pequim há dois pregões. Provavelmente um pouco dos dois. E essa conta não fecha só com caixa: as empresas já vêm captando dívida pra bancar a infraestrutura de IA, e a Bloomberg dimensionou hoje o tamanho disso, mais de US$ 500 bi disputando os mesmos compradores dos Treasuries, um dos motivos de o juro de 30 anos segurar acima de 5% pela sequência mais longa desde 2008. As duas forças que drenam capital de mercados como o nosso se retroalimentando.
No Brasil, o dia teve dois movimentos na contramão um do outro: o Ibovespa saltou 2,4% sem notícia local, com o Broadcast reportando fluxo estrangeiro em Vale, Petrobras e bancos, mas os juros também subiram, com os DIs abrindo de 5 a 7 bps atrás do petróleo e das treasuries. Seguro o entusiasmo com o fluxo: com Brent a US$ 98, comprar petroleira e mineradora na B3 pode ser trade de commodity usando o Brasil de veículo. Um pregão não faz rotação. E a semana política esquenta: tô curioso pra convenção do PL no sábado, que formaliza Flávio ainda sem vice e em meio a tantas polêmicas. Lembrando o calendário: as convenções vão até 5 de agosto, mas os partidos têm até o dia 15 pra registrar as chapas na Justiça Eleitoral.
Segue a versão resumida disso tudo que falei:
Brent (+4%) encosta nos US$100 e gringo comprou Brasil ontem
📅 23 de julho. Bom dia.
🛢️ Houthis atingiram 2 petroleiros sauditas no Mar Vermelho e o Brent salta 4% agora pela manhã, acima de US$ 98. Ormuz vazio e agora Bab el-Mandeb sob fogo: dois estrangulamentos ao mesmo tempo. Trump promete bombardear pontes e usinas do Irã.
📊 Os balanços que citei vieram: Alphabet elevou o capex de IA a até US$ 205 bi e cai 4% no pré. Tesla queimou caixa e cai 6%. Capex volta a assustar.
🇧🇷 Ontem o Ibovespa saltou 2,4% sem notícia local que justifique. Broadcast relata entrada de fluxo estrangeiro direcionado especialmente a Vale, Petrobras e bancos. Dólar a R$ 5,05. Curva de juros subiu.
🏛️ No dia do tarifaço, Lula lançou o Brasil Soberano 3: R$ 18,5 bi em crédito. Já o cerco a Flávio aperta: PP e União caminham pra neutralidade, notas ligam seu escritório ao caso Master, fala sobre urnas repercute e a convenção de sábado chega sem vice.
📅 Hoje: BCE decide juros e Intel reporta.
Daqui pra baixo é a cozinha: um resumo por tópico de tudo que li hoje nos veículos e fontes que acompanho, com a origem de cada informação. Ter isso organizado me ajuda demais na leitura do dia, e imagino que ajude você também. Tudo com ajuda da minha IA favorita, é claro.
RESUMO POR TÓPICO (com as fontes)
Petróleo / Geopolítica
Os houthis anunciaram em pronunciamento na TV que atacaram dois petroleiros sauditas tentando cruzar Bab el-Mandeb, com mísseis e drones; o centro britânico de operações marítimas (UKMTO) confirmou que ao menos um navio foi atingido a sudoeste de Al Shuqaiq, na costa saudita do Mar Vermelho. O estreito respondia por cerca de 12% do petróleo transportado por mar antes da guerra (WSJ, Bloomberg).
Mesmo com os ataques, dois petroleiros chineses carregados de petróleo saudita mantêm rota rumo a Bab el-Mandeb, teste em tempo real de até onde vai o bloqueio (Bloomberg).
Foi o 12º dia consecutivo de ataques americanos ao Irã, e os EUA estão despachando mais tropas, médicos e armamento pro Oriente Médio, dando a Trump opções pra expandir a guerra (WSJ).
Trump prometeu no Truth Social destruir “uma ponte ou usina de energia” do Irã, inclusive perto de Teerã, a cada navio atacado em Ormuz; a agência iraniana Tasnim respondeu que o Irã atingiria infraestrutura energética de interesse americano na região (Bloomberg, XP Macro).
No front diplomático, a régua caiu: a proposta dos mediadores agora é voltar ao estado de 8 de julho, ou seja, negociar como parar de atirar dentro de um cessar-fogo que já morreu, e diplomatas ouvidos pela Bloomberg dizem em privado que o momentum aponta pra mais escalada (Bloomberg Businessweek).
