Chips repicam com muleta de Pequim
O repique dos chips vem com mão estatal chinesa, a guerra ameaça abrir uma segunda artéria no Mar Vermelho e a eleição aperta o passo no Brasil.
ONTEM (20 de julho)
EUA completaram o 9º dia de ataques ao Irã, Trump disse que o Irã “vai pagar” pela morte de 3 militares e os Houthis ameaçaram bloqueio marítimo à Arábia Saudita. Brent tocou US$ 90 e fechou perto de US$ 89.
Em NY, S&P 500 caiu 0,2% e Dow 0,6%. Os chips chegaram a subir 3% durante o pregão, mas fecharam em +0,6%. Trump anunciou tarifa de 50% sobre parte dos produtos canadenses.
No Brasil, Ibovespa caiu 0,2%, aos 173,4 mil pontos, e o dólar recuou a R$ 5,09. Começou o período de convenções partidárias.
HOJE / MADRUGADA (21 de julho)
10º dia de ataques EUA-Irã, mais um petroleiro atacado e Ormuz praticamente sem tráfego. Brent segue perto de US$ 90.
Ásia repicou puxada por chips: Kospi +3,6%, Nikkei +3,3%, CSI 300 +3,1%. Futuros do Nasdaq sobem 1,4%.
Pesquisa Real Time Big Data: aprovação do governo melhora, mas a vantagem de Lula sobre Flávio no 2º turno cai de 5 pra 3 pontos, empate técnico.
Ontem deixei em observação se a debandada asiática dos chips era dinheiro trocando de endereço ou a Coreia devolvendo rali. Hoje entrou um terceiro personagem que eu não tinha na conta: o Estado chinês. Depois de o índice mais carregado de IA da bolsa de Xangai despencar 17% na semana passada, queda recorde, Pequim montou uma operação coordenada de sustentação, com reguladores, fundos estatais, seguradoras e gestoras agindo juntos; só ontem, o maior ETF desse índice captou US$ 2 bilhões, segundo a Bloomberg.
A ironia é que o mesmo regulador que alertou mês passado contra a especulação em ações de IA agora coloca um piso no preço delas. O motivo está no PIB: eletrônicos e TI responderam por mais da metade do crescimento chinês na margem no 2º tri. A China não pode deixar esse trade morrer. Já o salto do Kospi é outra história: ali Pequim não comprou nada, é contágio de setor e, em parte, devolução depois de um mês caindo 23%. Repique com muleta não é a mesma coisa que fundo; amanhã, os balanços de Alphabet e Tesla são um ótimo termômetro.
Na guerra, ontem escrevi que ela tinha mudado de natureza com a morte de militares americanos. Hoje ela ameaça se espalhar. Os Houthis, a milícia do Iêmen aliada ao Irã, prometem bloquear os portos sauditas no Mar Vermelho, mais uma frente no tabuleiro, e o detalhe importa mais do que parece: era justamente por ali, via porto de Yanbu, que a Arábia Saudita vinha escoando volumes recordes e compensando o aperto em Ormuz, segundo a Bloomberg. Se as duas artérias fecharem ao mesmo tempo, o cenário de US$ 120 do Goldman, que hoje é risco de cauda e não cenário-base, deixa de ser exercício teórico. Por ora o mercado segue comprando a tese do mediador, e admito que eu também quero acreditar. Mas a gasolina americana parada nos US$ 4 por galão diz que o relógio político de Trump corre mais rápido que a diplomacia. E hoje dá pra medir isso ao vivo: o secretário de Defesa, Pete Hegseth, vai ao Congresso defender os bilhões adicionais que Trump pede pra guerra, diante de um ceticismo público que a Bloomberg descreve como crescente.
Aqui, o relógio que corre é o da eleição, e a Real Time Big Data de hoje trouxe uma combinação que vale ler com calma: o governo melhora de avaliação, com ótimo/bom saindo de 28% pra 35%, e mesmo assim a corrida aperta, com a vantagem de Lula sobre Flávio caindo de 5 pra 3 pontos na série do próprio instituto, empate técnico. Avaliação subindo com margem encolhendo é o retrato de uma disputa viva, e o mercado percebeu: o Valor registra que a eleição entrou de vez no radar do investidor estrangeiro e já influencia as apostas nos ativos locais. Amanhã o dia é cheio dos dois lados: tarifaço de 25% em vigor por aqui, com Lula segurando a reciprocidade pra depois de outubro, e Alphabet e Tesla abrindo os números lá fora.
