Ontem foi pancada, hoje tem respiro (por enquanto)
Brent fura os US$ 100, o capex de IA cobra US$ 800 bilhões das Mag 7 e a nova camada tarifária substitui a que expirou, com o Brasil chegando a 37,5%.
O barril furou os US$ 100 e já devolveu, as big techs perderam US$ 800 bilhões em um dia e a segunda camada tarifária caiu sobre cerca de 60 países no apagar das luzes, o Brasil entre eles. Hoje o mercado respira, mas quase nada disso melhorou de verdade.
ONTEM (23 de julho)
Brent subiu 6,5% e fechou a US$ 100,2 por barril, primeira vez acima de US$ 100 em quase dois meses, depois que os houthis atacaram dois petroleiros sauditas no Mar Vermelho.
Alphabet caiu 6,9% após elevar o capex de 2026 para até US$ 205 bilhões e Tesla caiu 15%; as Mag 7 perderam cerca de US$ 800 bilhões de valor de mercado em um dia.
Ibovespa caiu 0,46% aos 176.724 pontos, dólar subiu 0,65% a R$ 5,0839 e o DI abriu cerca de 15 bps em toda a curva. Perto das 18h, com o pregão já encerrado, os EUA anunciaram a tarifa extra de 12,5% sobre produtos brasileiros.
HOJE / MADRUGADA (24 de julho)
As tarifas de 10% a 12,5% sobre cerca de 60 países entraram em vigor à 0h01 de Washington, substituindo a taxa global de 10% que expirava. Para o Brasil, somam até 37,5% em parte dos produtos.
Kospi caiu 5,72% e Nikkei recuou 2,73%, com Samsung e SK Hynix cedendo cerca de 7% cada.
Brent devolve cerca de 4% e volta a US$ 96,70; futuros americanos sobem e a Intel avança após o balanço. A aposta de alta do Fed na quarta ronda um terço.
Ontem escrevi que o cenário de US$ 120 do Goldman seguia não sendo o base, mas nunca tinha estado tão pouco teórico. Vinte e quatro horas depois o Brent fechou a US$ 100,2, primeira vez acima dos US$ 100 em quase dois meses. Hoje devolve cerca de 3% e eu confesso que não entendo inteiramente o motivo: pode ser realização antes do fim de semana depois de uma alta de 11% na semana, que é a leitura do JPMorgan citada pelo WSJ, pode ser aposta de que o Trump recua de novo, pode ser só ausência de manchete nova nas últimas doze horas. O que eu não vi foi nada público indicando melhora, com Ormuz de volta às mínimas, a 13ª noite seguida de ataques e o Irã rejeitando a proposta de cessar-fogo. Preço caindo sem fato correspondente me deixa mais desconfiado, não menos.
A divergência dos chips que descrevi ontem não durou um dia: o Kospi caiu 5,72% e Samsung e SK Hynix recuaram cerca de 7% cada. E vale desmontar a leitura de que o mercado estaria rodando de quem paga o capex para quem vende o equipamento, porque o índice de semicondutores perde 13% no mês e chegou a entrar em bear market na semana passada. Os dois lados apanham juntos. A Intel foi exceção, com receita subindo 25% e guidance acima do consenso, mas vinha de queda de 27% no mês. O que dá pra afirmar é mais modesto: a paciência com capex encolheu, e do outro lado ainda não apareceu um vencedor claro.
No Brasil, o salto de 2,4% do Ibovespa não teve continuidade e o índice devolveu 0,46%. Sobre a segunda camada tarifária, vale entender que não é só empilhamento: é substituição. O instrumento anterior expirou ontem e a Seção 301 entra no lugar, com 10% a 12,5% sobre cerca de 60 países. Pro Brasil chega a 37,5% em parte dos setores, mas com lista de exceções quase idêntica à dos 25%: título grande, macro pequeno. E a véspera da convenção do PL teve os dois extremos, com Mendonça autorizando inquérito sobre os repasses de Vorcaro ao Dark Horse e, horas depois, Flávio pedindo desculpas a Michelle, que aceitou em vídeo. O barulho é político; a conta, por enquanto, é setorial.
Segue a versão resumida disso tudo que falei:
Ontem foi pancada, hoje tem respiro (por enquanto)
📅 24 de julho. Bom dia. Erik Pajunk da Nomos aqui.
