Antes de tudo: isso aqui não é texto de pessimismo. É tentativa de fazer sentido de onde a gente está depois de oito pregões seguidos de queda, a pior sequência desde agosto de 2023.
Essa semana tivemos algumas coisas que contribuíram para isso.
O JP Morgan rebaixou a bolsa brasileira de overweight pra neutro na terça. O governo abriu ontem o processo da Lei de Reciprocidade contra os EUA, num rito que pode levar até nove meses e que gente do próprio governo trata como convite pra negociar, não como retaliação de verdade. O Trump ameaçou tarifa de 25% pra qualquer país que compre bens ou serviços iranianos, direta ou indiretamente. O Bessent prometeu ao Irã medidas “nunca vistas na história do isolamento econômico”. E, no meio disso, o banco central iraniano anunciou que entra em breve no Novo Banco de Desenvolvimento, o banco do Brics presidido pela Dilma. O NDB não confirmou nada, e ele já suspendeu operações com a Rússia em 2022 pra proteger o próprio rating, então eu duvido que isso ande rápido. Só que o Trump não precisa que o empréstimo saia pra usar a foto. O Brasil vai acumulando exposição a decisões de Washington exatamente no mês em que mais precisa que o estrangeiro volte.
E do lado de cá a peça que destravaria isso não aparece. O Lula segue favorito nos mercados de previsão, lidera as pesquisas, com margens que variam bastante de instituto pra instituto, e vem recompondo a base no Congresso, com o apoio do Motta e a reaproximação com o Alcolumbre. Só que o plano de governo dele promete continuidade e não fala em cortar despesa. O Flávio vai pro lado oposto e propõe trocar o arcabouço por uma regra amarrada à dívida, com tesourão e menos ministérios, mas sem dizer de onde sai o corte, o que é compreensível, porque detalhar isso não rende voto. Duas rotas diferentes e nenhuma com número. Enquanto isso a temporada de balanços nos EUA veio bem acima do esperado e a daqui veio mista, com a inadimplência de pessoa física aparecendo no lucro do Banco do Brasil e de outros bancos. Selic a 14% de um lado, e políticas públicas como o Desenrola 2.0 e o pacote de combustíveis empurrando na direção contrária. Nada no plano do atual governo sugere que isso muda.
ONTEM (13 de agosto)
PPI de julho nos EUA veio estável no mês, contra alta de 0,2% esperada. S&P 500 subiu 0,7% e fechou em recorde, aos 7.798,99 pontos, o 27º máximo histórico do ano. Nasdaq +0,8%.
Tesouro americano vendeu US$ 25 bi em títulos de 30 anos a 5,216%, maior taxa desde 2001.
Ibovespa caiu 0,23%, aos 167.101 pontos, oitava queda seguida e pior sequência desde agosto de 2023. Dólar subiu 0,25%, a R$ 5,1925. Brent recuou 2,3%, a US$ 87.
Governo abriu o processo da Lei de Reciprocidade contra os EUA e notificou Washington. Flávio teve a filiação ao PL restabelecida pelo TSE e registrou candidatura.
HOJE / MADRUGADA (14 de agosto)
Bessent disse que os EUA anunciarão na semana que vem medidas de isolamento econômico ao Irã “como nunca vistas na história”, combinadas ao bloqueio dos portos. Pentágono falou em manter o bloqueio naval por tempo indefinido.
Navio-tanque foi atacado por drone ao tentar deixar o Golfo Pérsico. Brent sobe perto de 1%, a US$ 88, acumulando mais de 5% na semana.
Na CME, a aposta de alta de juros em setembro está em 30,6%, contra 44,4% uma semana atrás. Corte segue precificado em 0%.
Kospi fechou em alta de 2,42%. Futuros americanos mistos e DXY recua 0,21%, a 99,65.
Daqui pra baixo é o flash read completo: tudo que aconteceu de ontem pra hoje, tópico por tópico, com a origem de cada informação. Assunto que já apareceu na edição anterior volta só pelo que mudou. Tudo com ajuda da minha IA favorita, é claro.
