Warsh fala hoje às 11h em Jackson Hole. Pode ser que traga muita volatilidade e direção para o mercado, mas pode ser que não dê em nada. Não tem perguntas e respostas, ele provavelmente ensaiou um discurso e é isso. Esse é o primeiro teste que ele tem como presidente do Fed. Até agora, a única coisa mais concreta que ele deu ao mercado foi dizer que vai ser duro com inflação e que não vai dar forward guidance da política do Fed. Os dados desde que ele assumiu foram a favor de ele não tomar nenhum tipo de reação para controlar a inflação, ou seja, subir juros. E subir juros é contra a vontade de Trump, que o colocou lá. Trump não só o colocou lá como, segundo o WSJ, liga para ele desde maio em rajadas, várias vezes em poucos dias e depois períodos de silêncio. A Bloomberg confirmou a apuração. Trump negou a frequência e disse que falaram uma vez só.
Tendo dito isso, as últimas semanas mudaram um pouco o cenário. O núcleo do PCE veio em linha, mas o cheio veio acima, a 3,7%. Junte a isso a guerra segurando o petróleo elevado por mais tempo e o movimento recente do Tesouro americano de recomprar títulos de longo prazo numa tentativa de influenciar a curva de juros. Essas coisas pedem algum tipo de comentário ou reação do Warsh. E é isso que o mercado vai ficar observando.
RECAP:
ONTEM (27 de agosto)
Nvidia fechou em alta de 8,7% e somou cerca de US$ 442 bilhões em valor de mercado, o segundo maior ganho diário da história. Salesforce saltou 23% com a integração à Anthropic. Nasdaq subiu 1,6% e S&P 500 subiu 0,7%.
Brent subiu 1,9%, a US$ 89,5, depois da notícia de que os Estados Unidos não querem retomar o memorando de junho com o Irã. Treasury de 2 anos a 4,24% e de 10 anos a 4,67%, ambas 2 bps acima.
PNAD de julho trouxe desemprego a 5,3% no trimestre. Governo central registrou superávit primário de R$ 10,78 bilhões em julho.
Ibovespa subiu 0,3%, dólar a R$ 5,16, DI Jan28 fechou 6 bps. Omar Aziz entregou o parecer da PEC da 6x1 mantendo o texto da Câmara.
Na sabatina do Jornal Nacional, Lula chamou as acusações contra Lulinha de ilações, criticou a conduta do ex-chefe de gabinete e disse não conhecer a lobista do caso, que tem fotos ao lado dele.
HOJE / MADRUGADA (28 de agosto)
Futuros dos Estados Unidos oscilando perto da estabilidade e Treasuries parados antes do discurso de Warsh. Nasdaq futuro cede 0,3%.
Marvell cai cerca de 8% no pré-mercado mesmo com receita, lucro e guidance acima do esperado. PayPal cai 14% depois de Stripe e Advent desistirem da compra.
Irã diz que retomar a diplomacia com os Estados Unidos não é impossível, mas que pressão não funciona. Brent devolve parte da alta e volta para perto de US$ 88.
Inflação de agosto na Espanha e na França veio acima do esperado e reforça a aposta de alta de 25 bps do BCE em setembro.
Venezuela avalia deixar a OPEP, enquanto os Estados Unidos negociam participação em campos de petróleo do país.
No Brasil, começa hoje o horário eleitoral gratuito no rádio e na TV, com os presidenciáveis estreando só no sábado. Flávio é sabatinado hoje no Jornal Nacional.
Daqui pra baixo é o flash read completo: tudo que aconteceu de ontem pra hoje, tópico por tópico, com a origem de cada informação. Assunto que já apareceu na edição anterior volta só pelo que mudou. Tudo com ajuda da minha IA favorita, é claro.