Segue a versão resumida disso tudo que falei:
Chips repicam com muleta de Pequim
📅 21 de julho. Bom dia. Erik Pajunk da Nomos aqui.
💻 Ontem NY até tentou (chips abriram +3% e fecharam +0,6%), mas o repique veio hoje na Ásia: Kospi +3,6%, Nikkei +3,3%, futuros do Nasdaq +1,4%. Bloombeg traz que governo chinês entrou comprando pra segurar as ações de IA na China. Amanhã Alphabet e Tesla abrem os balanços das big techs.
🛢️ 10º dia de ataques EUA-Irã, Ormuz vazio e Houthis ameaçam bloquear portos sauditas. Brent ronda US$ 90. Goldman diz que passa de US$ 120 se seguir travado.
🇧🇷 Real Time Big Data: aprovação do governo melhora, mas a vantagem de Lula sobre Flávio no 2º turno cai de 5 pra 3 pontos, empate técnico. E Trump deu green card a Eduardo Bolsonaro.
🏛️ Amanhã o tarifaço de 25% entra em vigor. Lula deve segurar a reciprocidade até depois da eleição.
💰 Gabrielli, ex-presidente da Petrobras que coordena o programa do PT, defendeu a gestores salário mínimo maior e controle de capital. A Fazenda, contudo, não validou.
Daqui para baixo é a cozinha: um resumo por tópico de tudo que li hoje nos veículos e fontes que acompanho, com a origem de cada informação. Ter isso organizado me ajuda demais na leitura do dia, e imagino que ajude você também. Tudo com ajuda da minha IA favorita, é claro.
RESUMO POR TÓPICO (com as fontes)
Petróleo / Geopolítica
EUA e Irã trocaram ataques pelo 10º dia consecutivo, mesmo com mediadores tentando destravar uma nova trégua. Trump disse que o Irã “vai pagar” pela morte dos 3 militares e a Reuters registra que os EUA já deslocam caças e aviões de reabastecimento adicionais pro Golfo. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, testemunha hoje no Congresso pedindo bilhões adicionais pra guerra, sob ceticismo público crescente (Bloomberg, NYT, Reuters via News XPress).
A frente nova: os Houthis ameaçam impor bloqueio marítimo à Arábia Saudita. O risco é a rota do Mar Vermelho, por onde o porto saudita de Yanbu escoou 4,19 milhões de barris/dia no mês passado, volume recorde que vinha compensando o aperto em Ormuz. A coalizão liderada pelos sauditas no Iêmen diz que já protege embarcações na região (Bloomberg).
Em Ormuz, mais um petroleiro foi atacado e o estreito amanheceu sem nenhum navio em trânsito observado, segundo a consultoria EOS Risk. Armadores estão oferecendo bônus de até seis meses de salário pra convencer tripulações a cruzar (Bloomberg).
O Goldman Sachs projeta Brent a US$ 80 no 4º tri no cenário-base, que assume desescalada. Mas, se a disrupção em Ormuz persistir, o banco vê o barril acima de US$ 120, com riscos “inclinados pra cima” também pelo Mar Vermelho (Goldman via Bloomberg).
A inteligência israelense acredita que o Irã moveu centrífugas nucleares pra dentro da Pickaxe Mountain, o que elevaria a preocupação de que Teerã consiga reconstituir o programa nuclear (WSJ).
Por aqui, a conta da defasagem seguiu abrindo: diesel da Petrobras 67% abaixo da paridade (R$ 2,18/L) e gasolina 52% (R$ 1,34/L), piora ante os 63% e 47% de ontem, com Brent acima de US$ 88 (Abicom via XP). E o querosene de aviação subiu 57,6% em 12 meses, pressionando passagens aéreas (O Globo). Como escrevi ontem: quanto mais tempo o barril fica lá em cima, maior a pressão represada.
