Dado de inflação dos EUA em foco; Bolsa brasileira sofrendo
A inflação americana aliviou o Fed sem resolver nada, e a bolsa brasileira caindo sozinha entre os emergentes
ONTEM (11 de agosto)
Ibovespa caiu 2,50%, aos 167.874 pontos, menor nível desde janeiro, com o dólar subindo 1,0% a R$ 5,17.
JP Morgan rebaixou a bolsa brasileira de overweight para neutro, e os estrangeiros já retiraram R$ 5,55 bi da B3 em agosto.
IPCA de julho a 0,07% no mês levou os 12 meses de 4,64% para 4,44%, e o Brent fechou a US$ 88,91 depois de tocar US$ 90.
HOJE / MADRUGADA (12 de agosto)
CPI de julho nos Estados Unidos veio cravado no consenso nas quatro leituras: 0,1% no mês no cheio, 3,4% no ano, 0,2% no núcleo mensal e 2,5% no núcleo anual.
Depois do dado, o juro de 10 anos ronda 4,66% e a aposta de alta do Fed em setembro cede para cerca de 45%, ante 50% antes da divulgação.
Brent perto de US$ 89, depois de ataque no Mar Vermelho com 6 mortos e de disparo americano contra navio no Golfo de Omã.
O dado do dia era o CPI de julho nos Estados Unidos, e ele veio cravado no consenso nas quatro leituras. O núcleo em 0,2% no mês é exatamente o teto do que é compatível com a volta à meta de 2%, então o Warsh passou, mas passou raspando. O comitê apostou que a inflação voltaria aos 2% sem aperto adicional, com os choques de tarifa e de energia se dissipando, e essa previsão vinha escorregando porque os choques seguem se sobrepondo, com a alta de preço de equipamento e software ligada à corrida de inteligência artificial entrando por cima. O número de hoje devolve fôlego a essa aposta e tira o Warsh da parede antes de Jackson Hole. Resolver, não resolveu: a aposta de alta em setembro apenas cedeu de 50% para 45%, o Treasury devolveu parte do ganho porque parte do mercado esperava coisa melhor, e a conta vai para o CPI de agosto, que sai poucos dias antes da decisão de 16 de setembro. Ele precisa que agosto repita julho.
Aqui a bolsa despencou de novo, e vale insistir num ponto: não foi a ata do Copom nem o IPCA. O painel de emergentes que acompanho mostra o Brasil caindo sozinho. Em sete dias corridos, o EWZ, o ETF de ações brasileiras negociado em Nova York, perdeu 7,36% em dólar, enquanto os emergentes como classe ficaram de lado, com o EEM subindo 0,32%, e os pares diretos andaram para cima: Colômbia 3,87%, África do Sul 4,45%, Peru 2,10%. O real foi a única moeda grande de emergente a ceder para o dólar no período, num intervalo em que o índice do dólar ficou parado. Quando a bolsa e a moeda descolam na mesma direção, com o pano de fundo global neutro, não é commodity nem Fed: é dinheiro saindo daqui. O gatilho que ganhou nome foi o rebaixamento do JP Morgan, que citou piora na percepção de risco fiscal ligada ao processo eleitoral. Depois do CPI, o índice futuro por aqui seguia de lado.
RESUMO POR TÓPICO (com as fontes)
Giro: performance relativa do Brasil contra os pares
EWZ (Brasil) -7,36% em sete dias em dólar (TradingView).
EEM +0,32%, VWO +0,91% e EMXC +0,43% no mesmo período: emergentes como classe de lado a levemente positivos (TradingView).
Pares diretos em sete dias: Colômbia +3,87%, África do Sul +4,45%, Taiwan +3,58%, Peru +2,10%, Chile +0,05%, México -1,47% (TradingView).
ILF (LatAm 40) -4,82%, mas o fundo é cerca de metade Brasil, e o resto da região está no zero a positivo (TradingView).
O real foi a única moeda relevante de emergente a perder para o dólar no período (USDBRL +0,70%), com peso colombiano +2,28%, rand +1,39% e peso mexicano +1,09% (TradingView).
DXY praticamente parado em sete dias (-0,02%) e AUDUSD +0,28%: o pano de fundo global não explica a queda brasileira (TradingView).
No ano, EWZ +5,22% contra Coreia +65,58%, Taiwan +61,47%, Colômbia +34,70% e EM ex-China +27,82% (TradingView).
Real +5,79% no ano contra o dólar: praticamente todo o retorno do EWZ em 2026 vem do câmbio, não da bolsa (TradingView).