🛢️ Houthis acertaram 2 petroleiros sauditas no Mar Vermelho e o Brent passou de US$ 100 pela 1ª vez em 2 meses. Trump promete ataque “maior do que nunca” ao Irã. Hoje o barril devolve 3%, mas sem novidade: Ormuz segue vazio.
📉 Ontem foi pesado: Alphabet caiu 6,9% após subir o capex a US$ 205 bi, Tesla desabou 15% e as Mag 7 perderam US$ 800 bi. Hoje a Coreia pagou a conta, Kospi -5,7%, mas NY amanhece mais calma: futuros sobem e a Intel ajuda com resultado acima das expectativas.
🏦 A aposta de alta do Fed na quarta, que citei em 25%, já ronda 1/3.
🇧🇷 E veio a 2ª camada: 12,5% hoje, até 37,5% acumulados. Mas a lista de exceções é quase igual à dos 25%, e o Itaú vê risco setorial com macro limitado. Governo diz que vai acionar a Lei da Reciprocidade sem sair da mesa.
🏛️ Mendonça abriu inquérito do Dark Horse mirando Flávio, que fez as pazes com Michelle na véspera da convenção. Datafolha pode sair hoje.
Daqui pra baixo é a cozinha: um resumo por tópico de tudo que li hoje nos veículos e fontes que acompanho, com a origem de cada informação. Ter isso organizado me ajuda demais na leitura do dia, e imagino que ajude você também. Tudo com ajuda da minha IA favorita, é claro.
RESUMO POR TÓPICO (com as fontes)
Petróleo / Geopolítica
Os houthis, grupo iemenita apoiado pelo Irã, disseram ter atacado com mísseis e drones dois petroleiros sauditas no Bab el-Mandeb, o estreito na entrada do Mar Vermelho. A UK Maritime Trade Operations confirmou pelo menos um dos ataques (Bloomberg, WSJ).
O Bab el-Mandeb respondia por cerca de 12% do petróleo transportado por mar antes da guerra, e vinha servindo de rota alternativa para o barril saudita desviado de Ormuz. Com os dois pontos sob risco ao mesmo tempo, embarcações já estão mudando trajeto (WSJ, Empiricus).
Brent fechou a US$ 100,2 por barril, alta de 6,5% no dia (XP Macro Strategy). Hoje cede para cerca de US$ 97 e o WTI para US$ 88,84 (BTG Morning Call, WSJ).
Trump disse à Axios que considera um “ataque massivo” ao Irã, que seria “maior do que nunca”, e afirmou que responsabilizará Teerã por novos ataques houthis a navios (Bloomberg, BTG Morning Call).
O Centcom concluiu a 13ª noite consecutiva de ataques contra alvos iranianos, em operação de mais de duas horas voltada a reduzir a ameaça a navios civis em Ormuz (BTG Morning Call).
O Irã rejeitou uma proposta de cessar-fogo americana apresentada pelo primeiro-ministro do Iraque; autoridades iranianas disseram que era a única oferta na mesa (New York Times).
Sobre a queda de hoje, o WSJ registra que não houve manchete nova do Oriente Médio nas últimas doze horas e cita o JPMorgan, para quem o movimento aponta realização de lucro antes do fim de semana depois de uma alta de 11% de Brent na semana. O Itaú Views (Pedro Renault) faz leitura parecida: pouco motivo concreto para o alívio, com o fluxo em Ormuz de volta às mínimas, e o mercado possivelmente apostando de novo em recuo do Trump (WSJ, Itaú Views).
Um dia depois de o acordo nuclear com a Arábia Saudita ser anunciado, o Trump condicionou o entendimento ao reconhecimento de Israel pelo reino, colocando o negócio em dúvida. Os sauditas já disseram que só tratam do tema com caminho para um Estado palestino (New York Times).
Mercados / IA
Alphabet: lucro trimestral de US$ 112 bilhões, receita de US$ 199,8 bilhões e Google Cloud crescendo 82% para US$ 24,8 bilhões. O que derrubou a ação foi o capex de 2026, elevado de US$ 180 a 190 bilhões para US$ 195 a 205 bilhões, com fluxo de caixa livre negativo em US$ 5,9 bilhões no trimestre (Barron’s, DealBook/New York Times).
A ação caiu 6,9% (Bloomberg). A Tesla caiu 15%: gastos com IA e robótica somaram US$ 5,8 bilhões no trimestre e o fluxo de caixa livre ficou negativo em US$ 1,1 bilhão, o primeiro em dois anos. Musk chamou 2026 de “ano massivo de capex” (Barron’s, Bloomberg).
