Ontem o Tesouro americano anunciou que vai ao menos dobrar as recompras de títulos de 10 a 30 anos, de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões por operação, a partir de 9 de setembro. Convém dimensionar: US$ 2 bilhões a mais é troco perto dos US$ 120 bilhões por mês que o Fed comprava no pico do afrouxamento pós-pandemia, comparação que o John Authers fez na Bloomberg. Mesmo assim o 30 anos saiu de 5,29% para 5,19%, o dólar teve o dia mais fraco em três meses, o ouro fez o melhor pregão em seis meses e o bitcoin encostou nos US$ 70 mil, tudo no mesmo dia em que a dívida bruta americana passou de US$ 40 trilhões pela primeira vez. O que o mercado comprou não foi o tamanho, foi o recado: Washington não vai ficar parada vendo a ponta longa correr. Só que sinalizar não é resolver, e o que empurra esse juro pra cima continua onde estava. Por isso foi suficiente pro dia, e o dia acabou. Hoje de manhã o 30 anos já repicou para 5,22% e o 10 anos para 4,67%, enquanto ouro e bitcoin seguem firmes. Aqui foi a mesma coisa: o Ibovespa quebrou onze quedas seguidas, chegou a furar os 170 mil pontos e devolveu metade antes do fechamento, com o gatilho vindo inteiro de fora. É aquilo que eu venho perseguindo há semanas. Quase sempre que o juro americano dá trégua sobra algum dinheirinho pra cá. E tem uma camada nisso que eu acho a mais interessante do episódio, com o Authers de novo colocando de um jeito cruel: o Warsh chegou ao Fed querendo encolher o balanço e blindar a independência da instituição, e o Bessent acabou de fazer, pelo lado fiscal, algo que mira no mesmo lugar que o QE mirava. Não é impressão de dinheiro, é troca de prazo, o Tesouro emite papel curto para tirar papel longo do mercado. Mas o alvo é o mesmo, comprimir o prêmio da ponta longa. O Fed segue independente e decidindo a taxa curta, só que o preço que morde a economia passa a ser administrado por quem responde ao presidente. Independente e irrelevante. O Warsh estreia em Jackson Hole entre 27 e 29, a fala do presidente do Fed é tradicionalmente na sexta de manhã, e o tema oficial do simpósio deste ano é inovação financeira e meios de pagamento. O palco está montado pra ele falar de outra coisa. Tô curioso pra ver se ele comenta alguma coisa sobre isso na semana que vem.
RECAP:
ONTEM (19 de agosto)
Tesouro dos EUA anunciou que vai ao menos dobrar as recompras de títulos de 10 a 30 anos, de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões por operação, a partir de 9 de setembro.
Treasuries longas fecharam até 10 bps, com o 30 anos a 5,19%. O DXY caiu 0,8%, a 98,8. O ouro teve o melhor dia em seis meses e o bitcoin subiu quase 8%, para perto de US$ 69,5 mil.
Ata do FOMC de 28 e 29 de julho mostrou vários dirigentes defendendo alta de juros na própria reunião e muitos vendo aperto necessário se a inflação não recuar. A decisão foi 9 a 3, com Logan, Hammack e Kashkari a favor de 25 bps.
Dívida bruta dos EUA passou de US$ 40 trilhões pela primeira vez. Moderna disparou 177% com resultado de vacina contra melanoma e a Merck subiu 13%.
Ibovespa subiu 0,90%, aos 167.830 pontos, encerrando 11 pregões seguidos de queda, depois de tocar 170.341 na máxima. O dólar caiu 0,87%, a R$ 5,1761, e a curva de juros fechou cerca de 12 bps nos vértices intermediários e longos.
HOJE / MADRUGADA (20 de agosto)
Trump anunciou um “D-Day econômico” contra o Irã, com ameaça de punição a bancos, empresas, aeroportos e governos de qualquer país que dê sobrevida a Teerã. Não detalhou medidas.
Brent sobe 2,3%, a US$ 93,7, quinto dia de alta. WTI avança 2%, a US$ 87,6.
Ásia em alta forte com a recompra da SK Hynix: Kospi +5,9% e Nikkei +1,4%. Bitcoin acima de US$ 71 mil e ouro em US$ 4.545.
O alívio nos Treasuries perde fôlego: o 30 anos volta a 5,22% e o 10 anos a 4,67%. Futuros de Nova York perto da estabilidade.
China manteve as taxas de referência de 1 e 5 anos em 3,0% e 3,5%. O PPI alemão de julho subiu 3% no ano, contra 2,5% esperado. Exportações do Japão cresceram 23,2%.
