Citrini Research desenha nos EUA o cenário de Mad Max
Comentários de Beto Saadia
O relatório da Citrini cai na armadilha histórica do investidor. E do ser-humano. De acreditar que todo avanço tecnológico decentraliza o consumo, que aumenta a competição. Tem sido assim no passado da tecnologia digital?
Um funcionário arquiteto de IA de uma empresa de logística substitui um software caro contratado pela sua mesma empresa? A resposta hoje é não.
Mas com os agentes de IA, a perspectiva de isso acontecer é real. De toda forma, quem vai ganhar esse jogo, o funcionário da nova geração ou a empresa de software que demitirá metade dos funcionários e cobrará metade por um produto.
Proponho um exercício. Se você é o CFO de uma empresa de capital aberto, discrimine todos os seus fornecedores. Quais desses você tem capital humano para fazer in-house? Diria que a maioria. Por que não faz? Porque outsourcing é melhor e mais barato.
Se os agentes de IA commoditizaram a criação de software, empresas Saas precisarão diferenciais competitivos como dados proprietários, integração, risco regulatório e legal. Quais dessas farão isso? Esse deveria ser a pergunta.
A realidade é que um monte de fundos de Private Equity com cotistas leigos comprou essas empresas e entupiu elas de dívida.
Outro equívoco do texto. Acreditar que o consumo digital é feito como um leilão, na busca pelo produto ou serviço mais barato. A Citrini acredita que a internet será um grande site da Buscapé late 90s.
Hoje, a forma mais barata de consumir um produto na internet não é buscando pelo produto mais barato. É se fidelizando a alguma plataforma. Eu não uso o Mercado Livre porque é cômodo (o texto chama de consumo passivo). A fidelização em poucas plataformas me oferece frete grátis, cashback competitivo, Disney+. A Vivo no Brasil paga meu Perplexity.
Do mesmo jeito Solana ou Ethereum não disruptarão a Mastercard. Se nem o PIX fez isso. É o mesmo erro achar que o cartão é uma empresa de meios de pagamento ou que a Ambev é uma empresa de bebidas. Não é.
Mastercard é antecipação de crédito, score de risco, segurança digital, insights de mercado. Ambev é logística.
Sobre o cenário Macro
O texto do Alap Shah vai além do corporativo. Ele desdobra catastroficamente que a IA provocará demissões em massa.
Todas as narrativas pessimistas com tecnologia usam o mesmo modelo linear: choque tecnológico, demissões, queda de preços e empresas quebrando.
Fosse assim, o Estados Unidos seriam o cenário de um filme do Mad Max.
A história mostra uma realidade bem diferente.
Sejamos realistas. Não podemos ignorar os agentes de IA. Na primeira derivada, empresas da Fortune 500 perderão bilhões de dólares em valor de mercado (já perderam).
Mas commoditização dos processos dentro das empresas não significa colapso. Em vez disso, reduz custos, democratiza o acesso e aumenta a renda da sociedade. Foi assim com a televisão, o PC, a internet.




