Super El Niño vai secar seus lucros
Ganhadores e perdedores do fenômeno climático
A possibilidade de ocorrência de um episódio de El Niño de forte intensidade a partir do segundo semestre de 2026 deixou de ser apenas uma preocupação meteorológica e passou a integrar oficialmente o conjunto de riscos monitorados por analistas de mercado e pelo Banco Central.
O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, possui potencial para alterar severamente o regime de chuvas no país. O tema é tão relevante para a economia que a autoridade monetária incluiu perguntas preventivas sobre seus reflexos no Questionário Pré-Copom de junho. O objetivo do BC é mapear os canais de transmissão de eventuais choques climáticos sobre o IPCA e, consequentemente, sobre a trajetória da taxa Selic, atualmente mantida em 14,50% ao ano.
Embora a magnitude do evento ainda dependa da evolução das temperaturas oceânicas nos próximos meses, relatórios temáticos divulgados por grandes casas como a XP e o Citi começam a projetar cenários para o bolso do investidor. Caso modelos climáticos globais confirmem um evento severo nos moldes de anos históricos como 1982-83, 1997-98 e 2015-16, o impacto pode pesar no PIB, já que o agronegócio e suas cadeias representam entre 22% a 24% da atividade econômica nacional.
Entenda o impacto no crédito e nas produtoras
O principal canal de atenção imediata dos investidores reside na carteira agropecuária dos grandes bancos. Analistas apontam o Banco do Brasil (BBAS3) como uma das instituições financeiras com maior sensibilidade ao tema por possuir a maior carteira de crédito ao agronegócio do país e já registrar avanço recente na inadimplência rural.
Um agravamento do clima poderia exigir um aumento preventivo nas provisões contra devedores duvidosos, postergando a recuperação do papel na Bolsa. Bancos como ABC Brasil (ABCB4) e Banrisul (BRSR6) também são citados entre os mais expostos a essa dinâmica de crédito.
Nas companhias abertas do agro, o impacto promete ser misto:
SLC Agrícola (SLCE3) e BrasilAgro (AGRO3): Enfrentam maior exposição negativa devido à volatilidade de produtividade gerada pelo risco de temperaturas elevadas e estiagem no Norte e Nordeste.
3Tentos (TTEN3): Fortemente exposta ao Rio Grande do Sul, a companhia exige cautela. Embora o aumento de precipitação no Sul possa inicialmente sustentar a produtividade de soja e milho, o risco de excesso severo de chuvas e enchentes costuma trazer sérios desafios operacionais e logísticos.
Proteínas Animais (JBS, BRF e Marfrig): A quebra de grãos impacta diretamente o custo de ração de aves e suínos. Nesse cenário, analistas apontam a JBS (JBSS3) como uma opção mais defensiva, visto que sua forte presença internacional ajuda a mitigar as pressões de custos operacionais no mercado brasileiro.
A conta de luz vai subir com o El Niño?
No setor elétrico, o impacto não é homogêneo. Como a maior parte dos reservatórios do Sistema Interligado Nacional (SIN) está concentrada no Sudeste e Centro-Oeste, onde os efeitos do El Niño tendem a ser mistos, o comportamento do preço da energia dependerá da distribuição espacial das chuvas.
Se a recuperação das principais bacias for prejudicada pela estiagem nas regiões vizinhas, haverá necessidade de acionamento preventivo de usinas termelétricas. Esse movimento tende a acionar bandeiras tarifárias mais altas a partir de 2027, impactando diretamente o IPCA via conta de luz.
Para o comércio, o relatório temático da XP destaca que o varejo sentirá os reflexos por meio de três vetores: a inflação alimentar de curto prazo (itens como arroz, feijão, milho e hortaliças), variações atípicas de temperatura e o potencial aumento de doenças arbovirais (doenças infecciosas causadas por mosquitos e alguns carrapatos).

Como proteger sua carteira?
Analistas apontam que empresas de infraestrutura e serviços logísticos integrados podem atuar de forma blindada e independente do desempenho das commodities agrícolas.
É o caso da JSL (JSLG3), que se beneficia diretamente da necessidade de flexibilização e diversificação de rotas de transporte de carga em períodos de intempéries. Outro destaque defensivo é a Mills (MILS3): as frotas de locação de equipamentos pesados da companhia costumam registrar demanda muito resiliente para obras de manutenção viária e reconstrução de infraestrutura em regiões afetadas por excessos climáticos.
Além disso, a equipe de análise da XP pondera que o Assaí (ASAI3) pode apresentar tendências marginalmente positivas em suas vendas sob o conceito de “mesmas lojas” (Same Store Sales - SSS) devido ao repasse dessa inflação alimentar. No vestuário, a Lojas Renner (LREN3) é citada como a principal escolha pela capacidade técnica de adequar seus estoques à dinâmica do clima.
De olho nos gráficos
Jalles Machado (JALL3)
De acordo com o analista técnico da NMS Research, Filipe Borges, a ação trabalha em forte tendência de baixa nos tempos gráficos diário, semanal e mensal. Negociada em suas mínimas históricas na faixa dos R$ 2,22, a movimentação gráfica projeta espaço para mais quedas, com próximo alvo estipulado na região dos R$ 0,70 — o que representa um tombo esperado de cerca de 72% para os próximos meses.
MILLS (MILS3)
Já para Mills, o papel confirmou um belo rompimento técnico na faixa dos R$ 15,30, abrindo espaço livre para buscar a região dos R$ 19,70. Trata-se de um upside projetado de aproximadamente 30% para os próximos meses.
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