Margens cheias, copos meio vazios: o trimestre de contrastes da Ambev [ABEV3]
Volumes recuam, mas corte de despesas e estratégia premium garantem um lucro acima das projeções
A Ambev apresentou um resultado de terceiro trimestre melhor do que o esperado, com destaque para a expansão de margens e disciplina de custos, que compensaram a queda de volumes. O EBITDA consolidado somou R$ 7,1 bilhões, crescimento orgânico de 3% em relação ao mesmo período do ano anterior e 5% acima das projeções do JP Morgan e BTG Pactual. A margem EBITDA avançou para 33,9%, impulsionada pela redução de despesas com frete e bônus, além de ganhos fiscais pontuais.
O desempenho foi beneficiado também por uma alíquota de imposto extraordinariamente baixa, de 6,7%, o que elevou o lucro líquido normalizado para R$ 3,8 bilhões, alta de 7,4% em termos orgânicos. O JP Morgan destacou o avanço das marcas premium e super premium no Brasil, como Stella Artois, Michelob Ultra e Pure Gold, que cresceram a dois dígitos, enquanto o portfólio de bebidas sem álcool subiu mais de 30%, acompanhando a demanda por produtos mais saudáveis.
Na outra ponta, o BTG Pactual chamou atenção para o volume total de cerveja no Brasil, que caiu 8% em relação ao ano anterior, reflexo do clima desfavorável e da perda de fôlego no consumo, especialmente no Sul e Sudeste. Ainda assim, o banco ressalta que o EBITDA do segmento de cervejas no Brasil avançou 2%, com margem de 35,7%, apoiado em ganhos de eficiência e aumento nas subvenções fiscais. “Mesmo em um ambiente desafiador, a Ambev mostrou que consegue proteger rentabilidade com gestão rigorosa de custos”, pontuou o relatório.
O controle operacional também se refletiu nas demais regiões: a América Central e Caribe teve margem recorde de 44,8%, enquanto a América do Sul (LAS) registrou alta de 22% no EBITDA, sustentada por maior eficiência e diluição de despesas. No Canadá, o crescimento foi modesto, mas ainda positivo, com margem em leve expansão.
Entre os anúncios mais relevantes, a Ambev aprovou um novo programa de recompra de até 208 milhões de ações, equivalente a cerca de R$ 2,5 bilhões, a ser executado em 18 meses. Segundo o JP Morgan, o movimento reforça a confiança da administração na geração de valor da companhia. O BTG avalia que a recompra pode ganhar ritmo diante da possível tributação de dividendos em 2026, tornando o retorno via ações ainda mais atrativo.
Apesar dos números sólidos, o BTG mantém recomendação neutra para o papel, avaliando que o controle de custos “não substitui a necessidade de crescimento consistente da receita”. O banco observa que a estratégia de reajustes antecipados de preços, embora tenha sustentado margens, pode ter pressionado volumes. Já o JP Morgan vê espaço para reação positiva no curto prazo, citando o leve posicionamento do papel e a recomposição de margens.

