O DXY está em 98,65, menor nível desde 14 de maio, e cai 1,28% na semana. Ouro à vista em US$ 4.562, máxima desde 29 de maio, com 4,2% na semana e terceira alta seguida. Bitcoin encostando nos US$ 80 mil. E a bolsa americana não desabou, só segurou: o S&P fecha a primeira semana negativa desde o fim de julho. Isso não é fuga de risco, é o debasement trade de volta. A lógica é simples: se o governo quer juro longo mais baixo e não quer cortar déficit, o que sobra é moeda mais fraca. Aí você compra o que é escasso.
Na quarta o Tesouro dobrou as recompras de papéis de 10 a 30 anos, de US$ 2 bi para pelo menos US$ 4 bi por operação, entre 9 de setembro e 4 de novembro. Funcionou por um dia: na quinta o 30 anos já estava em 5,25%, acima de onde estava antes do anúncio. Bessent voltou a falar e disse que um dia não muda nada, que os juros não refletem os fundamentos e que pode recomprar mais, porque tem um toolkit grande. E tem mesmo. Além de recomprar, o Tesouro pode simplesmente emitir menos papel longo e empurrar a dívida para a ponta curta, que é o que ele vem fazendo desde o começo do mês. Não dá para dizer que Bessent não sabe o que está fazendo, ele passou anos na mesa de um dos maiores macro traders da história. A dúvida é outra: quanto disso é escolha e quanto é obrigação. Tem Trump querendo juro mais baixo com a eleição de novembro no caminho, e tem a guerra do Irã empurrando petróleo e turvando a inflação. Do outro lado da mesa, o Fed também tem um toolkit grande e um problema de credibilidade próprio: Warsh discursa em Jackson Hole na sexta que vem. Será que dá para os dois estarem certos ao mesmo tempo?
RECAP:
ONTEM (20 de agosto)
Bessent disse que a recompra pode superar os US$ 4 bi por operação e prometeu anunciar em dias uma iniciativa de consolidação fiscal.
O rally durou um dia: Treasury de 10 anos voltou a 4,70% e o de 30 anos a 5,25%, acima do nível anterior ao anúncio.
S&P 500 caiu 0,9%, Nasdaq 1,0% e o Dow perdeu quase 700 pontos. Walmart despencou 9%.
Brent subiu 2,4% a US$ 93,78, quinto pregão seguido de alta.
Ibovespa fechou estável, alta de 0,06% aos 167.927 pontos, e o dólar subiu 0,32% a R$ 5,1926.
HOJE / MADRUGADA (21 de agosto)
Bitcoin dispara 7,2% e chega a US$ 77.868, caminho do melhor ganho semanal em mais de dois anos.
Ouro à vista sobe 1% a US$ 4.562, máxima desde 29 de maio, e acumula 4,2% na semana.
DXY, o dólar contra as principais moedas, em 98,65, menor nível desde 14 de maio, com queda de 1,28% na semana.
Inflação núcleo do Japão acelerou de 1,6% para 1,8% em julho e reforçou a aposta de alta do BoJ em setembro.
PMI preliminar da Zona do Euro veio melhor que o esperado, puxado pela indústria: manufatura a 52,8.
Brent recua 0,80% a US$ 93,03 e interrompe cinco altas seguidas. Futuros de Nova York sobem.
Daqui pra baixo é o flash read completo: tudo que aconteceu de ontem pra hoje, tópico por tópico, com a origem de cada informação. Assunto que já apareceu na edição anterior volta só pelo que mudou. Tudo com ajuda da minha IA favorita, é claro.
