Deflação nos EUA abre espaço para corte de juros e derruba o dólar globalmente
Dados abaixo das projeções reacendem a tese de "pouso suave" na economia americana; reação no Brasil foi de forte queda do dólar e rali do mini-índice.
A inflação mais fraca nos Estados Unidos reacendeu as apostas de corte de juros pelo Federal Reserve (Fed) e provocou uma reação imediata nos mercados globais nesta terça-feira. O núcleo do índice de preços ao consumidor (CPI) veio zerado em junho, abaixo das expectativas, derrubando o dólar e impulsionando ativos de risco, incluindo o Ibovespa.
O núcleo do CPI mensal ficou em 0,0% em junho, contra expectativa de alta de 0,2%, enquanto o indicador anual desacelerou para 2,6%, abaixo dos 2,9% projetados. A inflação cheia também veio abaixo das estimativas, com alta acumulada de 3,5% em 12 meses e queda mensal de 0,4%.
A reação nos ativos brasileiros foi instantânea logo após a divulgação do indicador. O mini-contrato de dólar futuro (WDOQ26) caiu de forma acentuada em 1,26%, cotado a 5.096,50 pontos, trabalhando bem abaixo de sua média móvel ponderada pelo volume (VWAP) diária, que ficou em 5.110,92 pontos. No mercado à vista, o dólar recuou 1,29%, cotado a R$ 5,0707, liderando as perdas globais da moeda norte-americana frente a divisas emergentes como o peso chileno (-0,91%) e o peso mexicano (-0,64%).
Na outra ponta, o Ibovespa futuro (WINQ26) respondeu com uma forte arrancada, superando a VWAP do dia (178.178 pontos) e registrando alta de 0,57%, aos 178.405 pontos, o que limpou as perdas registradas na abertura do pregão. O movimento de alta generalizada refletiu o alívio nas taxas dos títulos públicos do Tesouro americano (Treasuries), que recuaram de forma generalizada na sessão.
Warsh adota tom duro, mas vê estabilidade de preços à vista
Em depoimento preparado para o Congresso divulgado na sequência dos dados, o presidente do Fed, Kevin Warsh, procurou equilibrar o otimismo com a prudência regulatória. Embora tenha reconhecido que a atividade econômica “está se expandindo em ritmo sólido” e que o mercado de trabalho “está em um equilíbrio bastante bom”, Warsh reforçou o compromisso com a meta de inflação de 2% e pontuou que os juros longos mais baixos devem ser consequência da estabilidade de preços. Ele destacou ainda que os membros do comitê têm “tolerância zero para uma inflação persistentemente elevada” e que se a política monetária for conduzida corretamente, o surto inflacionário será “coisa do passado”.
Para João Tonello, analista CNPI da NMS Research, a combinação do CPI mais fraco com o relatório oficial de empregos (payroll) da semana anterior, que mostrou a criação de apenas 57 mil vagas nos EUA, enfraquece de forma relevante o argumento pela manutenção de juros restritivos por tempo prolongado. Ele estima que a probabilidade de um primeiro corte de juros pelo Fed em setembro, que antes oscilava perto de 40%, deve ser reprecificada pelas mesas de operação para a casa dos 70%.
O analista da NMS pondera que, embora o Federal Reserve dificilmente tome uma decisão de corte na reunião deste mês, agendada para os dias 28 e 29 de julho, os setores domésticos mais sensíveis aos juros podem começar a atrair fluxo antes mesmo da decisão formal do Fed, já que os mercados costumam antecipar mudanças no ciclo monetário.



