Quando o mundo descobre que não é só petróleo
Há algo de revelador perceber que um conflito no oriente-médio moderno se manifesta como uma conta de luz mais cara, um voo cancelado ou fila maior no hospital.
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Existe um gás invisível e inofensivo que enche balões de aniversário e faz a voz de adultos soar como desenho animado.
Esse mesmo gás abastece scanners de ressonância magnética que detectam tumores assim como boa parte da infraestrutura invisível da vida moderna.
Um terço de todo o hélio do planeta vem do Catar e é um subproduto do refino de gás natural no terminal de Ras Laffan, o maior do mundo. Quando os drones iranianos puseram Ras Laffan fora de operação, ninguém nos telejornais falou do hélio. Falaram de petróleo, de gás, de mísseis. Mas o hélio sumiu. E com ele, uma pequena e reveladora amostra de como o oriente-médio moderno vai além do petróleo.

A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã não começou como guerras normalmente começam, com uma declaração formal. Foi em meio a negociações avançadas. Pela segunda vez, aliás. O Irã e EUA estavam à mesa, quando os ataques se iniciaram. O mercado encerrou a sexta-feira pré-guerra bem hedgeado. Talvez por isso, a reação na segunda-feira seguinte não tenha sido tão intensa. Mas investidores ficaram inebriados com a resolução rápida dos últimos conflitos.
Mercado errou o timing da guerra
O mercado entrou na guerra acreditando numa operação cirúrgica e rápida: eliminar a liderança iraniana, forçar uma acomodação ao estilo Venezuela, sair de cena. Mas o Irã escolheu um campo de batalha inesperado. Em vez de responder com mísseis de longo alcance (que Israel já havia destruído em junho), usou seu arsenal de drones e mísseis de curto alcance contra os vizinhos árabes do Golfo, exatamente os países que garantem o funcionamento energético do planeta.
E é aqui que a história econômica se torna mais perturbadora do que a militar.
O Estreito de Ormuz, essa faixa de água pela qual passa cerca de 20% do petróleo global está, para efeitos práticos, fechado.
Nenhuma seguradora aceita cobrir um navio que tente cruzá-lo. Os gráficos de tráfego de petroleiros mostram uma queda abrupta, quase vertical. Os economistas vinham construindo esse cenário catastrófico havia décadas, como uma espécie de pesadelo teórico: o que aconteceria se o Estreito de Ormuz fosse bloqueado? Pois agora eles têm a resposta, e ela é pior do que muitos imaginavam, não pelo petróleo em si, mas por tudo aquilo que ninguém lembrava que dependia do Golfo.
O petróleo subiu 15%. Ruim, mas administrável, porque os estoques globais estavam altos.
O gás, porém, subiu 70%, chegou a dobrar em certo momento, porque a armazenagem é complexa.
O querosene de aviação disparou 52%. Fertilizantes, 30%.
De fertilizante a logística
E então começam as surpresas: ácido sulfúrico (um quarto da produção mundial vem do Golfo, e sem ele não se refina cobre nem se fabricam explosivos), hélio, e toda a cadeia logística que passava por Jebel Ali, um dos maiores portos de contêineres do mundo, ali na porta de Dubai, que aliás, não tenha nenhum lugar do planeta que ilustre melhor a fragilidade que a prosperidade pode esconder.
O aeroporto de Dubai, que ultrapassou Heathrow em Londres e se tornou o maior do mundo, está parado.
A cidade que se reinventou como hub global de turismo e finanças depende de uma população composta por mais de 80% de imigrantes, em grande parte indianos, como eu constatei mês passado em que estive lá.
O que acontece quando esses imigrantes decidem ir embora?
E quando a água que abastece Riade na Arabia Saudita de sete, oito milhões de habitantes, vem de usinas de dessalinização que podem ser alvejadas por drones? Mohammed bin Salman sabia disso.
Segundo relatos, o príncipe herdeiro ligou várias vezes para Trump pedindo que não atacasse o Irã. Não por amor ao país persa, mas por pragmatismo: o Irã é vizinho, o caos lá transborda para cá, e os mísseis de curto alcance transformam a Vision 2030, seu grandioso plano de modernização saudita, em fumaça.
O novo Irã
Os especialistas em oriente-médio apostam que o regime iraniano sobrevive. “É um regime duro, que ainda tem pelo menos 20% da população ao seu lado e está disposto a matar para permanecer no poder.”
Há três cenários possíveis: a teocracia se endurece e se radicaliza; uma liderança mais nacionalista e menos revolucionária negocia com Washington (o modelo Venezuela); ou o Estado colapsa, e um país de 92 milhões de habitantes, com múltiplas etnias e fronteiras porosas, se transforma numa Líbia gigante. Dos três, o último é o que mais aterroriza.
Enquanto isso, o mundo descobre que sua dependência do Golfo Pérsico vai muito além da gasolina. Vai até o scanner de ressonância que detecta o câncer. Até o fertilizante que alimenta a lavoura. Até o voo que conecta São Paulo a Bangcoc.
Há algo de revelador em perceber que um conflito entre potências nucleares e teocracias milenares se manifesta como uma conta de luz mais cara, um voo cancelado ou fila maior no hospital. Os balões de aniversário vão ficar mais caros. Mas não é por eles que a gente deveria se preocupar.