RESUMO POR TÓPICO (com as fontes)
Tesouro americano, juros e o debasement trade
A medida de quarta: o Tesouro dobrou as recompras de papéis de 10 a 30 anos, de US$ 2 bi para pelo menos US$ 4 bi por operação, em datas entre 9 de setembro e 4 de novembro (DealBook, XP Macro Strategy)
Repare na data final. 4 de novembro é o dia seguinte à eleição de meio de mandato nos Estados Unidos (DealBook)
Bessent afirmou que as recompras podem passar dos US$ 4 bi por operação, para fazer mercado nos vencimentos longos (BTG Morning Call, News XPress)
Ele também disse que os juros longos não refletem os fundamentos da economia e que o governo tem um toolkit grande para derrubá-los (WSJ Markets P.M., News XPress)
A outra alavanca do Tesouro é a emissão. James Mackintosh lê a recompra como o próximo passo de uma estratégia de emitir mais dívida curta e reduzir a necessidade de leilões longos, que empurram a taxa para cima (WSJ)
Em 5 de agosto o Tesouro confirmou que segue emitindo relativamente mais papel curto. As letras já são 22,2% da dívida, acima do teto de cerca de 20% recomendado pelo comitê consultivo do próprio Tesouro (CNBC)
O risco dessa troca: quanto mais dívida curta, mais exposto o governo fica a qualquer alta de juros, que se transmite rápido ao custo de rolagem (WSJ)
Ele também disse que o governo anunciará entre o fim desta semana e o começo da próxima uma iniciativa de consolidação fiscal (XP Macro Strategy, News XPress)
O alívio nos juros durou um pregão. O 30 anos fechou a semana perto de 5,23%, nível mais alto em mais de uma década (WSJ)
A avaliação de Wall Street foi dura. O FT ouviu investidores chamando a medida de curativo em ferida de bala, e o JPMorgan alertou que traders podem questionar a credibilidade (FT, Bloomberg)
Joe Brusuelas, da RSM US, escreveu a investidores que o interesse de Bessent é de curto prazo e organizado em torno da eleição, não do retorno à estabilidade de preços (DealBook)
Ouro à vista subiu 1% hoje a US$ 4.562, máxima desde 29 de maio, e fecha a semana com alta de 4,2%, a terceira seguida (Reuters, Bloomberg)
O movimento pegou todos os metais preciosos: prata, platina e paládio também subiram, com o dólar mais fraco como driver comum (Reuters)
Bitcoin sobe 7,2% a US$ 77.868, caminho do melhor ganho semanal em mais de dois anos (Bloomberg Markets Daily, BTG)
O DXY, que mede o dólar contra uma cesta das principais moedas, está em 98,65 e cai 1,28% na semana, menor nível desde 14 de maio. O euro chegou a US$ 1,1692 (TradingView, FXStreet)
Robin Brooks, ex-estrategista de câmbio do Goldman, escreveu que os Estados Unidos estão brincando com fogo com essa recompra (Bloomberg Markets Daily)
Contexto do porquê o trade tinha esfriado: a Bloomberg atribui a perda de força do ouro no ano em parte à escolha de Warsh, falcão de inflação, para o Fed (Bloomberg Markets Daily)
Warsh discursa no simpósio de Jackson Hole na sexta que vem. Ele defende encurtar o balanço do Fed, o que tende a subir o juro longo, na direção oposta à de Bessent (CNBC)
Mark Cabana, do Bank of America, resumiu o teste: a bola agora está com Warsh, e o mercado quer saber se ele vai responder e articular um plano melhor (US News)
Contexto do ceticismo com Warsh: a mudança na estratégia de comunicação dele confundiu investidores, que ouviram discurso duro sobre inflação sem pressa para entregar aperto (Bloomberg Economics Daily)
James Mackintosh pondera do outro lado: a volatilidade implícita do mercado de juros está um pouco menor que há um ano, o que enfraquece a tese de que Warsh é o motor da alta dos yields (WSJ)