Mercados / IA
O resgate chinês em detalhe: depois de o Star 50 cair 17% na semana passada, queda recorde, Pequim montou uma ofensiva com reguladores, investidores estatais, seguradoras e gestoras pra sustentar as ações de IA. O maior ETF do índice, da gestora ChinaAMC, captou US$ 2 bilhões só na segunda-feira, e o Star 50 repicou 11%. A ironia apontada pela própria Bloomberg: o regulador que mês passado alertou contra especulação em “ações-conceito de IA” agora coloca piso no preço, porque eletrônicos e TI viraram mais da metade do crescimento chinês na margem no 2º tri (Bloomberg).
Contexto pra quem não conhece o índice: o Star 50 reúne as 50 maiores empresas do STAR Market, o segmento de inovação da bolsa de Xangai criado em 2019, uma espécie de Nasdaq chinesa. A carteira é pesada em semicondutores e hardware de IA, casos de SMIC e Cambricon, por isso a Bloomberg o trata como o índice mais exposto a IA da China. Não é notícia do dia, é o mapa pra entender onde o dinheiro estatal entrou.
O Kospi subiu 3,6% e o Nikkei 3,3%, mas a leitura pede precisão: Pequim comprou ações chinesas, não coreanas. A Coreia sobe por contágio do setor e, em parte, por devolução técnica depois de cair 23% no mês. Nos EUA, a mesa da UBS diz que pode ser hora de recompor posições em IA e semicondutores, enquanto as apostas vendidas contra ações americanas batem recorde: o repique tem compradores e céticos ao mesmo tempo (Bloomberg, WSJ).
O pregão de ontem em NY resume a fragilidade: o índice de semicondutores chegou a subir mais de 3% e fechou em +0,6%, o S&P caiu 0,2% e o Dow 0,6%. Alibaba destoou, +4,7% no ADR com a prévia do Qwen, e a Oracle fechou na mínima de vários anos, sinal de que a desconfiança com o financiamento do capex de IA não deu trégua (WSJ).
Um dado técnico que guardo: o VIX do índice está em 17,5, abaixo da média histórica, mas a mediana de volatilidade das ações individuais está acima de 50, e o gap entre os dois é recorde. Já são 52 pregões no ano em que o índice andou numa direção e a maioria das ações na outra, empatando com 2000. Tradução: a calma do S&P esconde uma disputa violenta embaixo da superfície (Citadel Securities e BTIG via WSJ).
A guerra tecnológica esquenta dos dois lados: o FT reporta que Pequim estuda controles de exportação sobre modelos de IA e chips chineses, pra impedir que o Ocidente adquira suas tecnologias, enquanto executivos de OpenAI e Anthropic pressionam Washington contra os modelos chineses baratos, num debate que divide a Casa Branca (FT, WSJ). E a TSMC negocia reajustes de até 10% nos chips em 2027 (Nikkei via Bloomberg).
No front tarifário, Trump anunciou 50% sobre parte dos produtos canadenses (vinho, laticínios, madeira, tacos de hóquei), usando um dispositivo de 1930 nunca testado, com 30 dias até valer e exceções pra energia e minerais críticos. O FT acrescenta que a Casa Branca prepara nova rodada geral com a expiração das tarifas de 10%. O Canadá promete responder na mesma moeda (FT, NYT, Bloomberg).
Uma juíza federal pausou por 14 dias a compra da Warner Bros. Discovery pela Paramount, de US$ 110 bilhões, dizendo que o negócio “provavelmente” viola a lei antitruste. O prazo aperta: as empresas queriam fechar já amanhã (Bloomberg, NYT).
Bancos Centrais / Macro
O Fed segue em silêncio até a decisão de 29/07, e a incerteza tem endereço: os fundos de money market, que administram mais de US$ 8 trilhões, encurtaram o prazo médio das carteiras de 45 pra 40 dias desde maio, preservando flexibilidade pra reaplicar caso o juro suba. Sem guidance de Warsh, cada dado vira gatilho (Crane Data via Bloomberg).
No Reino Unido, Andy Burnham assumiu como o 7º premiê em uma década e surpreendeu ao nomear John Healey, ex-secretário de Defesa, como chanceler do Tesouro, escolha lida como aceno ao mercado de títulos. Ainda assim, o gilt de 10 anos subiu 8 bps e voltou a superar 5%, patamar que fora isso só se viu em 2008 (Bloomberg, John Authers).
