Mesmo com alta do Ibovespa, gestores se animam mais com exterior
Inteligência artificial atrai mais que desinflação local
O mês de outubro consolidou a percepção de que o cenário internacional segue favorável à tomada de risco, enquanto a economia brasileira caminha para uma desaceleração controlada. Gestoras como ADAM Capital, Legacy Capital, Opportunity, Itaú Asset (Artax) e Mar Asset enxergam espaço para cortes graduais de juros nos Estados Unidos, avanço consistente da produtividade e sustentação das bolsas pelo setor de tecnologia, mas mantêm postura defensiva em ativos domésticos diante de incertezas fiscais e eleitorais.
O “soft landing” americano
No exterior, o tom é de otimismo moderado. Os gestores avaliam que a economia americana resiste à política monetária restritiva, com sinais de arrefecimento da inflação e ganho de eficiência em setores estratégicos.
“Não parece haver sinal de uma grande mudança em qualquer direção”, observou a equipe da Artax, ao comentar o comportamento do mercado de trabalho e o impacto do shutdown que limitou a divulgação de dados oficiais.
Para a Legacy, a combinação de crescimento em torno de 2% e inflação em desaceleração reforça a leitura de um pouso suave.
“A manutenção de demanda elevada por serviços e infraestrutura de tecnologia ajuda a afastar temores de recessão”, destacou a gestora.
O avanço da inteligência artificial aparece como fator determinante para a sustentação das bolsas globais.
As cartas ressaltam o papel das grandes empresas de tecnologia na geração de produtividade e na abertura de novas frentes de investimento. A Mar Asset dedicou parte de sua análise a relacionar o atual momento tecnológico com a revolução científica iniciada por Von Neumann e Bohr há cem anos, apontando que a IA redefine a infraestrutura da informação e marca uma nova fronteira de eficiência econômica. O tema também surge na estratégia das demais casas, que mantêm posições compradas em empresas ligadas a computação em nuvem, energia e data centers.

Visão global
Na Europa, as gestoras apontam ritmo modesto de crescimento, sustentado por investimentos em defesa e infraestrutura. A Legacy projeta avanço de 1,2% para 2025, com atenção à instabilidade política na França. Já na América Latina, o cenário segue heterogêneo: o México mostra perda de fôlego, enquanto o Chile mantém juros estáveis e o mercado aguarda o resultado das eleições presidenciais de novembro.
Brasil: incertezas no ar
No Brasil, o consenso é que a economia desacelera sem sinais de ruptura. As projeções de inflação seguem em queda e o real permanece valorizado, mas o crescimento tende a perder força nos próximos trimestres.
A Legacy projeta expansão de 2,1% em 2025 e 1,5% em 2026, enquanto a ADAM observa que “o comportamento benigno da inflação não deve ser suficiente para antecipar cortes adicionais de juros”. A Artax compartilha a cautela, citando a aproximação do calendário eleitoral e o impacto potencial sobre o câmbio e a política monetária.
Onde os gestores estão posicionados?
No posicionamento de portfólio, predomina a exposição internacional e a seletividade doméstica. As gestoras mantêm preferência por ações globais de tecnologia, crédito privado e moedas de países emergentes.
A Legacy segue comprada em papéis do setor de IA e aplicada em juros reais e nominais brasileiros, aproveitando o diferencial de taxa. A Artax, mais tática, alterna posições na curva de juros e sustenta leve posição comprada em bolsa local. Já a Opportunity reforça a alocação em ativos de risco no exterior, citando “condições financeiras ainda frouxas e ganhos de produtividade à frente”.
O retrato geral mostra um mercado global confiante na continuidade do ciclo de desinflação e de avanço tecnológico, mas com atenção redobrada aos riscos domésticos. As casas veem 2026 como um ano de transição (de juros altos para uma política mais estimulativa), mas reconhecem que, no Brasil, a política e o câmbio ainda podem desafiar o apetite por risco.

