VALE (VALE3) tem produção forte, mas surpreende com crise no conselho de administração
Troca na presidência do conselho e demissão de conselheiro por vazamento marcam semana movimentada para a mineradora.
Em um intervalo de 24 horas, a mineradora divulgou um relatório de produção acima das expectativas do mercado, viu a Assembleia Geral Extraordinária eleger um novo presidente do Conselho de Administração em uma disputa acirrada e, no dia seguinte, anunciou a destituição do conselheiro derrotado por vazamento de informações confidenciais.
Produção do 2T26 supera expectativas
O gatilho inicial foi o relatório de produção e vendas do segundo trimestre, divulgado na noite de terça-feira (21/07). A Vale produziu 84,3 milhões de toneladas de minério de ferro, alta de 0,8% frente ao mesmo período de 2025 e de 20,9% na comparação com o primeiro trimestre, o melhor volume para um segundo trimestre desde 2018, puxado por recorde no projeto S11D (Sistema Norte) e por contribuições adicionais de Capanema e VGR1 (Sistema Sudeste). Os embarques somaram 79,7 milhões de toneladas, 3,1% acima do mesmo período do ano passado.
Do lado dos preços, os finos foram vendidos a US$ 95 por tonelada em média, e as pelotas a US$ 137 por tonelada — cerca de 4% a 4,5% acima do que bancos como BTG Pactual e BofA projetavam, em meio a prêmios trimestrais mais fortes. O prêmio de qualidade “all-in” recuou para US$ 4,4 por tonelada, refletindo maior participação de minério de teor médio no mix do Sistema Norte.
O ponto fraco ficou por conta das pelotas: a produção caiu 7% na comparação anual, efeito da paralisação das operações de pelotização em Omã, provocada por restrições logísticas ligadas a conflitos no Oriente Médio. As operações foram retomadas apenas parcialmente no fim de junho.
Já os metais básicos foram o destaque positivo do trimestre. O cobre teve preço realizado de US$ 14.062 por tonelada, salto de 56,5% em um ano, beneficiado por preços melhores na London Metal Exchange, menores descontos em taxas de tratamento e refino e liquidações favoráveis de faturas com precificação provisória.
Repercussão entre as casas de análise:
BTG Pactual classificou o trimestre como de “execução sólida” após um primeiro trimestre sazonalmente mais fraco, com destaque para cobre e para surpresas positivas de preço — mas alertou que, diante do impacto da guerra do Irã sobre os resultados, o mercado deve manter o foco em custos e em eventuais atualizações de guidance, temas não endereçados nesta divulgação.
XP viu os números como “ligeiramente positivos” e revisou a projeção de Ebitda ajustado do trimestre para cerca de US$ 3,9 bilhões, ante US$ 3,7 bilhões antes — alta de até 5%, puxada por volumes de minério, pelotas e níquel acima do esperado e preços realizados mais altos de cobre e níquel.
Itaú BBA elevou sua estimativa de Ebitda pro forma para cerca de US$ 3,83 bilhões, alta de 5,5% ante a projeção anterior de US$ 3,63 bilhões.
BofA reiterou recomendação de compra e manteve preço-alvo de US$ 18 para o ADR — potencial de alta de 26,3% ante o último fechamento — chamando o relatório de “muito robusto”. Com base em análise de sensibilidade sobre volumes e preços, o banco estima que o Ebitda do trimestre pode chegar a US$ 4,1 bilhões, acima da própria projeção anterior de US$ 3,9 bilhões, embora ressalte que o desempenho de custos ainda será uma variável determinante.
BB Investimentos também avaliou o desempenho operacional como consistente, com avanços em produção e vendas em todos os segmentos na comparação anual, apesar da queda nas pelotas.
Disputa pelo conselho termina com vitória de Ollie
Enquanto o mercado ainda digeria os números operacionais, a Vale confirmou em comunicado à CVM o resultado da Assembleia Geral Extraordinária: Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, o “Ollie”, conselheiro independente apoiado pela Previ, foi eleito o novo presidente do Conselho de Administração, com 1.977.262.848 votos. Marcelo Gasparino da Silva, até então vice-presidente do colegiado, disputou o cargo e obteve 1.065.493.489 votos.
Também foi eleita para o conselho a executiva Ieda Gomes Yell, com 2.400.170.665 votos, superando José Maurício Pereira Coelho, que teve 628.533.132 votos.
A combinação de trimestre operacional forte com a definição da disputa pelo comando do conselho acelerou os ganhos das ações ao longo do pregão de quarta-feira (22/07). No after market da B3, Vale ON foi o papel mais negociado do dia, com volume financeiro de R$ 22,140 milhões, à frente de ativos como o ETF BOVA11 (R$ 10,224 milhões) e Petrobras PN (R$ 4,661 milhões), em um pregão noturno que somou R$ 83,376 milhões em giro total.

Gasparino é destituído por vazamento de informações
O desfecho da novela de governança veio na própria noite da quarta-feira (22), quando a Vale informou que seu Conselho de Administração decidiu destituir Marcelo Gasparino da Silva após uma investigação independente concluir que houve vazamento de informações confidenciais relativas à reunião do colegiado realizada em 19 de junho. A apuração foi conduzida por um escritório externo contratado por decisão do próprio conselho e confirmou o vazamento, enquadrado como violação à Política de Gestão de Desvios de Conduta da companhia. A decisão seguiu recomendações do Comitê de Auditoria e Riscos e da Diretoria de Auditoria e Conformidade. A companhia afirmou que manterá o mercado informado sobre novos desdobramentos.
O episódio fecha, em menos de 48 horas, um ciclo que junta resultado operacional acima do esperado, definição de uma disputa de poder no conselho e a saída do conselheiro derrotado por quebra de conduta, um conjunto de notícias que ajuda a explicar tanto o salto do papel quanto o volume elevado de negociação no período.
O que diz a análise técnica e fundamentalista
Antes desse conjunto de notícias,João Tonello, analista CNPI da NMS Research, já classificava VALE3 como um ativo misto: bons fundamentos operacionais, mas sem sinal de aceleração de preço no curto prazo.
No gráfico, o papel carregava uma estrutura de duplo topo (picos em R$ 87,85 e um pouco abaixo disso), com a região entre R$ 71,42 e R$ 74,62 apontada como a zona de decisão mais importante do curto e médio prazo. Um fechamento sustentado acima de R$ 74,62 com volume crescente abriria caminho para R$ 79,15; já a perda de R$ 71,42 projetaria o papel para R$ 67,66 e R$ 65,32.
Nos fundamentos, o especialista já destacava o lucro líquido em alta de 36% no 1T26, volume recorde de minério vendido e crescimento nas vendas de cobre (+11,4%) e níquel (+15,2%), mas ponderava que o valuation já embutia um minério a cerca de US$ 114 a tonelada, prêmio de 16% sobre o spot, o que limitava o upside adicional.
O principal catalisador apontado era justamente um dividendo extraordinário no segundo semestre, com FCF yield estimado em 11% - tese reforçada, à época, por Itaú BBA e Bradesco BBI. Do lado negativo, pesavam a fraqueza do minério de ferro na China, a desaceleração estrutural chinesa e um câmbio desfavorável no curto prazo.
A recomendação final de manutenção para quem já tem posição, com foco no carrego do dividendo extraordinário esperado para o 2S26, e de cautela para novas entradas, aguardando confirmação técnica de sustentação acima de R$ 74,62 com volume, ou uma deterioração adicional que abrisse um ponto de entrada mais assimétrico na faixa entre R$ 67 e R$ 70.