Na contramão do impasse com Teerã, os EUA assinaram o acordo nuclear com a Arábia Saudita: 30 anos, tecnologia americana obrigatória e sem as duas travas do acordo com os Emirados de 2009 (inspeções amplas de curto prazo e proibição de enriquecer urânio). Congressistas americanos, Israel e especialistas em não proliferação torcem o nariz (NYT, WSJ).
Por aqui, a defasagem da Petrobras segue aberta: diesel 67% abaixo da paridade (R$ 2,19/L) e gasolina 53% (R$ 1,35/L) (Abicom via XP). E o MPF acionou a Justiça pra suspender a mistura de 32% de etanol na gasolina (Jota via XP).
Mercados / IA
Alphabet: lucro anual quadruplicou a US$ 112 bi e o cloud veio acima do esperado, mas a projeção de capex subiu a até US$ 205 bi em 2026 e o caixa livre do trimestre ficou negativo. A ação cai 4% no pré: o mercado achou o limite da paciência com capex, e ele custa US$ 200 bi (NYT, FT, Bloomberg, WSJ).
Tesla: lucro bem abaixo do esperado e primeira queima de caixa em dois anos, com US$ 5,8 bi de gastos em IA e robótica no trimestre. A ação cai 6% no pré. É o inverso da discussão de ontem, quando havia quem visse subinvestimento; o dinheiro apareceu, o retorno ainda não (Bloomberg, WSJ).
A divergência do dia: quem paga o capex cai, quem recebe sobe. Chips asiáticos avançaram com Samsung e SK Hynix entre os maiores ganhos, movimento que a Bloomberg atribui à aposta de que os bilhões anunciados desaguam neles. Ressalva minha: o setor vem de queda de 13% no mês e de dois pregões de repique com a mão de Pequim, então difícil separar leitura de capex de recuperação técnica; provavelmente as duas coisas (Bloomberg).
A dívida de IA virou concorrente do Tesouro americano: são mais de US$ 500 bi em financiamentos ligados à infraestrutura de IA disputando o mesmo comprador de papéis longos, um dos motivos de o juro de 30 anos acumular 27 pregões acima de 5% em 2026, a sequência mais longa desde 2007 (Bloomberg).
Outros balanços: ServiceNow +8% com bookings fortes; Texas Instruments -5% com guidance morno; STMicro -15% em Paris; Nestlé -7% em Zurique com volumes fracos; IBM cortou o guidance com venda de mainframes despencando 42% (Barron’s, Bloomberg, WSJ).
Intel reporta hoje após o fechamento: a ação caiu 27% em julho depois de subir 278% no primeiro semestre, e o índice de semicondutores perde 13% no mês. Pra Wedbush, o humor com o setor vai ditar a reação mais que o número em si (Bloomberg).
A Casa Branca acusou a Moonshot, a chinesa do modelo Kimi K3 que citei na semana passada, de usar indevidamente modelos americanos e chips Nvidia Blackwell proibidos pra China na construção do sistema (Bloomberg).
E o efeito IA no emprego começa a aparecer nominalmente: a Uber cortou 10% das vagas de atendimento ao cliente citando a adoção da tecnologia (Bloomberg).
Bancos Centrais / Macro
O BCE decide às 9h15 com expectativa de manutenção e foco na sinalização: a Bloomberg Economics vê setembro como a última alta desse ciclo curto de aperto, com as commodities mantendo o Conselho no rumo (Bloomberg).
Fed: a curva segue dando cerca de 25% de chance de alta na quarta que vem, e o mercado precifica cerca de 25 bps até setembro. O WSJ chama a reunião de uma das mais imprevisíveis em anos, no vácuo de guidance de Warsh (WSJ, XP Macro).
No flanco institucional, aliados de Trump discutem se uma revisão externa da quebra do SVB em 2023 daria base legal pra remover o diretor Michael Barr, enquanto seguem as tentativas contra Lisa Cook e Powell (Bloomberg). Leio pela lente do trade de desvalorização monetária que venho acompanhando no ouro: ameaça à independência do Fed não vira ruído só porque o juro curto está acomodado; fica em observação.
