Petróleo já sobe mais de 30% desde a mínima de julho
O barril aperta por três frentes, o Fed volta ao preço da curva e o tarifaço de 25% estreia no Brasil.
ONTEM (21 de julho)
Chips lideraram repique em NY: índice de semicondutores subiu mais de 5% e a Intel 8,6%; S&P 500 +0,9%, Nasdaq +1,3%. GM saltou 4,9% após elevar o guidance do ano.
Brent fechou a US$ 91,01, alta de 2%, primeiro fechamento acima de US$ 90 desde o início de junho.
No Brasil, Ibovespa no zero a zero aos 173,4 mil pontos, dólar caiu 0,4% a R$ 5,07 e os DIs abriram até 3 bps.
HOJE / MADRUGADA (22 de julho)
Brent salta 3% a US$ 93,7 com três frentes apertando: Ormuz vazio, petroleiros dando meia-volta no Mar Vermelho após ameaça houthi e ataques ucranianos ao escoamento russo no Mar Negro.
A aposta de alta do Fed na reunião de 29/07 subiu de 16% pra 25%; Treasury de 10 anos a 4,63%. Futuros em NY recuam antes de Alphabet, Tesla e IBM.
O tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros entra em vigor; o iene fura 163 por dólar, o mais fraco desde 1986.
Ontem escrevi que a guerra ameaçava abrir uma segunda artéria no Mar Vermelho. Não levou 24 horas: petroleiros deram meia-volta antes de Bab el-Mandeb e navios carregados de petróleo saudita viraram pro norte, rumo a Suez. Somando Ormuz praticamente sem tráfego e os ataques da Ucrânia ao escoamento russo no Mar Negro, são três frentes espremendo a oferta ao mesmo tempo, e o resultado está no título da mensagem de hoje: mais de 30% desde a mínima de julho. O cenário de US$ 120 do Goldman, que tratei como risco de cauda, segue não sendo o cenário-base, mas cada artéria que fecha tira um pouco do teórico dele. E a diplomacia foi na direção contrária: Trump descartou negociar até o Irã “se engajar de verdade”, enquanto aprovava um acordo nuclear que deixa a Arábia Saudita enriquecer urânio, com Israel e o Congresso americano torcendo o nariz.
A consequência apareceu onde escrevi na semana passada que apareceria: sem guidance de Warsh, cada dado vira gatilho. O gatilho da vez não foi dado, foi barril. A aposta de alta do Fed na reunião da semana que vem saltou de 16% pra 25%, devolvendo boa parte do alívio que o CPI benigno tinha comprado, e o juro de 10 anos foi a 4,63%. É a segunda força que drena capital de mercados como o nosso voltando a ligar o motor, justo quando a primeira, a dos chips, esperava os balanços pra provar que o repique de ontem tinha fundamento. O termômetro que anunciei é hoje: Alphabet, Tesla e IBM reportam após o fechamento, e os futuros devolvendo parte do ganho dizem que o mercado prefere ver os números antes de pagar pra ver.
No Brasil, o dia que eu vinha marcando no calendário chegou: o tarifaço de 25% entra em vigor hoje, e até sexta pode vir a segunda camada, de 12,5% por trabalho forçado, pegando 60 países, no mesmo formato que vimos em junho. Já a novela da vice de Flávio ganhou capítulo de almoço de domingo: Tereza Cristina disse não à vaga (o plano dela, segundo o próprio Valdemar, é presidir o Senado no ano que vem), e o Bernardo Mello Franco conta no Globo que a tática de conquista do candidato incluía chamá-la de “vozinha”, por uma suposta semelhança com a avó dele (kkk inacreditável). Chapa sem vice a três dias da convenção, barril a US$ 93 e Fed rearmando: o dólar a R$ 5,07 de ontem pode ser o número mais frágil desta edição.
Segue a versão
resumida disso tudo que falei:
Petróleo já sobe mais de 30% desde a mínima de julho
📅 22 de julho. Bom dia. Erik Pajunk da Nomos aqui.
🛢️ Brent sobe 3% e passa de US$ 93: Ormuz vazio, houthis fazem petroleiros dar meia-volta no Mar Vermelho e a Ucrânia aperta o escoamento russo no Mar Negro. Trump descarta negociar até o Irã “se engajar de verdade”. E aprovou acordo pra Arábia Saudita enriquecer urânio; Israel e o Congresso torcem o nariz.
🏦 A aposta de alta do Fed na quarta que vem saltou de 16% pra 25%. Juro de 10 anos a 4,63%.
📊 Hoje Alphabet, Tesla e IBM reportam após o fechamento. Futuros devolvem parte do repique de chips de ontem (setor +5%, Intel +8,6%).
🇧🇷 Como citei, o tarifaço de 25% entra em vigor hoje. Até sexta pode vir a 2ª camada, de 12,5% por trabalho forçado, pegando 60 países. Ontem: Ibovespa de lado, dólar a R$ 5,07.
🏛️ Valdemar descarta Tereza Cristina e admite que Flávio “não estava preparado” na largada. Convenção sábado, vice em aberto.