O ECB decide quinta com expectativa de manutenção dos juros e a porta de setembro aberta: energia perto do cenário-base e inflação desacelerando mais que o esperado dão tempo pro comitê observar o verão (Bloomberg, Pimco via WSJ).
Brasil
A Real Time Big Data em detalhe: ótimo/bom subiu de 28% pra 35% desde o fim de maio, ruim/péssimo caiu de 47% pra 38% e a aprovação foi de 43% pra 46%. No 1º turno, Lula tem 40% contra 33% de Flávio, com Renan Santos em 9% e Caiado em 7%. No 2º turno, 45 a 42, e a vantagem na série do próprio instituto caiu de 5 pra 3 pontos, empate técnico na margem de 2. Foram 2.000 entrevistas entre 18 e 20 de julho (XP Política). Ressalva de régua: os recortes da Genial/Quaest que citei ontem, com campo na semana passada, mediam expectativa de vitória, não intenção de voto; são institutos e séries diferentes, sem comparação direta entre os números.
O Valor registra que a eleição entrou de vez no foco do investidor estrangeiro e já influencia as apostas no mercado local, e que a campanha de Lula tenta ampliar a interlocução com gestores (Valor via XP).
Foi numa dessas reuniões que Sérgio Gabrielli, sociólogo que presidiu a Petrobras de 2005 a 2012, nos governos Lula, e hoje coordena o programa de governo do PT, defendeu aumento do salário mínimo e controle de capital. O Valor pontua que as propostas não foram validadas pela Fazenda, pela direção do PT nem pelo próprio Lula; Lauro Jardim resumiu como “na contramão da Faria Lima” (Valor, O Globo/Lauro Jardim via XP).
O tarifaço de 25% entra em vigor amanhã. Pelo Estadão, o Planalto lê a sobretaxa como ato político, avalia que Trump não negocia nada antes de outubro e quer segurar as medidas de reciprocidade até depois da eleição, pra não dar palanque a Flávio. Enquanto isso, o governo ouve os setores mais afetados pra calibrar o socorro (Estadão, O Globo).
Nas convenções, o PL formaliza Flávio no sábado sem vice definido: Valdemar sonda Tereza Cristina, a federação União-PP apoiou Tarcísio em SP com Flávio presente no palco, mas tende à neutralidade nacional, e a Folha reporta que Lula avalia faltar aos debates de TV do 1º turno, tema que divide o PT (XP News Clipping, CNN, Estadão, Folha, O Globo).
E o governo Trump concedeu green card a Eduardo Bolsonaro, condenado no Brasil, que dá direito a morar e trabalhar nos EUA. Eliane Cantanhêde lê o benefício como prêmio concreto pelos trabalhos do ex-deputado junto à Casa Branca (Folha/Mônica Bergamo, Estadão).
Fechamento de ontem: Ibovespa caiu 0,2%, aos 173,4 mil pontos, o dólar recuou 0,4% a R$ 5,09 e o DI jan/27 fechou em queda de 5 bps, devolvendo parte dos 20 bps de alta de sexta, com os vértices longos abrindo até 2 bps (XP Macro). No Focus, a mediana do IPCA 2028 subiu 8 bps, pra 3,78%, e o Valor chama de nova piora nas expectativas (XP, Valor).
AGENDA DA SEMANA
Hoje: GM, 3M, Capital One e Chubb reportam nos EUA; ADP semanal de emprego. Agenda local fraca, com leilão do Tesouro (WSJ, News XPress).
Quarta: o tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros entra em vigor; Alphabet e Tesla abrem a temporada das big techs, com IBM, AT&T e Texas Instruments no mesmo dia. O capex de IA segue sendo o número que o mercado vai caçar (WSJ, Bloomberg).
Quinta: decisão do ECB, com expectativa de manutenção; Intel, Blackstone e American Airlines reportam; jobless claims. Na Expert XP, fala Janet Yellen (Bloomberg, WSJ, XP).
Sexta: American Express e Verizon; PMIs e vendas de casas novas nos EUA. Galípolo fala na Expert XP e um novo Datafolha pode sair (WSJ, XP News Clipping).
Sábado: convenção do PL formaliza Flávio, com Milei em SP; no domingo que vem o senador depõe a Moraes dia 28 (Estadão, Folha via XP).

