Às 9h o IPCA-15 de agosto veio em deflação de 0,40%. Deflação maior do que os 0,32% negativo que o mercado esperava, e o acumulado em doze meses caiu de 4,52% para 4,24%. O mercado gostou na hora, índice futuro chegou a quase 1% de alta. Às 9h30 saiu o PCE de julho, que não desacelerou como se esperava e ficou em 3,7% em doze meses, com o núcleo em 3,3%, esse em linha. Os futuros americanos viraram na sequência, e o Brasil devolveu tudo. Perto das 9h30 o índice futuro estava de volta ao zero a zero na sessão. Isso tudo é reação inicial e nenhuma movimentação muito relevante. Mas sempre fica a sensação: quando lá fora azeda pro risco, dado “bom” nosso não costuma sustentar sozinho.
E embora o IPCA-15 tenha tido uma boa recepção do mercado, uma vale olhar a composição. A surpresa boa veio de passagem aérea, caindo 13,3%, e de energia elétrica, caindo 6,25%. Os serviços subjacentes subiram 0,50%, acima do que a XP projetava, e a difusão subiu de 48% para 52%. O núcleo médio veio em linha e o núcleo anualizado de três meses desacelerou para 3,87%, o que é bom. Mas é um dado de alívio nos preços voláteis, não de inflação vencida. E os dois eventos que realmente decidem a semana ainda não aconteceram: a Nvidia reporta depois do fechamento, e o Warsh fala em Jackson Hole na sexta. Com o PCE recusando desacelerar, a pergunta chega nele mais pesada do que chegaria uma hora atrás, né?
RECAP:
ONTEM (25 de agosto)
Brent caiu 5,4%, a US$ 87,2, depois que Irã e Omã sinalizaram um arcabouço interino para Ormuz.
Treasuries fecharam de 5 a 7 bps, com o 10 anos a 4,638%. S&P 500 subiu 0,3% e Nasdaq, 0,7%.
Nvidia subiu e cortou sete pregões seguidos de queda, a pior sequência desde 2022.
Ibovespa subiu 1,5%, acima dos 174 mil pontos, na quinta alta seguida. Curva DI fechou de 10 a 15 bps e o dólar caiu 0,25%, a R$ 5,1399.
Canadá anunciou retaliação de 15% a 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos americanos, com vigência em 8 de setembro.
HOJE / MADRUGADA (26 de agosto)
IPCA-15 de agosto veio em deflação de 0,40%, abaixo do consenso de 0,32% negativo. O acumulado em doze meses caiu de 4,52% para 4,24%.
PCE de julho ficou em 3,7% em doze meses, estável ante junho e acima dos 3,6% esperados. O núcleo veio em 3,3%, em linha.
Brent recua para perto de US$ 85,3 e acumula queda de 10% em três sessões.
Irã e Omã confirmaram proposta de corredor temporário de navegação e desminagem em Ormuz. A rota permanente só seria negociada em 30 a 60 dias. Cinco navios cruzaram o estreito ontem, cerca de um terço da média dos últimos dez dias.
Ásia fechou em alta antes da Nvidia: Kospi +0,97%, Nikkei +0,62%, Xangai +0,59%. Os futuros americanos viraram para baixo depois do PCE.
Brasil e EUA marcaram nova rodada de negociação sobre o tarifaço para segunda-feira, e o governo prorrogou a subvenção da gasolina até 9 de setembro.
Daqui pra baixo é o flash read completo: tudo que aconteceu de ontem pra hoje, tópico por tópico, com a origem de cada informação. Assunto que já apareceu na edição anterior volta só pelo que mudou. Tudo com ajuda da minha IA favorita, é claro.
