Fed sinaliza alta. Copom segue no corte com fiscal cada vez pior
Contas externas seguem sendo alívio do ano. Já o quadro fiscal piora a cada divulgação
Panorama da Semana
Nos Estados Unidos o FOMC manteve os juros parados essa semana, como esperado, mas com três dissidências hawkish (Hammack, Kashkari e Logan), o maior número em anos. Os três pediram alta de 25 pontos base e listaram os mesmos argumentos: impaciência com a inflação acima da meta há mais de cinco anos, avaliação de que a inflação segue elevada mesmo descontando choques recentes e receio de que adiar um movimento pequeno agora obrigue o Fed a fazer ajustes mais bruscos depois.
O ponto mais relevante da semana foi segunda entrevista coletiva do (ainda) novo presidente Warsh. Foi a pior performance desde que essas entrevistas começaram em 2012. Warsh não conseguiu ecoar o consenso de mais juros do comitê e ainda colocou em dúvida o uso do PCE como referência do Fed, sugerindo que as forças-tarefa criadas recentemente poderiam mudar a métrica de inflação usada pelo comitê a partir de janeiro. O mercado odiou. A curva de juros abriu (mercado atribuindo mais juros no futuro).
Diante do dano à credibilidade do Fed, a próxima alta de juros foi antecipada pelo mercado através dos contratos futuros de juros. Antes projetada só para o segundo semestre de 2027, agora a expectativa é dezembro desse ano, com a taxa terminal em 3,75% a 4,00%. Existe risco real de a alta vir já em setembro, dependendo de dois relatórios de emprego e dois de CPI que saem até lá.
O payroll de julho sai na sexta, com projeção de 75 mil vagas e desemprego subindo de 4,2% para 4,3%. Os PMIs globais também devem mostrar continuidade do crescimento mundial, que rodou em 2,5% anualizado no primeiro semestre. O viés segue sendo de alta do Fed até o fim do ano, com risco maior de o comitê precisar subir juros mais de uma vez ainda este ano.
No Brasil o cenário para o Copom de quarta que vem é de corte de 25 pontos base, o quarto consecutivo, alinhado com mercado e consenso. Vemos o ciclo se estender até setembro com outro corte de 25 pontos, levando a Selic a 13,75% antes de uma pausa.
O IPCA-15 de julho, divulgado essa semana, veio novamente fraco, com o núcleo desacelerando para 4,4% na média móvel trimestral anualizada e 4,9% na de seis meses. Mesmo distante da meta de 3%, essa sequência de leituras deve seguir firme pelo menos até a reunião do Copom em setembro e mostra que a dinâmica de curto prazo melhorou bastante frente ao início do ano.
A atividade também esfriou. O crédito segue desacelerando após a forte aceleração do início do ano, mesmo com recuperação pontual em empréstimos corporativos em junho. A confiança de consumidores e empresas caiu de forma generalizada em julho, com destaque negativo para serviços. A produção industrial de junho, que sai na terça, deve mostrar queda de 0,7% no mês, primeiro dado duro a confirmar essa fraqueza.
As contas externas seguem sendo o ponto de alívio do ano. O déficit em conta corrente caiu de 3% para 2,5% do PIB nos doze meses até junho, com expectativa de fechar o ano em 2,3%. Descontando o investimento direto brasileiro no exterior, o déficit em conta básica ficou em 0,2% do PIB, o melhor resultado em quase dois anos.
Já o quadro fiscal piora a cada divulgação. O déficit primário foi de 0,4% para 1,2% do PIB frente ao fim do ano passado, puxado pelo governo central e, mais recentemente, também por um déficit surpreendentemente alto em governos regionais e estatais. Com despesa de juros subindo e a reversão do ganho cambial do ano passado em perda esse ano, o déficit nominal acumulado em doze meses chegou a 10% do PIB em junho, ante pouco mais de 8% no fim de 2025. Esse número sai atualizado na sexta.
Para o restante do ano o BCB deve ficar mais cauteloso a partir de outubro. Os efeitos iniciais do El Niño somados a juros mais altos nos países desenvolvidos pressionam a inflação, enquanto o crédito direcionado do governo sustenta a atividade e limita o espaço para novos cortes depois de setembro.
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