Onde está o dinheiro em 2026? JP Morgan aponta os setores que podem surpreender
Petrobras, PRIO, Vale, Gerdau e Suzano despontam após dias de conversas com gestores
O JP Morgan reuniu nesta semana os principais executivos de petróleo e gás, metais e mineração, e papel e celulose na Brazil Opportunities Conference. Ao longo de dois dias, o banco colheu impressões diretas de companhias e investidores, condensando um retrato claro das preocupações, apostas e vetores que devem guiar 2026.
O tom geral: um setor de óleo e gás pressionado por preços mais baixos, a mineração sob um humor melhor com o ferro a US$ 100 a tonelada, e o pulp & paper com um curto prazo mais animador, mas ainda com dúvidas estruturais no horizonte. Para o JPMorgan, Petrobras, PRIO, Vale, Gerdau e Suzano seguem como os nomes preferidos nas suas respectivas áreas.
Óleo e gás: queda do petróleo leva discussão para disciplina de capital
O recuo recente do petróleo virou o centro de gravidade das conversas com executivos do setor. Segundo o JP Morgan, a combinação de preços menores e volatilidade ampliou a atenção sobre capex, flexibilidade de investimentos e estratégias para blindar o balanço em 2026.
Nos encontros, PRIO foi uma unanimidade positiva entre gestores — brasileiros e estrangeiros. O otimismo vem da forte expansão de produção projetada até 2026, dos níveis de breakeven muito baixos e da expectativa de geração de caixa robusta.
Já Petrobras dividiu o público. Investidores estrangeiros analisam com lupa o potencial de produção nos próximos anos, em especial o desempenho de Búzios. Locais, por sua vez, demonstram incômodo com o capex elevado no curto prazo. Mesmo assim, o banco mantém Petrobras como favorita no setor, destacando que a maior parte do investimento vai para “barris altamente lucrativos”, com potencial de acelerar ainda mais o output se não houver contratempos. Um aumento de 100 mil barris por dia, lembra o relatório, adicionaria cerca de R$ 1 bilhão ao caixa operacional.
O banco também observa uma Petrobras mais vocal sobre disciplina de capital e com camadas adicionais de flexibilidade no plano de investimentos. A entrega das próximas FPSOs — incluindo a P-80 — continua sendo prioridade.
PRIO: execução, custos e caixa
A companhia reforçou ao JPMorgan que seguirá com foco total em eficiência operacional e desalavancagem. A meta é trazer o lifting cost consolidado de volta para a faixa de US$ 6 a US$ 7 por barril após a rampa de Wahoo e o ganho de escala em Peregrino.
O plano de capital prevê redução de dívida como prioridade, embora a empresa avalie um novo programa de recompra. A régua de M&A continua rígida: taxa interna de retorno mínima de 20% com Brent a US$ 60. A produção deve chegar a cerca de 200 mil barris/dia até o fim de 2026.
O banco manteve recomendação Overweight, citando fluxo de caixa forte, baixo breakeven e alto potencial de retorno ao acionista.
Brava e PetroReconcavo: foco em governança, eficiência e estabilidade
A Brava, que acaba de nomear Luiz Carvalho como CFO, delineou três pilares para criar valor: resiliência operacional, governança mais forte e alocação disciplinada de capital. A empresa espera normalizar operações em 2026 e crescer produção em 2027, com novos poços previstos para Papa Terra e Atlanta.
Na PetroReconcavo, a reorganização interna foi o tema dominante. A companhia redesenhou funções estratégicas para reforçar execução, supply chain e confiabilidade operacional. Após um 2024 e 2025 abaixo do planejado, a empresa espera estabilizar produção no próximo ano, apoiada por um capex entre R$ 800 milhões e R$ 850 milhões.
Metais & Mineração: humor melhora para o minério; setor de aço depende de medidas antidumping
Investidores chegaram à conferência mais positivos sobre o minério de ferro para 2026. O suporte consistente acima de US$ 100 ao longo de 2025 dissipou parte dos temores de uma queda abrupta, mesmo com a entrada de Simandou.
O nome favorito continua sendo Vale. O banco destaca que a melhora gradativa no mix de produtos aumenta visibilidade de preço e deve reforçar margens. A ação negocia a 4,6 vezes EV/EBITDA, bem abaixo dos 6,8 vezes dos pares australianos.
No aço, o sentimento é mais cauteloso, mas há uma grande expectativa pela aprovação de medidas antidumping no primeiro trimestre do ano. No evento, o interesse dos investidores se dividiu entre Usiminas e Gerdau. O JP Morgan mantém Gerdau como sua top pick, citando a exposição aos Estados Unidos — um mercado com mais proteção tarifária — e a disciplina de longo prazo da gestão.
Gerdau: EUA seguem como ponto forte
A companhia disse esperar margens estáveis ou maiores no quarto trimestre nos EUA, mesmo com queda de 10% nos volumes. Para 2026, o ambiente permanece positivo. No Brasil, as operações caminham conforme o esperado, embora os volumes menores no quarto trimestre devam reduzir receita. Investigações antidumping avançam e podem beneficiar produtos longos.
Para o JPMorgan, a ação segue barata: 3,5 vezes EV/EBITDA, ante 5,9 vezes dos concorrentes.
CSN e Usiminas: projetos, preços e incertezas
A CSN informou que o projeto P15 segue dentro do cronograma para 2027, com ramp-up até 2029. A potencial venda de participação na MRS — apoiada pelos minoritários da CSN Mineração — continua no radar. Os preços do aço subiram 5% desde outubro, mas o excesso de oferta limita novas altas.
Na Usiminas, a discussão dominante continua sendo antidumping. Importações menores aliviaram a pressão, mas estoques ainda elevados devem manter preços sob pressão no curto prazo. No minério, a empresa ainda avalia investimentos para expansão, com decisões esperadas para 2026.
Papel & Celulose: otimismo de curto prazo, dúvidas no longo
Entre investidores, o pessimismo estrutural com preços de celulose permanece, mas o curto prazo virou. Pouca oferta nova e paradas de manutenção podem ajudar os preços até 2026.
Ainda assim, o setor carrega preocupações de longo prazo. Entre elas, a oferta de madeira na China e o risco de excesso de capacidade.
Suzano: top pick, com ambiente mais favorável em 2026
A empresa vê um cenário mais construtivo no curto prazo. A expectativa é de preços melhores no próximo ano, apoiados por capacidade limitada, shutdowns e menor incerteza tarifária.
O desafio está na madeira: dificuldades de rendimento na China podem ser estruturais, mas o impacto ainda é incerto. A Suzano quer manter o caixa abaixo de R$ 800 por tonelada e trabalha com um plano para reduzir capex em 2026. A alavancagem deve cair para 2,5 vezes até 2027.
O JP Morgan mantém Suzano como melhor nome do setor, projetando 65 por cento de upside, com a ação negociando a 5 vezes EV/EBITDA 2026.
Klabin: desalavancagem e estabilidade no papel
A Klabin projeta a celulose convergindo para US$ 560 a tonelada até o fim do ano e espera estabilidade nos mercados de papel, apesar da pressão das importações chinesas. A companhia reforçou que 2026 deve trazer novas oportunidades para kraft e embalagens, apoiadas por fechamentos de capacidade nos Estados Unidos.
A desalavancagem continua como prioridade para os próximos anos.