RESUMO POR TÓPICO (com as fontes)
Petróleo e Oriente Médio
Brent fechou ontem em queda de 5,4%, a US$ 87,2, e opera nesta manhã perto de US$ 85,3. São 10% de queda em três sessões (XP Macro Strategy, WSJ)
Irã e Omã publicaram um comunicado conjunto com uma proposta de arcabouço para um corredor temporário de navegação em Ormuz e um projeto de desminagem da hidrovia (News XPress/XP Política, Bloomberg)
Mas cravar a diplomacia como causa única seria errado. Arne Lohmann Rasmussen, da Global Risk Management, lista outros três motivos: o Dia D econômico veio mais fraco do que se esperava e passou a ser lido como ameaça, os estoques americanos de petróleo subiram 4,2 milhões de barris na semana contra 1,8 milhão esperado, e há relatos de mais óleo saindo do Golfo (WSJ)
A rota permanente só seria negociada em 30 a 60 dias, segundo a agência iraniana Tasnim (Bloomberg)
No mundo físico o estreito segue travado. Apenas cinco navios cruzaram Ormuz ontem, queda de cerca de dois terços ante a média dos últimos dez dias, em estimativa preliminar da Kpler (BTG Morning Call)
Bessent baixou o tom. Depois de prometer um Dia D econômico no domingo, passou a defender diplomacia silenciosa para convencer países a cortar laços com Teerã (DealBook/NYT)
As sanções anunciadas atingem cinco setores e mais de 60 entidades, indivíduos e navios. Nenhum banco grande entrou na lista (Barron’s)
A China, que compra cerca de 90% do petróleo iraniano, ameaçou tomar todas as medidas necessárias se for alvo. O FT escreveu em editorial que a guerra econômica dos EUA contra o Irã tem um problema chamado China (Bloomberg, FT)
Contexto de quem vai pagar a conta junto: a Turquia é o terceiro maior parceiro comercial do Irã e corre risco de perder um dos seus maiores fornecedores de gás (Bloomberg)
Um novo ataque a navio-tanque foi registrado em Ormuz, com o Irã prometendo retaliar a ofensiva econômica (WSJ)
Tesouro, Fed e juros nos EUA
O PCE de julho, o dado que o Fed olha, ficou em 3,7% no acumulado em doze meses, igual a junho. Esperava-se uma leve desaceleração para 3,6%. O núcleo veio em 3,3%, exatamente em linha (WSJ)
Vale a proporção: o desvio é de 0,1 ponto e está todo no cabeçalho. O próprio WSJ lembra que o PCE raramente surpreende, porque é construído em cima de dados de inflação já publicados (WSJ)
O detalhe que incomoda: o núcleo do CPI de julho tinha desacelerado para 2,5%, um número moderado. O PCE, que pesa as categorias de forma diferente, segue bem mais quente (WSJ)
A recompra de títulos de Bessent começou a aparecer nos números. O 10 anos está em 4,64%, contra 4,75% na semana passada, e o spread do 30 anos contra swaps de mesmo prazo é o menor desde fevereiro (Bloomberg)
A ressalva vem da própria matéria: com o petróleo caindo cerca de 5% na semana, o rali de bonds parece um movimento assistido pelo óleo, e não a mudança estrutural que o Tesouro queria (Bloomberg/MLIV)
A Citadel Securities virou a mão. O estrategista Frank Flight, que no mês passado falava em verão cruel, agora vê condições para um rali de bonds (Bloomberg)
O FT publicou que a intervenção do Tesouro coloca Bessent em rota de colisão com o Fed, porque atrapalha o esforço de Warsh de segurar a inflação (FT)
Druckenmiller, que anteontem chamou a recompra de erro, contou que usou IA para ajudar a redigir o artigo, mas que as ideias são dele (WSJ)
Warsh chega a Jackson Hole sem posição pública sobre inflação. Ele não entregou projeções ao dot plot e não disse se apoia alta de juros nas próximas reuniões (WSJ)
Fora dos EUA o vento é de aperto. Schnabel disse que o BCE precisa subir mais, a inflação australiana veio acima do esperado e elevou a aposta em uma quarta alta no ano, e o mercado já precifica alta do BoJ em setembro (Bloomberg)
Rússia, Ucrânia e a conta dos grãos
O diretor da CIA, John Ratcliffe, fez uma viagem-surpresa a Moscou na terça. Ficou cerca de quatro horas e a agência não quis comentar. A Tass registrou o pouso de um avião de transporte militar americano, e a CBS noticiou primeiro (WSJ, Bloomberg)
