Sabesp aposta em sinergia hídrica e energética com compra da EMAE, mas enfrenta desafios de integração
Para João Tonello, a aquisição da EMAE pela Sabesp amplia a segurança hídrica e diversifica as receitas da companhia, mas exige cautela diante dos desafios de integração e do valuation elevado
A Sabesp anunciou a compra de 70% do capital da Empresa Metropolitana de Água e Energia (EMAE) por R$ 1,13 bilhão, em uma transação que marca um movimento estratégico de diversificação de portfólio e fortalecimento operacional na Região Metropolitana de São Paulo. O acordo foi firmado no último sábado (4), mas ainda depende de aprovação da Aneel e do Cade para ser concluído.
A operação envolve duas etapas: a aquisição das ações ordinárias antes detidas pelo fundo Phoenix, de Nelson Tanure, e a compra da maior parte das preferenciais, que pertenciam à Eletrobras. Caso receba o aval regulatório, a Sabesp passará a controlar 70,1% da EMAE, empresa que opera sistemas de geração de energia e gestão de recursos hídricos interligados às represas Guarapiranga e Billings, infraestrutura considerada estratégica para a segurança hídrica da capital.
Contudo, a transação promete gerar disputas judiciais, já que o negócio foi negociado pela Sabesp diretamente com um credor do Phoenix, que detinha os papéis em garantia de uma emissão de debêntures no valor de R$ 520 milhões, administrada pela XP e com a Vórtx como agente fiduciário.
Sinergia e diversificação: os pontos fortes do acordo
Segundo João Tonello, analista pleno da NMS Research, a aquisição abre caminho para uma integração sem precedentes entre os sistemas Guarapiranga e Billings, reforçando a segurança hídrica da Grande São Paulo e, ao mesmo tempo, adicionando uma nova fonte de receitas à estatal.
“A união dos sistemas amplia a flexibilidade de gestão dos recursos hídricos na região metropolitana e traz um portfólio energético com receitas de longo prazo indexadas à inflação, o que contribui para estabilidade de caixa e geração sustentável de valor”, explica Tonello.
Além das sinergias operacionais, o analista destaca o posicionamento estratégico que a transação confere à Sabesp, consolidando sua presença institucional em infraestrutura de água e energia no Estado de São Paulo.
“Controlar a EMAE coloca a companhia em uma posição de escala regional, combinando relevância institucional e capacidade técnica para atuar em duas frentes essenciais para o desenvolvimento paulista”, afirma.
Riscos e desafios de integração
Apesar das oportunidades, Tonello pondera que o negócio não é isento de riscos. O desembolso de R$ 1,13 bilhão representa um valuation exigente, especialmente em um cenário de incertezas sobre o ritmo de geração de retorno.
“O preço pago exige uma execução eficiente para que o valor se converta em ganhos operacionais concretos. A integração das operações hídricas e energéticas também pode trazer desafios técnicos e culturais, além de custos adicionais com prazos incertos”, analisa o especialista.
Entre os principais pontos de atenção estão a complexidade técnica da integração, as adaptações normativas necessárias para operar em dois setores distintos e as diferenças de cultura corporativa entre as equipes da Sabesp e da EMAE.
Com o negócio, a Sabesp busca fortalecer seu posicionamento estratégico em meio ao debate sobre a privatização e a necessidade de garantir segurança hídrica e energética de longo prazo para o Estado. O movimento amplia a diversificação de receitas e reforça a presença da estatal em infraestrutura crítica, mas impõe uma nova rodada de desafios na execução e na gestão de integração.
Caso consiga capturar as sinergias prometidas, a aquisição pode se tornar um marco na transição da Sabesp para um modelo mais robusto e multifacetado, combinando eficiência operacional, estabilidade financeira e expansão sustentável.

