JP Morgan vê espaço para cortes na Selic antes de pausa por El Niño e tarifas nos EUA
Relatório aponta desaceleração temporária da atividade e pressões geopolíticas em ano eleitoral no Brasil
Os analistas de macroeconomia do J.P. Morgan avaliam que o Banco Central do Brasil (BCB) deve encontrar espaço nos dados domésticos recentes para dar continuidade ao ciclo de afrouxamento monetário iniciado em março deste ano. Em relatório distribuído a clientes, a equipe formada por Vinicius Moreira, Mirella Sampaio e Gustavo Ribeiro projeta novos cortes de 25 pontos-base na taxa Selic nas reuniões de agosto e setembro.
A estimativa do banco coloca a taxa básica ao fim do ciclo em 13,75%, um patamar ligeiramente mais brando (dovish) do que a mediana de 14,00% projetada pelo consenso do Boletim Focus, divulgado semanalmente pelo Banco Central.
A sinalização de novos cortes ocorre mesmo diante de um cenário externo mais adverso, com o recrudescimento do conflito no Oriente Médio, fator que, segundo o J.P. Morgan, tende a elevar a cautela da autoridade monetária. O banco aposta, contudo, que o BCB priorizará os sinais opostos vindos dos dados domésticos de inflação mais comportada e desaceleração da atividade econômica.
A inflação de junho medida pelo IPCA surpreendeu positivamente ao vir abaixo do piso das expectativas do mercado. O J.P. Morgan projeta baixas leituras também para julho e agosto, o que pode trazer a inflação acumulada temporariamente para dentro da meta estabelecida, em parte devido a um bônus pontual nas tarifas de energia elétrica que será revertido em setembro.
Banco erra previsões de maio e vê PIB perder tração
No front da atividade econômica, o próprio J.P. Morgan admitiu ter errado suas projeções para o mês de maio. O setor de serviços registrou uma retração de 0,4% na comparação mensal, contrariando a expectativa do banco de que haveria uma leve expansão no período. A fraqueza concentrou-se nos serviços prestados a empresas.
Além disso, as vendas no varejo ampliado recuaram 0,2%, sob impacto de distorções metodológicas, enquanto o varejo restrito subiu apenas 0,1% após um tombo expressivo em abril. Como reflexo, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) registrou contração de 0,1% no mês de maio.
O erro nas projeções da instituição reforça um cenário de perda de força na economia:
Desaceleração do PIB: O relatório estima uma desaceleração do crescimento de mais de 4% no primeiro trimestre para cerca de 2% no segundo trimestre (taxa anualizada ajustada sazonalmente).
Consumo e Investimento: Indicadores coincidentes de junho apontam para uma desaceleração aguda tanto no consumo das famílias quanto nos investimentos privados.
El Niño e estímulos fiscais devem congelar cortes em 13,75%
A janela para a redução de juros deve se fechar na virada do terceiro para o quarto trimestre deste ano. Os economistas do J.P. Morgan preveem que o cenário passará a enviar sinais conflitantes, forçando o Copom a pausar o ciclo após o corte de setembro.
O principal fator de risco inflacionário mapeado é a chegada de um fenômeno El Niño de forte intensidade, comparável ao registrado no biênio 2015-2016, que costuma pressionar os preços de alimentos e energia devido a quebras de safra e secas.
Paralelamente, os estímulos ao crédito adotados pelo governo federal - como o programa Move Brasil (de R$ 30 bilhões), o Desenrola 2.0 e linhas de financiamento para empresas afetadas por barreiras comerciais, devem dar resiliência ao PIB no segundo semestre, sustentando a Selic em patamar restritivo até abril de 2027, quando o banco prevê a retomada dos cortes condicionada a um plano fiscal robusto da próxima gestão.
Geopolítica: Marco Rubio e Governo Lula Divergem sobre Barreiras Comerciais
No plano externo, o J.P. Morgan detalhou o novo capítulo das tensões comerciais após os EUA adotarem, com base em recomendações feitas pelo USTR no início de junho e investigações da Seção 301, uma tarifa de importação de 25% sobre produtos brasileiros, sob a justificativa de práticas desleais de comércio. Uma sobretaxa adicional de 12,5% atrelada a investigações sobre trabalho forçado global também poderá ser aplicada ao Brasil em breve.
Embora o banco pondere que o impacto econômico direto seja limitado - dado que a fatia dos EUA nas exportações brasileiras está abaixo de 10% (menos de 2% do PIB) e o fluxo pode ser redirecionado, o impacto político nas eleições gerais de outubro deve ser severo.
O Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, declarou explicitamente que as tarifas são “o preço pago pela falta de uma negociação adequada” por parte da administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em contrapartida, a equipe de comunicação do presidente Lula rebateu as acusações por meio de nota oficial, classificando as tarifas como injustificadas e afirmando que elas fazem parte de uma “narrativa construída pela família Bolsonaro”. O governo brasileiro informou que pretende diversificar seus parceiros comerciais e sinalizou que irá invocar os instrumentos da Lei de Reciprocidade. O J.P. Morgan alerta que um processo de retaliação mútua (”olho por olho”) pode acabar elevando os custos finais para a economia brasileira.



