Netflix: K-pop brilha mas imposto do Brasil desafina o ritmo no trimestre
Mesmo com crescimento de 17% na receita e audiência recorde de produções asiáticas, uma despesa tributária no Brasil pesou sobre o lucro da Netflix e frustrou o mercado
O blockbuster “Guerreiras do K-Pop” foi um sucesso de audiência global e ajudou a impulsionar o engajamento da Netflix no terceiro trimestre de 2025. Mas o ritmo da companhia acabou sendo interrompido por um “plot twist” brasileiro: uma despesa tributária de US$ 619 milhões ligada a um litígio fiscal no país reduziu a margem operacional e provocou forte queda nas ações após a divulgação do balanço.
A receita da gigante do streaming avançou para US$ 11,51 bilhões, praticamente em linha com as estimativas, enquanto o lucro por ação ajustado ficou 15% abaixo das projeções, segundo relatório da XP, levando as ações a caírem 5,5% no after market.
“Os números foram muito bons, mas o mercado reagiu mal por conta de uma despesa não recorrente”, disse Beto Saadia, diretor financeiro da Nomos, em entrevista à TradeNews. “O americano não está acostumado com isso, ainda mais quando acontece no Brasil — que é um dos três maiores mercados da Netflix no mundo.”
Imposto brasileiro causa ruído, mas não muda fundamentos
De acordo com o JP Morgan, o impacto do tributo brasileiro foi um catch-up charge (uma despesa de regularização) relacionada a um acordo da empresa com o Fisco local. O banco estima que o efeito deve se repetir de forma residual nos próximos trimestres, somando cerca de US$ 40 milhões por trimestre, o equivalente a 0,5% das despesas totais.
O JP Morgan manteve recomendação neutra mas reduziu o preço-alvo de US$ 1.300 para US$ 1.275,a revisão reflete expectativa de crescimento mais moderado na receita no segundo semestre e maior pressão nas margens. Ainda assim, a instituição financeira segue avaliando que o imposto “gera ruído, mas não representa um problema estrutural”. Excluindo o impacto tributário, a margem operacional teria alcançado 33,6%, superando o consenso de mercado.
XP: resultado misto, mas publicidade avança com força
A XP classificou o trimestre como “misto”: o lucro decepcionou, mas o desempenho operacional e o fluxo de caixa mostraram resiliência. O free cash flow atingiu US$ 2,66 bilhões, acima das projeções, e a companhia revisou sua meta anual para US$ 9 bilhões, acima da faixa anterior de US$ 8 a 8,5 bilhões.
A corretora destacou que a receita de publicidade teve o melhor desempenho da história da empresa e deve mais que dobrar em 2025. “O trimestre ficou aquém das expectativas, mas a Netflix segue fortalecendo sua base global e expandindo novas frentes de monetização”, diz o relatório.
JP Morgan: crescimento saudável, mas com menos fôlego
O JP Morgan observou que, apesar do crescimento sólido, a empresa não apresentou a mesma margem de surpresa positiva (upside) de trimestres anteriores. O engajamento acelerou “ligeiramente acima das expectativas”, mas sem impacto significativo no resultado.
O banco também prevê que a receita publicitária alcance US$ 3 bilhões até 2025 e mencionou que a nova interface de TV da plataforma ainda passa por ajustes, o que pode gerar efeito temporário sobre o engajamento.
O que vem pela frente
Para o quarto trimestre, a Netflix projeta lucro por ação de US$ 5,45, receita de US$ 12 bilhões e margem operacional de 23,9%, refletindo o efeito residual do imposto brasileiro.
O pipeline de conteúdo segue robusto, com “Stranger Things – Temporada Final”, “The Diplomat”, “Frankenstein” e “Wake Up Dead Man: A Knives Out Mystery” entre os principais lançamentos.
Apesar da queda pontual nas ações, analistas veem fundamentos sólidos e um portfólio cada vez mais diversificado como pilares de sustentação de longo prazo. Com participação recorde de 8,6% no tempo de TV dos EUA, audiência crescente no Reino Unido e uma estratégia de monetização mais ampla, a Netflix segue consolidada como líder global do streaming.