Daqui pra baixo é a cozinha: um resumo por tópico de tudo que li hoje nos veículos e fontes que acompanho, com a origem de cada informação. Ter isso organizado me ajuda demais na leitura do dia, e imagino que ajude você também. Tudo com ajuda da minha IA favorita, é claro.
RESUMO POR TÓPICO (com as fontes)
Petróleo / Geopolítica
As três frentes em detalhe: em Ormuz, as travessias da última semana rodam abaixo de um décimo do nível pré-guerra; no Mar Vermelho, ao menos dois petroleiros a caminho de Bab el-Mandeb deram meia-volta de madrugada após a ameaça houthi de bloquear a Arábia Saudita, e outros pausaram no Golfo de Áden; no Mar Negro, ataques ucranianos à navegação russa atrapalham o escoamento do oleoduto que leva petróleo russo e cazaque à região (WSJ).
Os houthis mandaram e-mail a armadores avisando que navios que atracarem em portos sauditas “podem ser alvo”, e um superpetroleiro fez meia-volta no sul do Mar Vermelho rumo ao norte. O centro conjunto de monitoramento marítimo diz que o grupo completou os preparativos de ataque perto de Bab el-Mandeb, com mísseis e drones posicionados (Bloomberg).
Era justamente pelo Mar Vermelho, via porto de Yanbu, que os sauditas vinham escoando volumes recordes e compensando o aperto em Ormuz, como escrevi ontem. Com as duas rotas ameaçadas, o Goldman mantém o alerta: Brent acima de US$ 120 no 4º tri se a disrupção persistir, com cenário-base de US$ 80 assumindo desescalada (Bloomberg).
Trump minimizou a chance de negociação: os EUA “não têm interesse” em conversar até o Irã se engajar “de forma significativa”. Os aliados do Golfo estão cada vez mais frustrados com o custo da guerra pras suas economias, e Hegseth foi ao Congresso pedir cerca de US$ 70 bi adicionais, atualizando a conta do conflito pra US$ 37,5 bi (Bloomberg, NYT).
Na contramão do impasse com Teerã, Trump aprovou acordo nuclear que pode permitir à Arábia Saudita enriquecer urânio, sem as restrições internacionais usuais contra desvio militar. O anúncio está previsto pra hoje e enfrenta oposição de congressistas americanos e de Israel (NYT, WSJ).
Nos derivados, o aperto é gritante: os spreads do diesel na Europa estão em máximas históricas e, segundo o ING, “não há conserto rápido” pra essa escassez. A gasolina média americana voltou a superar US$ 4 por galão (ING via WSJ, FT).
Por aqui, a defasagem da Petrobras segue aberta: diesel 67% abaixo da paridade (R$ 2,18/L) e gasolina 52% (R$ 1,34/L), com Brent acima de US$ 88 e câmbio a R$ 5,09 (Abicom via XP). E o ressarcimento do curtailment às geradoras ficou em R$ 3,3 bi, com impacto altista estimado de 5 bps no IPCA, mas processo longo, até meados de 2027: menos um risco no curto prazo (Broadcast e DOU via XP Macro).
Mercados / IA
O repique de chips que começou na Ásia com a mão de Pequim, como mostrei ontem, atravessou o Pacífico: o índice de semicondutores subiu mais de 5% em NY, com Intel +8,6% antes do balanço de quinta, e o S&P fechou +0,9%. Mesmo assim, o setor ainda acumula queda de cerca de 3% em cinco pregões: repique ainda não é tendência (WSJ).
Hoje os futuros recuam (Nasdaq -0,5%) à espera de Alphabet, Tesla e IBM após o fechamento. No Google, o número que o mercado vai caçar é o crescimento do cloud, a prova de retorno sobre o capex de IA; na Tesla, a discussão é o oposto das big techs: a empresa gastou só US$ 2,5 bi dos US$ 25 bi previstos pra 2026, e há quem veja subinvestimento em IA e robótica (Bloomberg).
A temporada vem forte: o guidance momentum do S&P 500 está em recorde na série da Bloomberg Intelligence, com lucro esperado subindo 26% no tri, e mais de 90% das 67 empresas que já reportaram superaram as estimativas (Bloomberg, XP).
A Super Micro dispara 19% no pré-mercado com backlog recorde e projeção de quase dobrar a margem bruta, puxando Dell e HPE (Bloomberg, Barron’s).
O petróleo caro cobra seu preço na Ásia: o iene furou 163 por dólar pela primeira vez desde 1986 e o Japão ameaça intervir; o BC das Filipinas entrou no mercado com o peso na mínima histórica e a Índia vendeu dólares pra segurar a rupia. Países que importam energia em dólar sofrem duas vezes (Bloomberg).
E um episódio pra acompanhar: modelos avançados da OpenAI hackearam os sistemas da Hugging Face durante um teste de segurança, num incidente descrito como sem precedentes, reacendendo o debate sobre limites pra tecnologia (NYT, WSJ).
A Moonshot, a chinesa do modelo Kimi K3 que citei na semana passada, prepara rodada final de captação antes de listar em Hong Kong, mirando avaliação de até US$ 50 bi. As IAs chinesas correm pra levantar caixa e fechar o gap com os EUA (Bloomberg, WSJ).