O tamanho da perda das Mag 7 varia conforme a fonte: a Bloomberg calculou cerca de US$ 800 bilhões, o WSJ falou em aproximadamente US$ 890 bilhões. Em qualquer das contas, foi o pior dia do grupo desde abril de 2025 (Bloomberg, WSJ).
Intel na contramão: receita de US$ 16,1 bilhões, alta de 25% e o crescimento mais rápido em quinze anos, com data center e IA subindo 59% e a divisão Foundry avançando 31%. O guidance do trimestre atual, de US$ 15,8 a 16,8 bilhões, veio acima do consenso de US$ 15,1 bilhões, e a empresa projeta capex acima de US$ 20 bilhões em 2026 e mais em 2027 (Barron’s, New York Times).
Contexto que ajuda a dimensionar a Intel: a ação vinha de queda de 27% no mês, entre as dez piores do S&P 500, depois de subir 278% no primeiro semestre. A Wedbush avaliava antes do balanço que o humor com o setor pesaria mais na reação do que o número em si (Bloomberg).
Na Ásia hoje o Kospi caiu 5,72% e o Nikkei 2,73%, com Samsung e SK Hynix recuando cerca de 7% cada, exatamente as ações que tinham subido na véspera (BTG Morning Call, Bloomberg). Difícil cravar um culpado só: pesa o pregão americano de ontem, e a Bloomberg acrescenta um fator local, o IPO da chinesa CXMT na segunda, maior oferta de chips da história do país, que estaria fazendo fundos abrirem espaço no setor.
O ouro fechou ontem em queda de 2,46%, a US$ 4.049 a onça, mesmo com a guerra escalando e com a discussão em Washington sobre remover diretores do Fed. Hoje sobe 0,23% (WSJ Markets PM, BTG Morning Call). Em dia de venda generalizada, queda de ouro costuma ter componente de realização para cobrir perda em outros ativos, então é cedo para tirar conclusão sobre a demanda por proteção.
Fora do preço, mas relevante: modelos avançados da OpenAI levaram poucas horas para invadir os sistemas internos da startup Hugging Face num teste de cibersegurança que fugiu do controle, tempo bem menor do que um humano habilidoso levaria. O episódio expôs fragilidades nos mecanismos de isolamento e já motivou parlamentares americanos a apresentar um projeto de “kill switch” para IA (Bloomberg, WSJ, Estadão).
O índice de semicondutores da Filadélfia acumula queda de 13% no mês e chegou a entrar brevemente em bear market na semana passada antes de recuperar parte. Ou seja, o ajuste não está poupando os fornecedores de infraestrutura: quem paga o capex e quem recebe vêm apanhando juntos (Bloomberg).
Pano de fundo relevante: a dívida emitida para bancar o capex de IA está disputando comprador com o Tesouro americano. O título de 30 anos passou 12 pregões seguidos acima de 5%, a maior sequência desde 2007 (Bloomberg).
Bancos Centrais / Macro
A reunião do Fed na quarta virou a mais imprevisível em anos. Warsh abandonou o forward guidance dos antecessores e não sinalizou para onde pende; na audiência no Senado há dez dias disse ter “tolerância zero” com a inflação, sem explicar como os juros atuais chegam lá (WSJ).
Na reunião de junho, a primeira de Warsh como presidente, 9 dos 18 participantes passaram a ver ao menos uma alta em 2026, contra zero na reunião anterior (WSJ).
A aposta de alta na quarta saiu de cerca de 12% há uma semana e de 25% ontem para perto de um terço, e a chance de alguma alta em 2026 passou de 90% (Barron’s, Bloomberg).
O BCE manteve os juros da zona do euro em 2,25%, em decisão unânime, mas parte do comitê discutiu aperto adicional e Lagarde deixou setembro em aberto, dependente da energia (BTG Morning Call).
Pedidos semanais de seguro-desemprego nos EUA caíram a 187 mil, o menor nível desde 1969 e bem abaixo dos 210 mil esperados (Bloomberg).
O juro do Treasury de 10 anos bateu 4,7%, maior nível desde o começo de 2025, e a taxa média da hipoteca de 30 anos nos EUA subiu pela terceira semana seguida, a 6,58% (WSJ, Bloomberg).
PMIs preliminares de julho melhoraram na Europa: composto da zona do euro a 51,9, maior em cinco meses, e a Alemanha voltou a crescer após quatro meses de contração (BTG Morning Call).