Estados Unidos: CPI e Fed
CPI de julho veio em linha nas quatro leituras: 0,1% no mês no cheio, 3,4% no ano, 0,2% no núcleo mensal e 2,5% no núcleo anual, todas iguais ao consenso (Bloomberg).
O núcleo subiu 0,22% no mês, o que derrubou a variação de 12 meses para 2,5% (WSJ/Timiraos).
Aluguel subiu 0,1% e respondeu por dois terços da alta do índice cheio, ou seja, o resto da cesta ficou quieto (Bloomberg).
Reação contida: o juro de 10 anos ronda 4,66%, ainda em queda no dia, mas devolvendo parte do ganho, sinal de que parte do mercado esperava um dado mais fraco (Bloomberg).
A aposta de alta do Fed em setembro cedeu para cerca de 45%, ante os 50% precificados antes da divulgação (Bloomberg).
Os números mensais isolados não acendem alerta de inflação e estão amplamente em linha com a meta do Fed, e o que Warsh precisa agora é um relatório de agosto com os mesmos números (Bloomberg).
Antes do dado, o mercado precificava cerca de 50% de chance de alta em setembro (Bloomberg, XP Furla News, SoFi).
Nick Timiraos, do WSJ, explica por que este CPI pesa mais que a média: as autoridades previram que a desinflação voltaria assim que os choques se dissipassem, e em vez disso eles seguem se sobrepondo, com a confiança nessa previsão escorregando (WSJ/Timiraos).
Ainda via WSJ/Timiraos: economistas esperam núcleo de 0,2% no mês; leituras nesse nível ou abaixo são compatíveis com a volta à meta de 2%, acima disso não são. O núcleo do índice preferido do Fed estava em 3,3% em junho, contra 2,8% um ano antes (WSJ/Timiraos).
Também via Timiraos: perguntado se juro mais alto seria o remédio, Warsh disse que poderia ser parte da solução, mas talvez não a principal, e sugeriu que a alta dos juros longos já teria feito parte do trabalho do Fed (WSJ/Timiraos).
O juro de 30 anos subiu enquanto Warsh falava na coletiva de julho e não voltou, fechando ontem a 5,24%; para James Egelhof, do BNP Paribas, o movimento sugere algo mais fundamental na percepção do mercado sobre o Fed do Warsh (WSJ).
Seis dos doze votantes já sinalizaram que poderiam apoiar alta se a inflação não melhorar, e três dissentiram em julho a favor de subir (WSJ/Timiraos).
Paul McCulley, ex-economista-chefe da Pimco, avalia que Warsh limitou as próprias opções ao falar com tanta ênfase sem se comprometer com ação (WSJ).
Ironia registrada por Timiraos: em abril de 2025 Warsh criticou a política de dependência de dados do Fed, chamando de precisão falsa e complacência analítica esperar por números revisáveis (WSJ/Timiraos).
Susan Collins, do Fed de Boston, apoiaria alta em setembro se a inflação seguir pressionada (FT).
Bloomberg Economics projeta o núcleo anual caindo a 2,4%, menor desde março de 2021 (Bloomberg).
UBS: posicionamento recorde vendido em títulos globais deixa o mercado vulnerável a uma reversão (Bloomberg).
Se o Fed segurar e o Banco do Japão subir em setembro, o risco passa a ser o desmonte do carry trade em ienes (Barron’s).
Vendas de casas usadas caíram 1,7% em julho, mínima de três meses (Bloomberg).
Petróleo e Oriente Médio
Houthis mataram 6 pessoas em ataque a navio no Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho, as primeiras mortes em ataques a navios em mais de um ano (XP Furla News).
Forças americanas dispararam mísseis contra navio-contêiner que tentou romper o bloqueio no Golfo de Omã (WSJ, XP Furla News).
Brent fechou em alta de 1,4% a US$ 88,91 depois de tocar US$ 90, e hoje ronda US$ 89 (WSJ Markets P.M., XP Furla News).
Trump afirma que os Estados Unidos têm controle total de Ormuz e que o Irã pode ser destruído caso tente algo (News XPress, Bloomberg).
Irã reitera que o estreito segue fechado até que suas exigências sejam atendidas, enquanto o Paquistão diz que os dois lados estão perto de algum entendimento (Bloomberg, XP Fechamento).
Reserva estratégica americana abaixo de 300 milhões de barris, menor nível desde 1983 (XP Research, Barron’s).
Governo Trump projeta interrupção de cerca de 600 mil barris por dia até o fim de 2027 e elevou as projeções de preço de gasolina e diesel (Bloomberg).