Bessent chegou a usar entrevistas e redes sociais para defender a nova estratégia de comunicação de Warsh (Bloomberg Economics Daily)
Um grupo de parlamentares democratas pediu que Warsh revele as conversas que teve com Trump desde que assumiu o Fed (Bloomberg Economics Daily)
A ata de 28 e 29 de julho mostrou decisão de 9 a 3 pela manutenção entre 3,50% e 3,75%, com Logan, Hammack e Kashkari votando por alta de 25 bps (XP Macro Strategy)
Dados fracos das últimas semanas fizeram investidores reduzirem apostas em alta de juros nos Estados Unidos e no Reino Unido, mesmo com o petróleo subindo (FT)
A dívida bruta americana passou de US$ 40 tri nesta semana, pela primeira vez (WSJ, Bloomberg)
Petróleo e Oriente Médio
Brent fechou ontem em US$ 93,78, alta de 2,4% e quinto pregão seguido de ganho. Hoje cede 0,80% a US$ 93,03 (WSJ, BTG Morning Call)
Bessent disse que os Estados Unidos apresentarão em breve o plano para isolar economicamente o Irã, com coletiva marcada para segunda-feira (XP Macro Strategy, News XPress)
JD Vance chamou a pressão econômica de ferramenta mais eficaz contra Teerã e descreveu a estratégia como uma dança delicada (BTG Morning Call)
O choque de energia do conflito já apareceu na inflação japonesa de julho, segundo dados do governo do Japão (BTG Morning Call, FT)
Mercados globais e empresas
Walmart caiu 9%, o pior dia desde 2022, com o menor crescimento de vendas nos Estados Unidos em mais de seis anos (WSJ, Bloomberg, Barron’s)
Moderna devolveu 24% depois do salto de 177% da véspera, que tinha sido a maior alta de uma ação do S&P 500 em 25 anos (WSJ)
Ross Stores sobe 8,6% no pré depois de elevar a projeção de lucro pela segunda vez no ano (Bloomberg, WSJ)
A Anthropic espera igualar ou superar o IPO recorde de US$ 75 bi da SpaceX, segundo pessoas a par do assunto (Bloomberg)
A Samsung planeja devolver até US$ 79 bi a acionistas, seguindo a recompra recorde da SK Hynix (Bloomberg)
Japão: núcleo do CPI subiu de 1,6% para 1,8% em julho e os PMIs melhoraram, reforçando aposta de alta do BoJ em setembro (FT, News XPress)
Zona do Euro: PMI de manufatura subiu de 51,9 para 52,8, acima do esperado. Na Alemanha, foi de 52,2 para 54,1 (News XPress, BTG)
Brasil: mercado e fluxo
Ibovespa fechou ontem em alta de 0,06%, aos 167.927 pontos, na segunda sessão positiva depois de 11 quedas seguidas. Chegou a subir mais de 1% pela manhã e devolveu (BTG Morning Call)
Petrobras e Vale sustentaram o índice, com a escalada da tensão entre Estados Unidos e Irã no pano de fundo (BTG Morning Call)
O dólar à vista subiu 0,32% a R$ 5,1926, em ajuste após a queda forte da véspera (BTG Morning Call)
A curva local abriu na esteira do exterior: DI Jan28 subiu 4 bps e o Jan31, 6 bps (XP Macro Strategy)
O dólar caiu contra o mundo e subiu contra o real: o DXY recuou 1,28% na semana enquanto o dólar contra o real subiu 0,27% (TradingView, watchlist Giro)
O real não ficou sozinho nesse lado, mas ficou em má companhia. Na semana o dólar cedeu contra peso mexicano, rand, peso colombiano, rupiah e yuan, e subiu contra real, peso chileno, rúpia, lira e peso argentino (TradingView, watchlist Giro)
Ressalva de leitura: é uma semana só, não uma tendência. Mas serve de contraponto à ideia de que dólar global mais fraco vira alívio automático para o real (TradingView, watchlist Giro)
A inflação implícita de 2026 no mercado recuou 27 bps, para 5,26%. A XP projeta 5,08% e o Focus, 5,02% (XP Inflation News)