RESUMO POR TÓPICO (com as fontes)
Fed e juros nos Estados Unidos
Warsh discursa hoje às 10h de Nova York em Jackson Hole. O mercado não espera forward guidance e cobra a explicação retroativa: por que falar duro com inflação e não subir juro em julho (Bloomberg Economics Daily, WSJ)
David Wilcox, do Bloomberg Economics, resume o risco: se Warsh corrigir de menos hoje, o dano à presidência dele pode ser grande (Bloomberg)
Susan Collins, do Fed de Boston, disse que apoiaria alta de juros numa próxima reunião se a inflação decepcionar. Ela não vota este ano, mas participa das deliberações (WSJ)
Núcleo do PCE de julho a 3,3% em 12 meses, em linha com as estimativas. O cheio veio a 3,7%, 0,1 ponto acima do consenso. Mercado precifica cerca de 34% de alta em setembro (XP Macro Strategy, Bloomberg)
O juro de 30 anos saiu de 5,09% antes do Fed de julho para 5,31% às vésperas da intervenção do Tesouro, o que virou o pano de fundo da recompra de Bessent (WSJ)
O Bureau of Labor Statistics publica hoje, no mesmo horário do discurso, a prévia da revisão anual do benchmark do payroll, junto com o QCEW do primeiro trimestre. A revisão definitiva só entra em fevereiro de 2027 (BLS)
Contexto: a prévia de 2024 cortou 818 mil vagas, e na última rodada Trump chamou a estatística de falsa e demitiu a chefe da agência (WSJ, Congressional Research Service)
Contexto que pesa no discurso de hoje: o WSJ revelou em 6 de agosto que Trump e Warsh se falam por telefone desde maio, em rajadas. O presidente pediu a leitura dele sobre o impacto econômico da guerra no Irã e sobre IA, e a Bloomberg confirmou a apuração (WSJ, Bloomberg)
A Casa Branca não contestou as ligações, mas Trump negou a frequência dias depois e afirmou que falaram uma única vez, brevemente. Fica a dúvida sobre o quanto isso contamina a leitura do mercado sobre a independência do Fed (CNBC)
Um juiz decidiu que o bloqueio da Anthropic pelo governo americano nas agências federais foi ilegal, por retaliação a expressão protegida (NYT, WSJ)
Petróleo e Oriente Médio
O governo Trump comunicou aos mediadores que não tem interesse em retomar os termos do memorando fechado com o Irã em junho. Brent subiu 1,9%, a US$ 89,5 (WSJ, XP Macro Strategy)
O chanceler iraniano Abbas Araghchi respondeu hoje que retomar a diplomacia com os Estados Unidos não é impossível, após conversas com o Catar, mas condicionou dizendo que pressão não funciona (Bloomberg, XP Política)
O comando americano no Oriente Médio afirma ter removido as minas iranianas do Estreito de Ormuz. Aliados dizem em privado que a via provavelmente segue minada (Bloomberg)
Fluxo de petróleo pelo Golfo está em cerca de dois terços do nível pré-guerra, segundo o Goldman Sachs. Kuwait e Catar restauraram exportações para perto de 70% (Bloomberg)
Venezuela estuda deixar a OPEP, cartel que ajudou a criar há mais de seis décadas. Em paralelo, os Estados Unidos negociam participação relevante em campos venezuelanos (Bloomberg, WSJ)
A Camex prorrogou por mais 60 dias o imposto de exportação do petróleo, apesar da liminar que suspendeu a cobrança. A equipe econômica vê boa chance de derrubar a liminar (XP Política)
Mercados e o trade de IA
Nvidia fechou em alta de 8,7% e adicionou cerca de US$ 442 bilhões de valor de mercado, o segundo maior ganho diário já registrado (Bloomberg)
A projeção que animou o mercado foi a de 70% de crescimento de receita no ano fiscal de 2028, contra 45% esperados pelos analistas (WSJ, Barron’s)
A companhia já se comprometeu a gastar US$ 279 bilhões com fornecedores e assumiu US$ 109 bilhões em garantias de empréstimo, boa parte para um data center da OpenAI em Ohio (Bloomberg Businessweek, WSJ)
Contrapeso de hoje: Marvell bateu as estimativas, elevou o guidance e mesmo assim cai 8% no pré-mercado. A barra para quem não é Nvidia subiu (Bloomberg, WSJ)
Salesforce disparou 23% com a integração à Anthropic. CrowdStrike e Okta subiram com demanda de segurança puxada por IA (WSJ, Barron’s)
Alphabet foi na contramão do rali e caiu, com dúvidas sobre sua posição na corrida de IA. Perdeu perto de US$ 700 bilhões de valor de mercado desde maio (Bloomberg)