RESUMO POR TÓPICO (com as fontes)
Petróleo e Oriente Médio
Bessent promete medidas de isolamento econômico ao Irã “nunca vistas na história”, num golpe duplo com o bloqueio dos portos (Newsmax via Bloomberg, BTG Morning Call)
Pentágono afirma que o bloqueio naval aos portos iranianos pode se manter indefinidamente (BTG Morning Call)
Trump ameaça tarifa de 25% a qualquer país que compre bens ou serviços iranianos, direta ou indiretamente, o que mira a China (BTG Morning Call)
Navio-tanque sofre ataque de drone ao tentar sair do Golfo Pérsico, com danos leves segundo agência naval britânica que monitora incidentes (Manual/Joe Wallace, WSJ)
Brent sobe perto de 1%, a US$ 88, e acumula mais de 5% na semana (WSJ Markets A.M., BTG Morning Call)
Analista da Global Risk Management pondera que está ficando difícil identificar sanção que ainda não tenha sido aplicada e que surta efeito (Manual/Joe Wallace)
Banco central do Irã anuncia que o país entra em breve no Novo Banco de Desenvolvimento, o banco do Brics presidido por Dilma Rousseff. A declaração é de quarta, dia 12, às vésperas da reunião de ministros das Finanças do bloco na Índia, e não houve confirmação do NDB (Agência Brasil/Reuters, BTG Morning Call)
Contexto, e não notícia do dia: o NDB suspendeu novas operações com a Rússia em 2022 por conta própria, pra proteger rating e captação. Ajuda a calibrar a expectativa sobre a velocidade dessa adesão (histórico do próprio NDB, sem fonte do dia)
Hegseth diz que os EUA planejam operações terrestres contra o narcotráfico na América Latina e autoriza operações conjuntas com a Colômbia (Estadão, Bloomberg)
Houthis voltam a atacar a refinaria de Jazan, da Aramco, no Mar Vermelho (Bloomberg)
Petroleiros passam mais tempo com transponder desligado pra tirar petróleo por Ormuz e Bab el-Mandeb (Bloomberg)
Fed e juros nos EUA
Vendas no varejo de julho nos EUA caem 0,6% no mês, contra expectativa de alta de 0,1%, depois de avanço de 0,2% em junho. Na comparação anual, sobem 5,0%, ante 6,7% em junho (TradeNews)
PPI de julho fica estável no mês, contra alta de 0,2% esperada, depois de queda de 0,1% em junho (WSJ Markets P.M.)
Na CME, a aposta de alta em setembro estava em 30,6% no começo da manhã, antes do dado de varejo, contra 33,9% ontem, 44,4% uma semana atrás e 58% um mês atrás. Corte segue em 0% (CME FedWatch)
O leilão de 30 anos que a edição de ontem antecipava saiu como esperado: US$ 25 bi a 5,216%, maior taxa desde 2001, com demanda considerada decente (FT, Bloomberg)
Fitch reafirma o rating AA+ dos EUA (Bloomberg)
Beth Hammack, do Fed de Cleveland, reitera que o BC deveria subir juros e diz que é crítico agir agora, avaliando que a política não está restritiva (WSJ Wealth Adviser)
Tom Barkin, do Fed de Richmond, descreve mercado de trabalho de baixa contratação e baixa demissão, com queda da imigração e envelhecimento reduzindo também a oferta de mão de obra (WSJ Wealth Adviser)
Custo de hipoteca sobe nos EUA e em grandes economias europeias por conta do impasse com o Irã (FT)
Rolling average de guidance corporativo positivo nos EUA está perto da máxima de quatro anos, segundo o Bespoke, ajudado por marcação de participações em empresas privadas de IA e por restituição de tarifas (WSJ Markets A.M.)