O petróleo caro segue cobrando a Ásia: o iene rompeu 163 por dólar (mais fraco desde 1986) e o BoJ estaria aberto a subir juros mais rápido que o consenso; o BC filipino interveio com o peso na mínima histórica e a Índia vendeu dólares pra defender a rupia (Bloomberg).
Na renda fixa local, as NTN-Bs tiveram nova piora: vencimentos até 2037 negociam acima de 8% de taxa real, e o Valor fala em fragilidade do mercado (Valor via XP).
Brasil
Fechamento de ontem: Ibovespa +2,4% em dia sem noticiário e sem dados locais, movimento que a XP atribui majoritariamente a fluxo; o Broadcast relata entrada estrangeira direcionada especialmente a Vale, Petrobras e bancos. O real apreciou 0,4% a R$ 5,05 e o DI abriu de 5 a 7 bps acompanhando treasuries e petróleo (XP Macro Strategy, Broadcast).
Ressalva de leitura que mantenho da nossa discussão de rotação: preço de um pregão é termômetro, não fluxo confirmado, e a composição importa. Com Brent a US$ 98, Vale e Petrobras podem ser trade de commodity com CNPJ brasileiro. O fluxo na B3 dos próximos dias é quem confirma ou desmente.
Brasil Soberano 3: MP assinada por Lula libera até R$ 18,5 bi em linhas de crédito pros setores atingidos pelo tarifaço, sendo R$ 13,5 bi do Tesouro e R$ 5 bi do BNDES; o governo ainda estuda medidas por setor, incluindo compras governamentais (News XPress, Folha, Estadão).
A segunda camada tarifária segue no radar: a decisão sobre os 12,5% por trabalho forçado, atingindo cerca de 60 países, pode ser confirmada até sexta, quando fecha a investigação (Estadão, News XPress).
Efeito colateral do aperto argentino: com a motosserra de Milei espremendo o consumo e os elétricos chineses avançando, a Argentina cortou drasticamente as compras do Brasil e voltou a ter a China como principal fornecedora (Estadão).
Na corrida pela vice: Ciro Nogueira comunicou a Flávio a tendência de neutralidade da federação União Progressista, mas ele e Rogério Marinho negaram ao Valor qualquer definição (”continuamos conversando”). Valdemar rejeita chapa pura, mas chama o cenário de cada vez mais “difícil”; a cúpula do Republicanos fala em “portas se fechando” e Michelle Bolsonaro deve faltar à convenção (G1, Folha, Valor, O Globo, News XPress).
Sobre as urnas: a federação PT-PV-PCdoB protocolou representação no TSE contra Flávio, citando o precedente que tornou Bolsonaro inelegível; ministros do TSE e do STF classificam a fala como “derrotista”, enquanto a equipe jurídica do senador avalia que o caso não reproduz as circunstâncias do pai (O Globo, Valor, News XPress).
Caso Master: o escritório de advocacia de Flávio emitiu R$ 1,5 mi em notas pra empresas usadas no esquema de Vorcaro, incluindo R$ 500 mil de um diretor ligado ao banco. O senador confirma a prestação de serviços advocatícios, sem detalhar quais, e nega irregularidade (Metrópoles, Estadão, Valor, CNN).
Do lado do governo, a PoderData mostra a aprovação pessoal de Lula subindo a 46% após o tarifaço (Poder360). Faltam 73 dias pro primeiro turno (XP Política).
AGENDA DA SEMANA
Hoje: BCE às 9h15 e jobless claims às 9h30. Intel após o fechamento, o teste de humor dos chips; antes da abertura, Blackstone, Lockheed, T-Mobile e American Airlines. Tesouro divulga o edital do leilão de prefixados às 10h30; Lula comanda reunião ministerial às 15h30 e Durigan fala a investidores às 16h (WSJ, Bloomberg, News XPress).
Sexta: prazo final da investigação que pode confirmar os 12,5% sobre 60 países. Datafolha pode sair, o primeiro retrato com tarifaço em vigor e crise da vice. Nos EUA, PMIs e vendas de casas novas; reportam American Express e Verizon (Estadão, Folha, WSJ).
Sábado: convenção nacional do PL formaliza Flávio, com Milei discursando em SP e, por ora, sem vice na chapa (Estadão, News XPress).
Semana que vem: pesquisas Jota (domingo), Nexus (segunda) e Atlas (terça). Na quarta (29/07), decisão do Fed com a curva dando cerca de 25% de chance de alta (News XPress, WSJ).


