Eneva dispara com escassez global de turbinas
Papéis registram altas acima de 15% no dia
Quem acompanha as ações da Eneva (ENEV3) viveu um pregão que justifica meses de paciência. Os papéis dispararam mais de 15%, renovaram máxima histórica e lideraram o Ibovespa. O motivo tem nome e sobrenome: o Leilão de Reserva de Capacidade, o famoso LRCAP, que aconteceu nesta quarta-feira, 18 de março, e trouxe resultado que superou até as expectativas mais otimistas.
O leilão que quase não aconteceu
O LRCAP é um leilão do governo federal em que usinas termelétricas e hidrelétricas são contratadas não para gerar energia o tempo inteiro, mas para ficarem de prontidão. É como um seguro: o país paga para ter essa capacidade disponível, principalmente nos horários de pico, quando o sol já se pôs e a energia solar desaparece da rede.
Para a Eneva, esse leilão era o evento mais esperado do ano. A empresa tem cerca de 1,5 GW em usinas cujos contratos estão vencendo e precisam ser renovados. Além disso, possui uma carteira robusta de projetos novos, como a Ceiba, no Ceará, com potencial de 2,4 GW, e a expansão da Celse, em Sergipe, que dependiam desse certame para sair do papel.
Acontece que em fevereiro, quando a ANEEL divulgou os primeiros preços-teto do leilão, o mercado entrou em pânico. Os valores eram baixos demais para viabilizar novos projetos. As ações da ENEV3 despencaram quase 20% em poucos dias, e a tese de investimento ficou sob uma nuvem de incerteza. Analistas do Citi e do UBS BB alertaram que, naqueles termos, nenhum megawatt novo seria adicionado ao sistema. O leilão correria o risco de ficar vazio.
O risco de apagões futuros soou o alarme no governo. Em menos de uma semana, o Ministério de Minas e Energia voltou atrás e praticamente dobrou os preços-teto para usinas existentes e elevou em mais de 80% os valores para projetos novos. A ANEEL aprovou os novos parâmetros em 13 de fevereiro, e as ações já reagiram com altas de 8% no mesmo dia.
O resultado de hoje: preços nas alturas
O que chamou atenção no leião de hoje foi que os preços finais ficaram colados nos tetos, sinal inequívoco de que a oferta era insuficiente para atender toda a demanda.
Na rodada do produto 2029, que era o vértice mais relevante para a Eneva por envolver seus grandes projetos greenfield, o preço marginal fechou em R$ 2.890.000 por MW ao ano — apenas R$ 10 abaixo do teto de R$ 2.900.000. Em linguagem simples, o mercado disse que está disposto a pagar o preço máximo permitido para ter essas usinas disponíveis no futuro. A escassez global de turbinas a gás para o período de 2028–2029 prevaleceu.
Por que a Eneva é a grande vencedora
A Eneva não é uma termelétrica comum. Ela opera no modelo chamado “Reservoir-to-Wire”, extrai seu próprio gás natural de reservas no Maranhão e no Amazonas e o queima nas próprias usinas para gerar energia. Enquanto a maioria das concorrentes depende de gás importado (sujeito ao dólar e ao mercado global), a Eneva produz com custo em reais e tem controle sobre toda a cadeia.
Essa vantagem se traduz em margem para dar lances competitivos nos leilões. Soma-se a isso o fato de que a empresa se antecipou e comprou turbinas a gás antes da explosão global de preços desses equipamentos, num mercado hoje em que falta equipamento. Quem não comprou turbina antes simplesmente não consegue montar uma usina nova a tempo.
Os números por trás do otimismo
Os resultados financeiros recentes reforçam o momento. No quarto trimestre de 2025, a Eneva reverteu um prejuízo de R$ 1 bilhão no ano anterior para um lucro líquido de R$ 57 milhões. A receita líquida cresceu 24,5% e o EBITDA ajustado avançou quase 20%. As reservas de gás na Bacia do Parnaíba foram certificadas em 37,9 bilhões de metros cúbicos, com um índice de reposição de reservas de 111%, ou seja, a empresa descobriu mais gás do que consumiu.
Quem está por trás
Vale lembrar que o BTG Pactual é um dos principais acionistas da Eneva, com participação na faixa de 25% a 37% em diferentes momentos. É uma sinalização skin in the game de um dos maiores bancos de investimento do país.
O que o investidor deve guardar
O leilão de hoje não foi o momento em que o mercado precificou que o Brasil precisa de térmicas a gás para garantir que a luz não apague e que está disposto a pagar caro por isso.
A Eneva, com seus ativos prontos, turbinas compradas e gás próprio é a empresa mais bem posicionada para capturar esse valor.
O registro de alta acima de 15% ao longo do dia e a máxima histórica de hoje refletem exatamente isso. O leilão garantiu fluxo de caixa previsível por 10 a 15 anos.





Muito bom o artigo!