Mercados e IA
S&P 500 fecha em recorde aos 7.798,99, o 27º máximo histórico do ano, e caminha pra terceira semana seguida de alta (Bloomberg, BTG Morning Call)
Reddit salta 12% no pré-mercado ao ser incluída no S&P 500 a partir de 18 de agosto (WSJ Markets A.M., Bloomberg)
Applied Materials cai cerca de 5% após balanço que não convenceu, mesmo com lucro e receita maiores (WSJ Markets A.M., Barron’s)
OpenAI está a caminho de receita anualizada acima de US$ 40 bi, cerca do dobro do fim de 2025 (Bloomberg)
Nvidia articula US$ 500 bi com BlackRock, Goldman e outros pra financiar infraestrutura de IA. O Barron’s compara o empacotamento de chips como ativo lastreado a produtos derivativos que contribuíram pra crise de 2008 (Barron’s)
Kospi sobe 2,42% e emenda a alta de 3,6% da véspera, puxado por Samsung e SK Hynix (BTG Morning Call)
Bancos americanos aparecem entre os maiores beneficiados do ciclo de IA, segundo Mike Mayo, do Wells Fargo (Bloomberg Markets Daily)
Novos empréstimos bancários na China recuam a 340 bi de yuans negativos em julho, refletindo demanda fraca por crédito e a crise imobiliária (BTG Morning Call)
Zona do euro confirma PIB do 2º trimestre em 0,4% no trimestre e volta a superávit comercial em junho, de 1,8 bi de euros (News XPress, BTG Morning Call)
Brasil: mercado e fluxo
Taxa de desemprego cai a 5,4% no 2º trimestre, ante 6,1% no 1º, com recuo em 13 das 27 unidades da Federação (TradeNews)
Ibovespa cai 0,23%, aos 167.101 pontos, oitava queda seguida e pior sequência desde agosto de 2023, depois de romper de uma vez os suportes de 172.200 e 168.100 pontos (BTG Morning Call)
Dólar à vista sobe 0,25%, a R$ 5,1925, e a curva ganha inclinação, com os vértices longos abrindo 6 bps (BTG Morning Call, XP Macro Strategy)
Estrangeiros já retiraram R$ 32 bi da bolsa desde abril, segundo dados da B3 (B3 via BTG Morning Call)
Saída de R$ 4,72 bi em uma única sessão na terça, a mais intensa desde 2021, no mesmo dia em que o JP Morgan rebaixou a bolsa brasileira pra neutro (Resumo do Mercado de Hoje)
XP calcula que a entrada acumulada de estrangeiro em 2026 caiu de R$ 69,1 bi no pico de meados de abril pra R$ 37,8 bi (XP Research)
Hapvida despenca 33% no dia com pressão de margem e judicialização, e vai aplicar reajuste de dois dígitos altos em planos deficitários. MRV sobe 14,29% (Resumo do Mercado de Hoje)
Banco do Brasil reporta queda de 34,2% no lucro do semestre, com deterioração em pessoa física tornando o guidance desafiador (Resumo do Mercado de Hoje, XP Research)
Atividade da construção civil cai ao menor patamar desde 2020 sob impacto do custo de capital e da Selic (Resumo do Mercado de Hoje)
Parcela da dívida pública atrelada à Selic vai ao maior patamar em 20 anos com a incerteza fiscal (Folha)
Defasagem da Petrobras com base no fechamento de 12 de agosto: diesel 77% abaixo da paridade, a R$ 2,50 por litro, e gasolina 43%, a R$ 1,09 (Abicom via XPInflation News)
Audiência no STF sobre o BRB mostra banco e governo do DF isolados na operação de socorro. Fux avisa que não vai obrigar Tesouro a ser fiador nem o FGC a conceder o empréstimo (Estadão)
Familias brasileiras perderam R$ 62,5 bi com bets em 2025, valor superior ao PIB de quatro estados, segundo o Comsefaz com base em dados do Banco Central (Estadão)
Brasil: política e eleição
Governo abre o processo que pode levar à Lei de Reciprocidade contra os EUA e notifica Washington, pedindo consultas diplomáticas. O rito pode se estender por até nove meses, e interlocutores do governo tratam o movimento mais como forma de puxar os EUA pra mesa do que como desejo real de contramedidas (XP Política, Estadão, BTG Morning Call)
Flávio aparece filiado ao partido Missão por uso indevido de credenciais, tem a filiação ao PL restabelecida por Kassio Nunes e registra candidatura. O TSE nega ataque hacker, abre inquérito e suspende o sistema de filiações (CNN, O Globo, Estadão, TSE via XP News Clipping)
