A revista britânica The Economist dedicou editorial investigando quais atributos tornam um sujeito comum em um grande investidor. A narrativa é construída a partir de referências lendárias como Stanley Druckenmiller, George Soros e Warren Buffett. Mesmo como investidores normais que somos, é possível absorvermos lições.
A conclusão um tanto insegura da matéria não é uma lista corrida de características a serem seguidas. “O segredo é a combinação delas”, escreve o autor. São traços contraditórios que raramente convivem numa mesma pessoa.
“Você deve ser arrogante, firme para apostar pesado numa tese, mas humilde para mudar de ideia quando a aposta dá errado.” - diz o texto.
Ou ainda, “Propenso ao risco para carregar posições perdedoras durante muito tempo, mas avesso ao risco quando percebe que a aposta deu errado.”
Outra é como a capacidade de estudar e se envolver profundamente no estudo de uma empresa, mas praticar um desapego emocional para abandonar ela no primeiro sinal de que os fatos mudaram.
A conclusão do artigo é um tanto cética, já que essa combinação de qualidades contraditórias raramente convive na mesma pessoa, quando isso acontece, o resultado é alguém esquisito, fora do padrão.
Essa combinação de perfis dentro de uma pessoa exige certo isolamento social, o que te torna um sujeito estranho. Mas é a estratégia para evitar pressão social das famílias, dos clientes e da imprensa. Significa por vezes até o isolamento físico. Dois exemplos. Warren Buffett estabeleceu escritório na remota Nebraska, Omaha, longe de Wall Street. John Templeton operava direto do Alaska, porque dizia ele, o jornal não chegava lá.
Templeton se mudou para Lyford Cay, nas Bahamas, em 1968, e viveu lá até morrer em Nassau.
Investidores e comediantes
A resposta para o perfil antissocial pode ser encontrada em outro campo de conhecimento: na comédia.
Em entrevista para um podcast, Jerry Seinfeld (o GOAT da comédia), relata um perfil exótico entre os comediantes. Diz que o problema reside numa “construção alternativa do cérebro” que ele compara à mente de um cão da raça Jack Russell, o tipo que não convive bem com outros cães. Ele resiste a chamar isso de “defeito”, preferindo pensar como um espectro neurológico que a maioria das pessoas não percebe, mas que dá aos comediantes essa capacidade de enxergar e nomear coisas que os outros veem mas não conseguem verbalizar.
Seinfeld admite que sua esposa e amigos notam que ele não gosta de muita gente, e ele mesmo relata dificuldade em circular festas ou manter conversas superficiais. Diz que só aprendeu a fazer isso por ser casado, porque sozinho nunca teria ido a lugar nenhum com ninguém.
O ponto de conexão com o artigo da The Economist sobre grandes investidores é o que explica o talento fora da curva. Não é um dom isolado, é a combinação de traços que normalmente não convivem na mesma pessoa.
O investidor precisa de isolamento físico para escapar da pressão do consenso de Wall Street e conseguir pensar diferente do rebanho. O comediante, pela lógica de Seinfeld, precisa de um distanciamento social parecido, permitindo ver o óbvio que ninguém percebe e fazer piada disso.