O assunto da visita não foi confirmado. Uma leitura que circulou aqui é a do professor Heni Ozi Cukier, que, citando o WSJ, levanta duas hipóteses: um aviso sobre sinais de mobilização militar russa, ou uma provocação russa em preparação contra a OTAN. É hipótese, não apuração (Heni Ozi Cukier, WSJ)
O pano de fundo, esse é fato. A Rússia ampliou a campanha de ataques híbridos contra países que armam e financiam Kiev, de ciberataques a drones armados e incêndios. O chanceler Merz disse que os responsáveis vão pagar o preço, mas a Europa ainda não mudou a postura defensiva (Bloomberg)
No mês passado a Polônia disse ter frustrado uma tentativa de assassinato encomendada por Moscou, e a Estônia acusou a Rússia de um incêndio em uma fabricante de drones (Bloomberg)
Onde isso vira preço: os ataques ucranianos a portos e refinarias russas derrubaram as exportações de grãos dos dois países, e trigo e milho subiram para máximas de vários anos. Juntos, eles respondem por mais de um quarto das exportações mundiais de trigo (Bloomberg)
A Rússia estuda estender até 1º de outubro a proibição de exportar diesel (Bloomberg)
Contexto de por que preocupa mais do que em 2022: naquele ano a safra russa recorde e o corredor de exportação do Mar Negro aliviaram a conta. Agora a produção russa está desorganizada pelos drones, a guerra no Irã encareceu fertilizante e combustível, e as ondas de calor derrubaram colheitas na Europa e nos EUA (Bloomberg)
Tarifas: Canadá e Brasil
O Canadá retaliou dólar por dólar. São tarifas de 15% a 50% sobre mais de 700 produtos americanos, cerca de US$ 20 bilhões, a partir de 8 de setembro. Aço e alumínio dobram para 50% (WSJ, FT, BTG Morning Call)
A lista foi desenhada para doer em eleição. Entram lagosta do Maine, laticínios de Wisconsin, motos da Harley-Davidson, máquinas agrícolas do Meio-Oeste e eletrodomésticos de Ohio e Kentucky (WSJ)
A ministra da Indústria, Mélanie Joly, admitiu que o alvo é a pressão política nas midterms de novembro (WSJ)
A Casa Branca já discute penalidades adicionais contra o Canadá (Bloomberg)
O UBS cortou a projeção de PIB canadense de 1,0% para 0,9%, e avisa que o efeito indireto sobre confiança e investimento pode ser maior que o das exportações (WSJ)
Brasil e EUA voltam à mesa na segunda-feira. A prioridade brasileira é ampliar a lista de produtos isentos, depois de mais de 30 contatos sem acordo definitivo (Folha, Valor, the news)
Mercados e IA
A Nvidia reporta hoje após o fechamento. O consenso é de receita perto de US$ 92 bilhões, quase o dobro de um ano atrás (Bloomberg)
A ação subiu ontem e interrompeu sete pregões seguidos de queda, a pior sequência desde 2022 (BTG Morning Call, Barron’s)
A Barron’s argumenta que a Marvell, que reporta quinta, virou mais importante para o trade de IA do que a própria Nvidia, por causa das redes ópticas dos data centers (Barron’s)
A conta que ninguém responde: pelo cálculo de David Cahn, da Sequoia, a IA precisaria gerar cerca de US$ 1,5 trilhão de receita para justificar o investimento deste ano. Em 2024 essa conta era de US$ 600 bilhões (WSJ)
O SoftBank estuda emitir de US$ 10 a US$ 20 bilhões em bonds para refinanciar o empréstimo ponte da sua fatia na OpenAI (Bloomberg)
A IA já disputa capital com governos. O banco de comércio exterior da Coreia foi captar na Nova Zelândia para fugir da concorrência dos hyperscalers, na primeira emissão desse tipo em nove anos (Bloomberg)
Bitcoin furou US$ 80 mil pela primeira vez desde meados de maio e devolveu parte, operando perto de US$ 78,8 mil (Bloomberg, BTG Morning Call)
A SEC investiga o quase colapso do fundo Situational Awareness e intimou bancos que operaram com ele (DealBook/NYT, WSJ)
Brasil: mercado e fluxo
O IPCA-15 de agosto veio em deflação de 0,40%, contra 0,31% negativo projetado pela XP e 0,32% negativo do consenso. O acumulado em doze meses desacelerou de 4,52% para 4,24% (IBGE, XP Macro Strategy)
A composição pede cautela. As maiores surpresas para baixo vieram de passagem aérea, com queda de 13,3%, e de energia elétrica, com queda de 6,25%. Já os serviços subjacentes subiram 0,50%, acima dos 0,43% projetados, e a difusão subiu de 48% para 52% (XP Macro Strategy)
