O Brasil está espremido entre o petróleo caro e a eleição mais incerta em anos
JP Morgan revisa projeções e avisa: juros altos chegaram para ficar
O JP Morgan elevou suas projeções de inflação e juros para o Brasil em dois relatórios divulgados esta semana, pintando um quadro mais difícil para a economia brasileira no segundo semestre. O choque do petróleo, a pressão sobre alimentos e bens importados, e a incerteza eleitoral formam uma combinação que deve manter o Banco Central em modo cauteloso por mais tempo do que o mercado esperava.
Inflação maior, cortes menores
O banco revisou sua projeção para o IPCA de 2026 de 4,3% para 4,8%, e elevou a estimativa para 2027 de 3,2% para 3,6%. A principal explicação está na alta de alimentos e bens não-alimentares, pressionados por preços mais elevados no exterior — reflexo de um conflito geopolítico que mantém o petróleo em torno de US$ 100 por barril.
Apesar de o governo ter conseguido segurar o repasse do choque do petróleo aos combustíveis, por meio de subsídios ao diesel e à gasolina, as pressões inflacionárias encontraram outros canais. O IPCA saiu de 3,8% antes do conflito para 4,4% no mês passado, impulsionado sobretudo por alimentos e bens industrializados. E a inflação de serviços segue elevada, alimentada por um mercado de trabalho ainda apertado e por mecanismos de indexação da economia.
Selic mais alta por mais tempo
Diante desse quadro, o JP Morgan revisou também sua trajetória esperada para a taxa Selic. O banco passou a projetar que os juros terminarão 2026 em 13,25% — com o Banco Central mantendo o ritmo de cortes de apenas 25 pontos-base por reunião, sem aceleração à vista.
A projeção contraria o que o mercado chegou a precificar em cortes mais rápidos. Para o banco, o Banco Central vai usar o espaço que ainda tem — dado o nível ainda restritivo dos juros — para continuar reduzindo a Selic gradualmente, mas sem pressa. Um risco de pausa total no ciclo de afrouxamento existe caso os efeitos inflacionários do conflito se prolonguem além do esperado.
O cenário-base do banco assume que o Estreito de Ormuz — ponto estratégico para o comércio global de petróleo — seja reaberto em cerca de um mês. Se isso não ocorrer, a situação pode se deteriorar mais.
Crescimento ainda positivo, mas desacelerando
Apesar do ambiente adverso, o JP Morgan revisou levemente para cima o crescimento do PIB de 2026, de 1,2% para 1,5%, após um primeiro trimestre mais forte do que o esperado. O Brasil se beneficia de ser exportador líquido de petróleo — cada alta de 10% no Brent adiciona entre 0,1 e 0,2 ponto percentual ao crescimento, e melhora o resultado fiscal e a conta corrente.
A conta corrente, por exemplo, deve melhorar de um déficit de 3% do PIB para 2,3% em 2026. E o real, cotado ao redor de R$ 4,89, tem ajudado a amortecer parte das pressões inflacionárias vindas do exterior.
Ainda assim, o banco espera desaceleração no restante do ano, em função da política monetária ainda contracionista. E alerta que o estímulo fiscal e creditício do governo — que inclui programas de renegociação de dívidas de cartão de crédito, cheque especial e empréstimos pessoais — pode sustentar a atividade no curto prazo, mas cria riscos baixistas para o crescimento de 2027.
Governo apaga incêndio com dinheiro do petróleo
Para lidar com o choque, o governo Lula montou uma série de medidas de contenção. Além dos subsídios a combustíveis, estuda-se uma mudança na lei de responsabilidade fiscal para 2026 que permitiria usar receitas extraordinárias do petróleo para cortar impostos. O problema, aponta o JP Morgan, é que isso poderia eliminar justamente o ganho fiscal que o país obtém com o petróleo caro — estimado em 0,2% a 0,3% do PIB para cada alta de 10% no Brent.
No campo do crédito, o programa Desenrola e outras iniciativas de renegociação de dívidas buscam aliviar o endividamento das famílias com custo fiscal direto reduzido. Mas para reformas estruturais mais profundas avançarem, o banco avalia que seria necessário engajamento do Executivo — o que, num ano eleitoral, parece pouco provável.
Eleição esquenta e mercados ficam nervosos
A política também pesa sobre o cenário. As pesquisas mostram um empate técnico entre o presidente Lula e Flávio Bolsonaro, com o candidato da oposição tendo leve vantagem nas simulações de segundo turno. O JP Morgan classifica a corrida eleitoral como uma disputa 50/50 — e avalia que esse grau de incerteza vai continuar gerando volatilidade nos ativos brasileiros.
Historicamente, o Brasil tende a ter desempenho inferior nos seis meses que antecedem eleições, um padrão que o banco acredita estar se repetindo. A popularidade do presidente Lula não cresceu apesar de dados econômicos positivos no início do ano, o que sugere uma tendência estrutural de rejeição ao incumbente.
Dois fatores amenizam o quadro para os ativos: o ciclo de afrouxamento monetário ainda em curso e um real forte, que oferece algum colchão de desempenho para investidores estrangeiros.
Fluxo estrangeiro recua, mas interesse no Brasil persiste
Após meses de entrada de recursos, o fluxo estrangeiro para a bolsa brasileira virou negativo desde meados de abril, com saídas acumuladas de R$ 12 bilhões. O banco, no entanto, pondera que esse movimento não é específico do Brasil — há um recuo geral nos fluxos para mercados emergentes, que saíram de US$ 86 bilhões no ano até o pré-conflito para US$ 70 bilhões atualmente.
Parte da rotação saiu em direção a ações de tecnologia, beneficiando mercados como Coreia do Sul, Taiwan e o Nasdaq americano. Outros fatores incluem um Fed mais hawkish, um payroll americano robusto e o próprio real já apreciado, que reduz o potencial de ganho cambial adicional para investidores externos.
Ainda assim, o interesse estrutural no Brasil se mantém. O banco destaca que investidores estrangeiros enxergam o país — e a América Latina em geral — como uma espécie de porto relativamente seguro e uma forma de diversificação em relação aos mercados emergentes dominados por tecnologia. No médio prazo, porém, o JP Morgan projeta que as ações brasileiras devem andar de lado, sem grandes catalisadores de alta até que o cenário eleitoral e monetário se torne mais claro.