ETFs de ouro e bitcoin captaram US$ 7 bilhões em cinco pregões, recorde. Os dois voltaram a andar juntos com a ansiedade sobre endividamento americano e dólar (Bloomberg, XP)
Stripe e a Advent desistiram da compra da PayPal, operação que teria ficado entre as maiores compras alavancadas da história. A ação cai 14% (Bloomberg)
Brasil: mercado e macro
PNAD de julho: desemprego a 5,3% no trimestre, com rendimento real em alta. A XP aponta a série mensalizada estável perto de 5,5%, então atenção para não comparar séries diferentes (IBGE, XP Macro Strategy)
Governo central com superávit primário de R$ 10,78 bilhões em julho, acima do consenso de R$ 10,6 bilhões (Folha, XP)
O Tesouro fez o maior leilão de prefixados desde meados de abril. DI Jan28 fechou 6 bps e Jan35 abriu 4 bps (XP Macro Strategy)
Ibovespa subiu 0,3% e o dólar foi a R$ 5,16, alta de 0,2% (XP Macro Strategy)
Contexto da véspera: depois do IPCA-15 negativo, a XP tirou a pausa do cenário e passou a ver Selic a 13,25% no fim do ano, ante 14,00%. Mantém 11,50% em 2027 (XP Macro)
O Brasil tem recorde de empresas em recuperação judicial, 6.341. O Habib’s entrou com pedido citando dívida de R$ 265 milhões, e o ponto em comum dos casos recentes é juro alto por tempo demais (the news, Estadão, Folha)
Brasil: política e eleição
Omar Aziz entregou à CCJ do Senado o parecer da PEC da 6x1 mantendo integralmente o texto da Câmara. A votação no colegiado está prevista para quarta-feira (G1, CNN)
Lula quer a proposta em plenário já na semana que vem, mas líderes avaliam que Alcolumbre pode empurrar a votação para depois do primeiro turno (CNN)
Na sabatina do Jornal Nacional, Lula chamou as acusações contra Lulinha de ilações, criticou a conduta do ex-chefe de gabinete e disse não conhecer a lobista do caso. Ela publicou fotos ao lado dele, inclusive uma de junho de 2022 (Valor, Folha, Estadão)
Começa hoje o horário eleitoral no rádio e na TV. Os presidenciáveis estreiam sábado, com Lula tendo 5 minutos e 31 segundos e Flávio 4 minutos e 20 segundos (XP Política, O Globo)
Lula vai associar Flávio a rachadinha, Vorcaro e ao financiamento do filme Dark Horse. Flávio vai concentrar fogo em economia, segurança e no caso Lulinha (Folha, Estadão)
Trackings internos de PP e União Brasil já registram empate técnico entre os dois, com movimento de alta para o candidato do PL (O Globo)
Flávio jantou com banqueiros e empresários em São Paulo, moderou o tom sobre o STF e defendeu solução política para a crise entre Poderes. A Faria Lima segue cética sobre ajuste fiscal com qualquer um dos dois (Metrópoles, O Globo, CNN)
O TSE deve julgar o uso de deepfake até a semana que vem, e o horário eleitoral começa sem regra definida sobre IA (Folha, G1)
AGENDA DA SEMANA
Hoje: Warsh em Jackson Hole às 11h, no mesmo horário da prévia da revisão do payroll. É o choque de agenda do dia: se a revisão vier com corte grande e ele estiver falando duro com inflação no mesmo minuto, a curva americana recebe os dois vetores juntos.
Hoje: Caged de julho às 14h30 (consenso 115 mil, XP 91 mil), IGP-M de agosto e a definição da bandeira tarifária de setembro, que entra direto no IPCA. Flávio é sabatinado no Jornal Nacional.
Sábado: estreia da propaganda dos presidenciáveis. É o começo formal da guerra de narrativas entre Dark Horse e caso Lulinha.
Segunda: resultado do setor público consolidado e o PLOA 2027, que traz pela primeira vez projeções de arrecadação da CBS e do imposto seletivo. Focus pela manhã e pesquisas Atlas e Nexus.
Terça: PIB do segundo trimestre. A XP espera desaceleração na margem, e é esse número que sustenta ou não o corte de Selic mais rápido que o mercado passou a comprar.
Quarta: votação da PEC da 6x1 na CCJ do Senado e pesquisa Quaest. Nos Estados Unidos, Livro Bege.
Sexta: payroll de agosto nos Estados Unidos, o dado que define se setembro vira reunião de alta.
No radar: decisão do Fed em 15 e 16 de setembro, Copom na sequência e primeiro turno em 4 de outubro, daqui a 37 dias.
Aviso: vou tirar duas semanas de férias e volto em duas semanas. Nesse período não tem edição, nem no Substack nem no WhatsApp. Quem quiser se preparar para a volta: o calendário guarda o Fed de setembro, o Copom e a reta final do primeiro turno, então a chance de eu voltar com muita coisa acumulada é alta.