Do lado bom, o núcleo médio avançou 0,23%, em linha, e o núcleo anualizado de três meses desacelerou de 4,4% para 3,87% (XP Macro Strategy)
Reação inicial nas telas: o índice futuro tocou 179 mil pontos depois do IPCA-15 e voltou para perto de 177,7 mil depois do PCE. O dólar futuro caiu a R$ 5,144 e devolveu para acima de R$ 5,155 (leitura própria)
O Ibovespa subiu 1,5% ontem, acima dos 174 mil pontos, na quinta alta seguida. O dólar caiu 0,25%, a R$ 5,1399, e a curva DI fechou de 10 a 15 bps (BTG Morning Call, XP Macro Strategy)
Difícil cravar um culpado só pela alta. O BTG credita ao recuo dos juros futuros, às ações domésticas e a primeiros sinais de volta do estrangeiro. A Bloomberg associa parte do movimento a uma compra expressiva de calls do índice com vencimento em novembro (BTG Morning Call, Bloomberg via XP Macro Strategy)
Vale a ressalva de sempre: preço de índice é termômetro, não fluxo. O fluxo estrangeiro só se confirma no dado da B3 (leitura própria)
Na mesma direção, o Valor reporta que grandes fundos estão montando aposta em rali pós-eleição via opções de EWZ, o ETF de Brasil negociado em Nova York (Valor via XP News Clipping)
A onda de reestruturações continua. Com a Braskem, o país bate recorde de R$ 180 bilhões em dívidas em recuperação judicial e extrajudicial. A Casas Bahia pediu à Justiça a devolução de R$ 422 milhões pelo Banco do Brasil (Estadão, Folha)
Brasil: política e eleição
Os coordenadores econômicos das três campanhas falaram, e nenhum apresentou número. Durigan prometeu a milha final do ajuste via justiça tributária, Daniella Marques quer uma PEC fiscal e mudanças no arcabouço, e Caiado propõe teto corrigido por inflação mais metade do crescimento do PIB (O Globo, Valor, Estadão)
O debate Bessent contra Druckenmiller chegou aqui. Adolfo Sachsida, da campanha de Flávio, criticou a proposta de o Tesouro brasileiro intervir no mercado de títulos para derrubar o juro longo, e disse que o jeito certo de baixar juro é cortar gasto (Poder360)
O governo prorrogou a subvenção da gasolina até 9 de setembro, como o time de política da XP havia antecipado (XP Política)
O Orçamento de 2027 deve ser enviado sem depender de aprovações futuras do Congresso, e o governo já cortou R$ 5 bilhões da estimativa de despesa com benefícios previdenciários (Estadão, Valor)
Na direção oposta, o Valor mostra que o governo dobrou a despesa financeira para driblar o arcabouço (Valor via XP News Clipping)
O relator da PEC do fim da 6x1 decidiu não mexer no texto da Câmara e quer entregar o parecer amanhã. Lula recebe hoje Motta e Alcolumbre para tratar disso e da taxa das blusinhas (CNN, Folha, Metrópoles)
Quaest nos estados: Tarcísio 40% contra 27% de Haddad em SP, Paes com 37% no Rio, Cleitinho com 29% em MG e Raquel Lyra 44% contra 36% de João Campos em PE (Quaest via G1, O Globo, Folha)
A cúpula do PT pediu que Lula endureça o tom sobre Lulinha e diga que pai não responde por filho maior de idade. A estratégia deve estrear na sabatina do Jornal Nacional, amanhã (Estadão)
AGENDA DA SEMANA
Hoje: IPCA-15 de agosto às 9h e PCE de julho às 9h30, com segunda leitura do PIB do 2º trimestre americano. Nvidia reporta após o fechamento, junto de Salesforce e CrowdStrike
Quinta: começa Jackson Hole. Marvell reporta, e é o balanço que a Barron’s considera mais decisivo para o trade de IA do que o da Nvidia. Aqui, parecer da PEC do fim da 6x1 e Lula no Jornal Nacional
Sexta: Warsh discursa em Jackson Hole às 11h, primeira fala grande dele como presidente do Fed. No mesmo dia sai a revisão anual do payroll, que no ano passado derrubou a contagem e terminou com o chefe do BLS demitido
Semana que vem: Brasil e EUA retomam a negociação do tarifaço na segunda. Atlas e Nexus também são esperadas na segunda, e o G20 de finanças começa no sábado
8 de setembro: entram as tarifas retaliatórias do Canadá
4 de outubro: primeiro turno. Faltam 39 dias