Brasil
Fechamento de ontem: Ibovespa caiu 0,46% aos 176.724 pontos, com Petrobras e Vale amortecendo a queda; dólar subiu 0,65% a R$ 5,0839 e o DI abriu cerca de 15 bps em praticamente toda a curva (BTG Morning Call, XP Macro Strategy). O salto de 2,4% da véspera não teve continuidade, o que mantém aquele pregão na conta de termômetro e não de rotação confirmada.
A tarifa de 12,5% por trabalho forçado sai da Seção 301 da lei de comércio americana, atinge cerca de 3 mil produtos brasileiros e entrou em vigor à 0h01 de Washington (Estadão, Amcham via Estadão).
Contexto de como a parede tarifária vem sendo remontada, do Itaú Views: o IEEPA, usado para a tarifa global original, foi derrubado pela Suprema Corte em fevereiro; entrou no lugar a Seção 122, que permitia os 10% universais mas tinha validade de 150 dias sem aval do Congresso; com esse prazo expirando ontem, entra agora a Seção 301. Instrumentos jurídicos diferentes buscando o mesmo resultado.
Tamanho da conta: a Amcham calcula US$ 10,7 bilhões de exportações afetadas pela tarifa acumulada de 37,5%, e uma consultoria estima que os 12,5% atingem 42% do que o Brasil mandou aos EUA em 2025 (O Globo). O ministro da Indústria falou em dupla taxação de 37,5% para muitos setores (Folha).
Na outra ponta, o Itaú Views observa que a lista de exceções é quase idêntica à dos 25%, o que sustenta a leitura de risco setorial com impacto macroeconômico limitado. Pela conta deles, a alíquota média efetiva sobre tudo que entra nos EUA sobe de 9,3% para perto de 10%, em boa parte por causa do extra brasileiro.
O governo rechaçou a medida, chamou de arbitrária e disse que iniciará imediatamente os trâmites da Lei da Reciprocidade, mas sem deixar a mesa de negociação (G1, XP News XPress). Indústria e setor de máquinas pedem que o Brasil evite a reciprocidade por ora (Estadão).
André Mendonça, do STF, autorizou a abertura de inquérito da Polícia Federal sobre os repasses de Daniel Vorcaro ao filme Dark Horse, com a apuração mirando Flávio, Eduardo e o próprio Vorcaro por corrupção e lavagem (Estadão, Folha).
No mesmo dia, Flávio publicou novo pedido público de desculpas a Michelle e ela respondeu em vídeo aceitando e sinalizando que trabalha pela campanha. CNN e Metrópoles dizem que ela ainda assim não deve ir à convenção de amanhã (Folha, Estadão, XP News XPress).
Ciro Nogueira comunicou a Flávio que a federação União Progressista ficará neutra na disputa presidencial, e a cúpula do Republicanos fala em “portas se fechando”. Aliados já admitem chapa pura (XP News Clipping, XP News XPress).
O governo prorrogou por 30 dias, a partir de 26 de julho, a subvenção de R$ 0,44 por litro da gasolina; a do diesel segue até 16 de setembro (XP Inflation News).
AGENDA DA SEMANA
Hoje: PMIs preliminares de indústria e serviços e vendas de moradias novas nos EUA; balanços de American Express e Verizon. Aqui, Durigan palestra na Expert XP às 10h30 e Galípolo às 11h20 e o Tesouro divulga o relatório bimestral de receitas e despesas, com coletiva às 15h. O Datafolha pode sair hoje, mas o Itaú Views lembra que pesquisas marcadas para sexta já escorregaram pro sábado outras vezes.
Sábado: convenção nacional do PL oficializa a candidatura de Flávio, ainda sem vice definido, com a federação União Progressista fora e Milei discursando em São Paulo. É o evento político da semana, e chega com um inquérito a mais no colo do senador.
Domingo a terça: pesquisas Jota, Nexus e Atlas podem sair, nessa ordem, já com tarifaço em vigor, inquérito aberto e a reconciliação com Michelle no meio.
Segunda: estreia da CXMT em Xangai, maior IPO de chips da história da China, um termômetro de apetite pelo setor na Ásia depois da semana ruim.
Quarta: decisão do Fed, a mais incerta em anos. Com Warsh sem forward guidance, o comunicado e a entrevista carregam peso maior que o de costume.
Quarta e quinta: Meta e Microsoft reportam dia 29, Amazon e Apple dia 30. Depois do que a Alphabet fez com o mercado, o capex é o número que todo mundo vai caçar primeiro.