O Missão diz ter avisado a campanha desde 2 de agosto e questiona por que Flávio demorou a se pronunciar. A campanha afirma ter certidão de quarta às 23h com a filiação ao PL regular (G1, Metrópoles, O Globo)
Plano de governo de Flávio propõe regra fiscal ancorada na trajetória da dívida via PEC no primeiro ano, corte de ao menos dez ministérios, revisão da reforma tributária pra reduzir a alíquota do IVA, quarentena pra ministros indicados ao STF, limite a decisões monocráticas e fim da reeleição. Não há estimativa de impacto das medidas de corte (Folha, Valor, O Globo, CNN, XP News Clipping)
Plano de governo de Lula promete continuidade econômica e não menciona redução de gastos (Folha)
Equipe econômica estuda calibrar despesas que crescem acima do arcabouço, como BPC e abono salarial, e desvincular parte das emendas. Técnicos veem pouco espaço pra convencer Lula a falar de medidas estruturais e já considerariam vitória chegar ao fim da eleição sem novas promessas de gasto (Bloomberg via XP News Clipping)
Governo elevará a projeção de salário mínimo de 2027 pra R$ 1.741, ante R$ 1.717 estimados em abril, na LOA que vai ao Congresso até 31 de agosto (Folha)
Departamento de Estado nega intenção de interferir na eleição brasileira e diz que respeitará o resultado das urnas desde que a disputa seja livre e justa (Estadão, XP Política)
PF mira o advogado Nelson Wilians e a Pixbet em operação sobre lavagem de dinheiro em casas de aposta. A defesa nega irregularidades (Estadão, Folha)
Fachin defende sigilo de fonte mas apoia a decisão de Moraes contra o informante de jornalista, e indica que o caso vai ao plenário (Estadão, Folha)
Estadão e Band firmam parceria pros debates presidenciais, com o primeiro encontro marcado pra domingo, dia 23, às 20h (Estadão)
Global
Trump impõe tarifas de até 100% sobre drones importados e componentes, com 25% pros modelos menores e alíquotas menores pra parceiros como União Europeia e Japão (FT, Bloomberg)
EUA acusam mais de 40 países, entre eles o Brasil, de ajudar empresas chinesas a driblar tarifas via transbordo, num volume estimado de US$ 60 bi em comércio (FT, Resumo do Mercado de Hoje)
Governo Takaichi passa a apoiar alta de juros do BoJ em setembro ou outubro, com o iene rondando 159,50 por dólar (Bloomberg)
Ucrânia atinge o porto báltico de Ust-Luga, rota de exportação de petróleo, combustíveis, carvão, fertilizantes e grãos, com 54 drones derrubados sobre a região de Leningrado (Bloomberg)
Calor e seca reduzem a área de plantio de outono na Europa, com agricultores adiando a semeadura (Bloomberg)
AGENDA DA SEMANA
Hoje: as vendas no varejo de julho nos EUA já saíram e vieram fracas. Falta a prévia da sondagem de consumidor da Universidade de Michigan às 11h, que fecha a leitura de consumidor americano da semana. No Brasil, Nilton David se reúne com o mercado às 10h, 11h e 14h, e a pesquisa Quaest está prevista. Lula dá entrevista a podcasts às 11h.
Amanhã: termina às 19h o prazo pra registro de candidaturas no TSE.
Fim de semana: começa oficialmente a campanha eleitoral, com Flávio abrindo no Rio.
Segunda: nova pesquisa Nexus prevista. Reddit entra no S&P 500.
Ainda em agosto: PCE de julho, o índice preferido do Fed, e Jackson Hole. Vale lembrar o detalhe do PPI de julho que registrei ontem: a rubrica de gestão de recursos saltou 6,5% no mês e entra direto no cálculo do PCE, então o alívio do atacado pode não se repetir inteiro no dado que o Fed olha.
O caminho até setembro: payroll de agosto em 4 de setembro, CPI de agosto na segunda semana e decisão do Fed em 15 e 16, com projeções e gráfico de pontos. Segue valendo o que escrevi: é o CPI de agosto que decide, não o de julho.