Agência Internacional de Energia vê déficit maior de oferta com a reescalada do conflito (WSJ Markets A.M.).
Tecnologia e inteligência artificial
CoreWeave com o quinto trimestre seguido de receita recorde e carteira de contratos de US$ 104 bi, com a ação subindo 17% no pré-mercado (WSJ, Barron’s).
Super Micro com vendas quase dobrando no trimestre e ação em alta de 9% no pré-mercado (WSJ, Barron’s).
Kospi +3,7% com Samsung e SK Hynix, após relato de que a Temasek estuda investimento direto nas duas (Bloomberg).
Custo de proteção do crédito da Nvidia recuou depois do pacote de US$ 500 bi montado com Apollo, Blackstone, BlackRock, Brookfield, Goldman Sachs e KKR (Bloomberg).
Bank of America anuncia US$ 250 bi para a agenda America First, em data centers, energia e minerais críticos (FT, WSJ).
Anthropic passa a marcar textos e arquivos gerados por inteligência artificial no mundo todo, para atender à lei europeia (the news).
Brasil: política
Pesquisa CNT/MDA: Lula 48% e Flávio 39% no segundo turno, com a vantagem caindo de 12,5 para 8,9 pontos em dois meses (Estadão, XP Fechamento).
Hugo Motta declarou apoio à reeleição de Lula depois de o partido dele rejeitar coligação com Flávio Bolsonaro (Folha, XP News Clipping).
Lula se reúne com Alcolumbre hoje; o presidente do Senado sinaliza trégua, mas a PEC do fim da escala 6x1 só deve ser votada depois das eleições (Folha, O Globo, News XPress).
Comissão mista da MP que acaba com a taxa das blusinhas é instalada hoje, e o texto precisa ser votado até 8 de setembro (O Globo, News XPress).
Senado aprovou o Profert, com renúncia fiscal limitada a R$ 1 bi por ano, que deve entrar no PLP dos combustíveis junto com minerais críticos (Folha, XP Política, Estadão).
Michelle e Flávio se reuniram por uma hora e meia e gravaram vídeo juntos, no primeiro encontro depois da crise pública, mas ela não deve viajar nas agendas de campanha (Folha, Valor, O Globo, CNN).
Governo ficou sem verba para R$ 105,5 bi em despesas e restos a pagar, com Saúde e Educação entre os mais afetados (Estadão).
Moraes determinou busca e apreensão contra suposto informante de jornalista em caso ligado ao ministro Flávio Dino, e entidades de imprensa reagiram (Folha, Estadão, the news).
Faltam 53 dias para o primeiro turno (XP Política).
Outros
Nas primárias americanas, David Crowley derrotou a socialista Francesca Hong no Wisconsin, freando a ala progressista do partido (WSJ).
Tensão entre Scott Bessent e a primeira-ministra Sanae Takaichi sobre a política do Banco do Japão ameaça o esforço de socorro ao iene, que voltou perto de 160 por dólar (Bloomberg).
Colômbia declara emergência econômica após terremoto com mais de 180 mortos, com as exportações de café interrompidas (Bloomberg, Estadão).
Eclipse solar total na Europa hoje, o primeiro no continente desde 1999 (WSJ, NYT).
Ouro sobe 0,8%, a US$ 4.476 (WSJ Markets A.M.).
AGENDA DA SEMANA
Hoje: CPI de julho nos Estados Unidos já divulgado às 9h30, em linha com o consenso. No Brasil, PMS de junho, instalação da comissão mista da MP das blusinhas e Lula assinando decretos de combustíveis e energia às 15h. Balanços de Cisco e StubHub depois do fechamento e leilão do Treasury de 10 anos.
Quinta: PPI de julho e pedidos de seguro-desemprego nos Estados Unidos. Fala de Beth Hammack, do Fed de Cleveland, uma das três dissidentes de julho, o que dá peso extra ao que ela disser depois do CPI. Leilão de 30 anos e balanços de Applied Materials e Tapestry.
Sexta: vendas no varejo, estoques e sentimento do consumidor de Michigan nos Estados Unidos.
Ainda em agosto: PCE de julho, o índice de inflação preferido do Fed, e Jackson Hole, onde Warsh tem a chance de explicar nos termos dele o que não explicou na coletiva de julho. Com o CPI comportado, ele chega lá sem estar sob pressão.
O caminho até setembro: payroll de agosto em 4 de setembro, CPI de agosto na segunda semana do mês e a decisão do Fed em 15 e 16 de setembro, que vem acompanhada das projeções e do gráfico de pontos. É o CPI de agosto que decide, não o de hoje.