Walmart elevou projeções e prometeu usar o reembolso de tarifas para baixar preços de alimentos. Alibaba cai cerca de 4% no pré e Moderna devolve 10%.
Daqui pra baixo é o flash read completo: tudo que aconteceu de ontem pra hoje, tópico por tópico, com a origem de cada informação. Assunto que já apareceu na edição anterior volta só pelo que mudou. Tudo com ajuda da minha IA favorita, é claro.
RESUMO POR TÓPICO (com as fontes)
Fed, Tesouro e juros nos EUA
O Tesouro vai ao menos dobrar as recompras de liquidez em títulos de 10 a 30 anos, de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões por operação, a partir de 9 de setembro (XP Macro Strategy, Bloomberg)
Duas semanas atrás o calendário previa recompras de até US$ 14 bilhões nesses vértices entre 9 de setembro e 4 de novembro (XP Macro Strategy)
É a mais recente de uma sequência de intervenções de Bessent, que inclui a primeira compra coordenada de iene entre EUA e Japão desde 1998, no fim de julho (XP Macro Strategy, Bloomberg)
JPMorgan e BNP Paribas avaliam que a recompra perde credibilidade sem consolidação fiscal (Bloomberg)
Contexto de escala: no pico do afrouxamento pós-pandemia o Fed comprava US$ 120 bilhões por mês. O gesto de ontem é simbólico (John Authers, Bloomberg)
Ata do FOMC de julho: vários dirigentes defenderam alta na reunião e muitos disseram que o aperto será necessário se a inflação não ceder. Voto 9 a 3, com Logan, Hammack e Kashkari dissidentes (XP Macro Strategy, WSJ, FT)
A ata registrou que a reescalada da guerra no Irã turvou o quadro inflacionário (XP Macro Strategy)
A dívida bruta dos EUA passou de US$ 40 trilhões, em US$ 40,047 trilhões (NYT, WSJ)
Authers: o Warsh quer encolher o balanço do Fed e preservar a independência, e o Tesouro passou a fazer pelo lado fiscal o que o Fed faria pelo monetário. O Fed pode seguir independente e virar irrelevante (John Authers, Bloomberg)
Guneet Dhingra, do BNP Paribas, chama o movimento de uma administração bond-vigilante resistindo aos próprios bond vigilantes, os investidores que cobram juro maior de devedor endividado (Bloomberg)
Jackson Hole será de 27 a 29 de agosto, com tema oficial de inovação financeira e meios de pagamento. É a estreia de Warsh no simpósio como presidente do Fed (Federal Reserve Bank of Kansas City)
Robin Brooks, do Brookings, compara ao Japão: comprimir artificialmente o prêmio do juro longo sem mexer na causa migra a conta para o câmbio (Bloomberg)
James Mackintosh: o que empurra o juro longo é demanda por capital em três frentes, déficit público, capex de IA e reshoring. A inflação implícita do mercado segue perto de 2% (WSJ)
Dólar, ouro e cripto
O dólar teve o dia mais fraco em três meses e furou a média de 200 dias (Bloomberg)
O ouro fez o melhor pregão em seis meses e voltou ao maior nível desde o começo de junho (Bloomberg, John Authers)
Bitcoin subiu quase 8% e passou de US$ 70 mil pela primeira vez desde junho. Mais de US$ 1 bilhão em posições vendidas foi liquidado em cerca de uma hora, o maior volume da série iniciada em 2021 (Bloomberg, WSJ)
Trump recebeu executivos de cripto na Casa Branca e pediu que o Congresso aprove a lei que o setor quer (Bloomberg, Barron’s)
Petróleo e Oriente Médio
Trump prometeu a “operação econômica mais avassaladora já feita contra qualquer país”, com penalidade a instituições financeiras, empresas, aeroportos e governos que apoiarem Teerã. Não citou países nem medidas concretas (BTG Morning Call, News XPress, Bloomberg)
Brent no quinto dia de alta, a US$ 93,7 nesta manhã (BTG Morning Call)
Os Emirados suspenderam todo o comércio e as transações financeiras com o Irã depois de acusarem Teerã de disparar mísseis balísticos contra seu território. O Irã negou (Bloomberg, BTG Morning Call)
A Marinha americana escolta petroleiros no sul de Ormuz desde maio, com transponders desligados, e já ajudou mais de mil navios. O fluxo caiu de 15 milhões para cerca de 5 milhões de barris por dia (NYT)
Mercados e IA
