Estímulo secreto e IA: JP Morgan eleva China para "compra"
A tese de alta se apoia na liderança da IA generativa – impulsionada pela vantagem chinesa na geração de energia – e na antecipação de um significativo impulso fiscal
O mercado chinês está prestes a sair da UTI e correr uma maratona, segundo o JP Morgan. Em um movimento que sacode os portfólios de mercados emergentes, o banco de investimento elevou a recomendação para as ações da China de forma enfática para “Overweight” (equivalente a compra), projetando que o risco de “grandes ganhos é substancialmente maior” do que o de perdas significativas nos próximos anos.
A aposta do JP Morgan não é apenas em uma recuperação cíclica, mas em uma transformação estrutural impulsionada por três pilares: a liderança global na Inteligência Artificial (IA), um volume significativo de estímulo fiscal antecipado e uma inédita agenda de retorno ao acionista.
A China, que viu suas ações caírem 33% em relação ao pico de 2020, está agora nos estágios iniciais de saída de um ciclo de baixa de quatro anos. Para o banco, as avaliações atuais são “aceitáveis” e o posicionamento dos investidores ainda está “leve”, indicando espaço de sobra para o rally.
A nova corrida da IA: China com vantagem de “power play”
O ponto de inflexão mais quente, segundo o relatório, é a IA Generativa. A China não está apenas na corrida, mas tem uma vantagem competitiva crucial que a diferencia dos EUA: o custo-benefício e o fornecimento de energia.
O lançamento dos Large Language Models (LLMs) DeepSeek V3 e R3, em 2025, foi o gatilho. O JP Morgan argumenta que a China tem uma abordagem holística que inclui open-source, aplicações nativas e, fundamentalmente, uma vantagem na geração de energia – um insumo caríssimo para rodar a IA em escala.
Gigantes da tecnologia como Alibaba, Baidu e Tencent estão integrando a IA profundamente. O Alibaba, por exemplo, tem um plano de capex de US$ 53 bilhões em nuvem e IA e está posicionado para capturar uma fatia desproporcional do valor gerado, com a tecnologia sendo aplicada da robótica à direção autônoma.
O empurrão de Pequim: estímulo e o fim da competição destrutiva
Pequim está abrindo o caixa e reformando as regras do jogo corporativo.
A expectativa é de um impulso fiscal substancial, com a maior parte do aumento de 1 trilhão de yuans na emissão de títulos governamentais sendo front-loaded (antecipada). Economistas do JP Morgan elevaram a projeção de crescimento do PIB para 2026 para 4,4%, com o governo disposto a injetar um thrust fiscal de 0,4% do PIB.
Além disso, o 15º Plano Quinquenal traz uma política estrutural chamada “anti-involution” – um esforço para frear a competição destrutiva por preços, reduzir o excesso de capacidade e restaurar a lucratividade das empresas em setores que vão do aço e carvão a carros elétricos e e-commerce. Embora seja um freio no crescimento top-line, o JP Morgan afirma que esta é uma política “muito positiva para as margens e lucros corporativos” dos líderes de mercado.
O foco no acionista e a busca por autossuficiência
O movimento mais pragmático para o investidor é a nova atenção ao retorno dos acionistas.
Como parte de uma reforma do mercado de capitais iniciada em 2024, as empresas, sobretudo as estatais (SOEs), estão alinhando seus KPIs com o mercado. Isso se traduz em um aumento notável nas recompras de ações e nos pagamentos de dividendos, melhorando a governança e a saúde fiscal percebida.
Em paralelo, a busca por autossuficiência tecnológica impulsiona inovação em áreas estratégicas: robótica humanoide, biotecnologia (com empresas quebrando monopólios globais) e semicondutores, visando desenvolver chips de IA domésticos.
Em suma, o JP Morgan vê potencial para que o lucro por ação (EPS) chinês acelere para dois dígitos em 2026, com o risco-país diminuindo graças a tréguas comerciais e medidas para mitigar crises estruturais. O banco recomenda “Overweight” em Serviços de Comunicação, Bens de Consumo Essenciais, Tecnologia da Informação e Materiais.