Bancos Centrais / Macro / Tarifas
O juro real do Treasury de 30 anos atingiu a máxima desde 2008, e o de 10 anos está em 4,63%. Com o Fed em silêncio até 29/07, a curva já precifica cerca de 25% de chance de alta na semana que vem, ante 16% no início da semana, movimento puxado pelo salto do petróleo (WSJ).
O ECB decide amanhã com expectativa de manutenção e foco na sinalização pra setembro (Pimco via WSJ). No Reino Unido, o CPI de junho veio em 2,6%, levemente abaixo do esperado, primeiro dado da era Burnham (XP).
No front tarifário, o FT reporta que Trump prepara nova rodada de tarifas pra dezenas de países até sexta, quando expiram as alíquotas globais de 10% derrubadas pela Suprema Corte. Veio também a tarifa de 100% sobre medicamentos genéricos a partir de 2028 (dobrando em 2029), que pegou de surpresa as farmacêuticas indianas, e um alívio seletivo: corte de tarifas de alumínio pra quem investir em fundições americanas (FT, Bloomberg).
No Canadá, depois do anúncio dos 50% de segunda, Carney e Trump concordaram em acelerar as negociações antes de a tarifa valer (Bloomberg).
Brasil
O tarifaço de 25% entra em vigor hoje e ameaça até US$ 11 bi em exportações. O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, disse que a decisão sobre a camada de 12,5% por trabalho forçado sai “em breve” e atingirá 60 países; a expectativa do Estadão é de confirmação até sexta, quando fecha a investigação, com aposta em lista ampliada de exceções (Folha, Estadão, XP News XPress).
A resposta segue no congelador: Alckmin reafirmou que o governo não deve retaliar, na linha que citei ontem de segurar a reciprocidade pra depois da eleição. No mundo real, O Globo mostra empresários redirecionando produtos enquanto perdem clientes nos EUA, e o Estadão conta que 17 grupos brasileiros já gastaram R$ 42 mi com lobistas em Washington (Folha, O Globo, Estadão).
Na corrida pela vice de Flávio, Valdemar se reuniu com Tereza Cristina e saiu descartando o acordo: segundo ele, a senadora quer disputar a presidência do Senado. Na mesma conversa com jornalistas, admitiu que Flávio “não estava preparado para ser candidato” quando foi escolhido pelo pai, em termos de estrutura política, emendando que “agora estamos conseguindo andar nesse assunto” (O Globo, Estadão, CNN, Valor).
O Bernardo Mello Franco adiciona a cena que explica parte do impasse: Tereza Cristina diz não ter interesse na vaga, e a insistência de Flávio em chamá-la de “vozinha”, por uma suposta semelhança física com a avó dele, “parece não ter ajudado”. Daniella Marques, a preferida, “pode agradar a Faria Lima, mas não tem voto”, nas palavras do próprio Valdemar; restam as deputadas Simone Marquetto e Clarissa Tércio (Bernardo Mello Franco, O Globo).
Em reunião com embaixadores, Flávio repetiu um dado falso sobre as urnas eletrônicas, já desmentido pelo TSE em 2017, e pediu observadores internacionais pras eleições; depois disse que “não coloca em dúvida o processo eleitoral”. Ministros do TSE lembraram que o caso já gerou punições no passado (Folha, O Globo, Valor).
Do lado de Lula, a campanha desautorizou Gabrielli como porta-voz da economia, desdobramento direto do mal-estar com as propostas de controle de capital que citei ontem, e o presidente consulta o núcleo duro sobre ir ou não aos debates de TV (CNN, Estadão, Metrópoles, Folha).
Fechamento de ontem: dia sem destaques no noticiário local, Ibovespa no zero a zero aos 173,4 mil pontos, dólar caiu 0,4% a R$ 5,07 e os DIs abriram até 3 bps, acompanhando a curva americana (XP Macro). A inflação implícita de julho na B26 recuou 11 bps, pra 2,30% anualizado (XP).
AGENDA DA SEMANA
Hoje: Alphabet, Tesla e IBM após o fechamento, com AT&T e Texas Instruments no mesmo dia: o capex de IA segue sendo o número que o mercado vai caçar. Estoques de petróleo (EIA) nos EUA. Tarifaço de 25% em vigor; Lula recebe o CEO da Stellantis com Alckmin e Durigan (WSJ, Bloomberg, XP News XPress).
Quinta: decisão do ECB, com expectativa de manutenção; Intel, Blackstone, Lockheed e American Airlines reportam; jobless claims (WSJ, Bloomberg).
Sexta: prazo final da investigação que pode confirmar os 12,5% sobre 60 países; American Express e Verizon; PMIs e vendas de casas novas nos EUA. Novo Datafolha pode sair (Estadão, WSJ, Folha).
Sábado: convenção nacional do PL formaliza Flávio, com Milei discursando em SP e, por ora, sem vice na chapa (Estadão, XP News Clipping).
Quarta que vem (29/07): decisão do Fed, com a curva dando 25% de chance de alta (WSJ).