A XP projeta IPCA-15 de agosto em queda de 0,31%, com energia caindo 7,47% pelo Bônus Itaipu e passagens aéreas recuando 10% (XP Brazil Week Ahead)
Ainda segundo a XP, o núcleo médio do IPCA-15 na média móvel trimestral anualizada cairia de 4,41% para 3,96%, dentro do que a casa chama de tendência benigna (XP Brazil Week Ahead)
Contexto fiscal: o governo central teve superávit primário de R$ 10,4 bi em julho, com queda de 20,6% na despesa total por conta do pagamento de precatórios em julho do ano passado. Excluído esse efeito, a despesa subiria 3,5% (XP Brazil Week Ahead)
A temporada do 2T26 no Brasil teve a menor proporção de surpresa positiva de lucro da série da XP, iniciada no 1T23, com reação média de queda de 1,3% no dia seguinte (XP Research)
O governo estuda prorrogar por mais 30 dias a subvenção da gasolina, considerando a persistência do Brent acima de US$ 80 (Estadão, XP Inflation News)
Brasil: política e eleição
A PF apontou comunhão de interesses econômicos entre Lulinha e a lobista Roberta Luchsinger, que negociava contrato no governo. A defesa alega interesse político no inquérito (Folha)
Trackings diários encomendados pelo PT mostraram a distância para Flávio Bolsonaro caindo de sete a dez pontos para algo entre dois e três (Folha, via coluna de Mônica Bergamo)
Outros trackings citados pela coluna de Lauro Jardim apontaram queda de Lula e evolução de Flávio, levando a disputa a empate técnico no segundo turno (O Globo)
Ressalva de método: tracking partidário e pesquisa de instituto são séries diferentes e não devem ser comparadas diretamente. O Datafolha de hoje é o primeiro teste independente (News XPress)
A PGR pediu que os inquéritos de Lulinha saiam do STF para a primeira instância. Mendonça deve negar, com base em precedentes da Corte (Folha, O Globo, Estadão)
O TSE decidiu que Pablo Marçal não pode participar de debates nem acessar o fundo eleitoral (Estadão)
Durigan segue tentando sinalizar compromisso fiscal e já teve contato com interlocutores de Armínio Fraga e Pedro Malan, sem data marcada para o encontro (Estadão, News XPress)
A Bloomberg levantou a possibilidade de Bruno Moretti, hoje no Planejamento, assumir a Fazenda num eventual quarto mandato de Lula (Bloomberg, via XP News Clipping)
A crise da Casas Bahia virou arma eleitoral contra o governo, com Flávio gravando propaganda em frente a uma loja fechada da rede (Valor, Folha)
AGENDA DA SEMANA
Hoje: PMIs preliminares de agosto nos Estados Unidos às 10h45, primeira leitura de atividade e custos do mês. Aqui, Datafolha a partir das 18h40, primeira pesquisa de instituto depois das revelações sobre Lulinha.
Segunda: coletiva de Bessent com o plano de isolamento econômico do Irã. No Brasil, IPC-S e Boletim Focus. Nexus divulga novo levantamento eleitoral.
Quarta: IPCA-15 de agosto às 9h, com a XP projetando queda de 0,31%, e PCE de julho nos Estados Unidos às 9h30, com núcleo esperado em 3,3% no ano. É o dado que Warsh leva para Jackson Hole. NVIDIA reporta resultado!!
Quinta: abertura do simpósio de Jackson Hole. Aqui, PNAD e balanço de pagamentos de julho, com a XP esperando desemprego em 5,3%.
Sexta: discurso de Warsh em Jackson Hole, o primeiro dele como presidente do Fed. No Brasil, IGP-M, Caged e resultado do governo central.
Médio prazo: as recompras ampliadas do Tesouro começam em 9 de setembro e vão até 4 de novembro, um dia depois da eleição americana de meio de mandato. O primeiro turno aqui é em 4 de outubro.