SK Hynix anunciou recompra de US$ 29 bilhões e o Kospi subiu 5,9% hoje (Bloomberg, WSJ, BTG Morning Call)
JPMorgan projeta que a Hynix pode devolver ao menos US$ 130 bilhões ao acionista até o ano que vem, e a MoneyToday diz que a Samsung prepara programa acima de US$ 72 bilhões (Bloomberg)
Contexto: a Hynix levantou US$ 26,5 bilhões numa listagem nos EUA há um mês, no auge do rali de IA, e a ação caiu mais de 50% em dois meses (Bloomberg)
A Unitree estreou em Xangai subindo mais de cinco vezes, avaliada em cerca de US$ 53 bilhões, ou 36 vezes receita (Bloomberg, Barron’s)
Moderna disparou 177%, a maior alta de uma ação do S&P 500 em 25 anos, com a vacina de mRNA contra melanoma feita com a Merck. Hoje devolve 10% no pré (NYT, Barron’s, WSJ)
Walmart elevou projeções e prometeu usar o reembolso de tarifas para cortar preços de alimentos (FT)
Brasil: mercado e fluxo
O Ibovespa subiu 0,90%, aos 167.830 pontos, encerrando 11 pregões consecutivos de queda. Chegou a 170.341 na máxima e devolveu metade dos ganhos à tarde (BTG Morning Call)
O dólar caiu 0,87%, a R$ 5,1761, e a curva fechou cerca de 12 bps nos vértices intermediários e longos (BTG Morning Call, XP Macro Strategy)
Estrangeiro tirou R$ 12,6 bilhões da B3 entre 10 e 14 de agosto, maior saída semanal desde o início da série, em 2008 (XP News Clipping, com dados Bloomberg)
No acumulado do mês as contas divergem conforme a série usada: a Empiricus fala em cerca de R$ 18,1 bilhões e o the news em R$ 15 bilhões (Empiricus, the news)
A curva doméstica segue precificando cerca de 70% de chance de corte de 0,25 ponto na Selic em setembro (Empiricus)
A inflação implícita de 2026 saltou 27 bps em um dia, para 5,53%, contra 5,08% da XP e 5,02% do Focus (XPInflation News)
A taxa implícita da dívida bruta está em 13,2% ao ano, maior desde 2016, com despesa financeira de R$ 149 bilhões no primeiro semestre (Empiricus)
A Justiça do Trabalho suspendeu a demissão coletiva do Grupo Casas Bahia e mandou reintegrar 1.900 funcionários em cinco dias (Resumo do Mercado, the news)
Brasil: política e eleição
Novas revelações sobre Lulinha e Marcola recolocam corrupção no caminho da campanha. Lula orientou o filho a se apresentar à Justiça (XP News Clipping, News XPress, Estadão)
A cúpula do PL comemora trackings internos com a menor diferença já registrada entre Flávio e Lula, atribuída à entrada de Michelle e ao desgaste do Planalto (O Globo, via News XPress)
Flávio gravou propaganda em frente a uma loja fechada das Casas Bahia e estreia campanha em São Paulo hoje, sem Tarcísio (Folha, Metrópoles, via XP News Clipping)
O Ministério Público Eleitoral pediu ao TSE que barre a candidatura de Pablo Marçal e o impeça de participar de debates (O Globo, Folha, Estadão, Valor)
Alcolumbre iniciou a tramitação da PEC do fim da escala 6x1 (Folha, via XPInflation News)
O governo vai prever alta de 7,7% nas despesas com benefícios previdenciários em 2027, de R$ 1,135 trilhão para R$ 1,223 trilhão, no PLOA que vai ao Congresso dia 31 (Valor, via News XPress)
Faltam 45 dias para o primeiro turno (News XPress)
AGENDA DA SEMANA
Hoje: jobless claims (est. 210 mil) e Philadelphia Fed (est. 24,8) às 9h30 nos EUA. Walmart, Alibaba e Deere reportam antes da abertura, Ross Stores depois. Aqui, edital do leilão de prefixados às 10h30 e Daniel Vorcaro depõe à PF sobre servidores afastados do Banco Central.
Sexta: PMIs preliminares de indústria e serviços nos EUA. É também a partir de sexta que a Datafolha pode ser divulgada, a primeira do instituto desde o caso Lulinha.
Semana que vem: Jackson Hole de quinta a sábado, 27 a 29, na estreia de Warsh no simpósio. O tema oficial é meios de pagamento, então responder ao Tesouro exigiria sair do roteiro. Novo levantamento da Nexus na segunda. O PLOA de 2027 vai ao Congresso no dia 31, com o número da Previdência que já vazou.
Médio prazo: as recompras ampliadas do Tesouro americano começam em 9 de setembro. Primeiro turno em 4 de outubro.


