Warsh segurou o juro e o mercado apertou sozinho. Quem manda agora, o Fed ou a curva?
O Fed manteve com três dissensos, o juro de 30 anos foi à máxima desde 2007 e o Ibovespa já devolveu o presente do IPCA-15.
ONTEM (29 de julho)
Fed manteve os juros em 3,50%-3,75% por 9 a 3; Hammack, Logan e Kashkari votaram por alta de 0,25 pp, três dissensos na mesma direção pela primeira vez desde 2016; o Treasury de 30 anos fechou em 5,21%, maior nível desde 2007.
Dow caiu 2,19% (1.153 pontos), pior dia desde abril de 2025; S&P -1,52% e Nasdaq -1,74%, em correção; Brent saltou quase 8% a US$ 90,8 após o ataque do Irã e a promessa de retaliação de Trump.
No Brasil, o Caged criou 145,1 mil vagas formais em junho, acima do consenso de 115 mil; o Ibovespa caiu 1,52%, a 173,9 mil pontos, e o dólar fechou a R$ 5,12.
HOJE / MADRUGADA (30 de julho)
Após o fechamento, Microsoft subiu cerca de 8% no after com a nuvem crescendo 43%, e Meta caiu cerca de 9% com guidance fraco; futuros de NY abrem a manhã em leve alta.
EUA fizeram ataques de retaliação contra o Irã e dois navios pegaram fogo em porto do Egito; Brent devolve pra US$ 87,6 e o juro americano de 30 anos segue subindo, a 5,23%.
Agenda: PCE de junho e PIB do 2T nos EUA, Apple e Amazon após o fechamento; BoE decide pela manhã e BoJ à noite.
Escrevi ontem: se Warsh segurasse, era pra contar dissensos. Segurou, a conta deu três (placar que não se via desde 2016), e ele fez exatamente o que prometeu: nada de guidance, comunicado idêntico ao de junho. Foi além: assumiu que jogou o trabalho pro mercado, dizendo que a curva já tinha feito parte do aperto e que os investidores estão “jogando a bola, não o juiz”. O que ele quis dizer nessa metáfora traduzida ao pé da letra: precificando a economia (bola), em vez de ficar tentando adivinhar o Fed (juíz). O mercado respondeu jogando contra: juro de 30 anos na máxima desde 2007, Dow no pior dia desde abril, o que o Bank of America, citado pelo Timiraos no WSJ, chamou de choque de credibilidade. A minha leitura é que o réu principal não estava na sala do Fed: estava no Golfo. Se a guerra não tivesse voltado a escalar nas últimas semanas, culminando na trégua enterrada na véspera e no Brent de volta aos US$ 90, duvido que o mesmo silêncio assustasse tanto: o próprio Timiraos nota que parte da alta dos yields veio de expectativa de inflação com o petróleo. Silêncio só vira problema quando tem barulho lá fora.

Na prova de fogo de IA que anunciei na segunda, os dois primeiros balanços contaram filmes opostos. A Microsoft subiu 8% com a nuvem crescendo 43%, e o mercado celebrou um corte de capex que, olhando a letra miúda da Bloomberg, é mais contabilidade do que freio: a empresa esticou a vida útil dos data centers em 10 anos e a própria CFO disse que os planos de investimento de 2026 seguem inalterados. A Meta caiu 9% entregando o menor caixa livre desde 2022 e uma conta de até US$ 145 bi. A mensagem que fica não é “gastar menos”: é que o mercado só paga o capex de quem mostra receita junto. Hoje tem Apple e Amazon.
E o Brasil viveu a versão local desse aperto. O Ibovespa caiu 1,5% e devolveu num único pregão tudo que o IPCA-15 tinha dado: fechou em 173,9 mil, na mínima desde o dia 22, sangrando desde a manhã com o exterior e acelerando na coletiva do Warsh, espelho de NY até no repique das 15h. O Caged veio acima do esperado (mas esfriando na tendência) e a curva longa daqui ainda é mais impulsionada pelo motivo que o O Globo pôs na manchete: a dois meses da eleição, o mercado não vê plano fiscal nem de Lula, nem de Flávio. E a Folha traz o bastidor do vídeo de IA do Bolsonaro que citei esses dias: ministros do TSE leram a cobrança de Moraes como pressão, ninguém na corte cogita sanção grave a Flávio.
Segue a versão resumida disso tudo que falei:
Warsh segurou o juro e o mercado apertou sozinho. Quem manda agora, o Fed ou a curva?
📅 30 de julho. Bom dia. Erik Pajunk da Nomos aqui.
🏦 O Fed manteve, mas com os dissensos que citei ontem: 3 diretores votaram por alta, placar raro. Warsh disse que a curva já fez parte do trabalho, mas o mercado leu dúvida: o juro de 30 anos foi a 5,23%, maior desde 2007, e o Dow caiu 2,2%, pior dia desde abril. Setembro segue vivo.
💻 IA em dois filmes: Microsoft sobe 8% no pré com nuvem crescendo 43% e capex “menor” (na prática, ajuste contábil). Meta cai 9% com guidance fraco e conta de até US$ 145 bi. Hoje: Apple e Amazon, com PIB e PCE.
🛢️ A retaliação veio: EUA voltaram a atacar o Irã e navios pegaram fogo no Egito. Brent tocou US$ 90, hoje roda a US$ 87.
🇧🇷 Caged acima do esperado, mas desacelerando na tendência. Ibovespa caiu 1,5% com o mundo e devolveu num dia o ganho do IPCA-15. Juros longos sobem aqui também e mercado cobra plano fiscal de Lula e Flávio.
RESUMO POR TÓPICO (com as fontes)
Central Banks / Macro EUA
Fed mantém juros em 3,50%-3,75% por 9 a 3; três dissensos pró-alta (Hammack, Logan, Kashkari), algo raro (WSJ/Timiraos, Bloomberg, FT, XP Macro Strategy, XP Furla News)
Coletiva de Warsh confunde: leitura de “credibility shock” pelo BofA, ponta curta caiu e a longa subiu (WSJ/Timiraos, John Authers/Bloomberg, FT/Robert Armstrong)
Juro de 30 anos a 5,23%, maior nível desde julho de 2007; 10 anos a 4,70% (XP Furla News, FT, Bloomberg)
Após decisão, mercado precifica ~55% de chance de alta em setembro, vindo de ~70% à tarde (XP Macro Strategy); Wells Fargo vê setembro “ativo” (XP Furla News)
WSJ Editorial defende o método Warsh: “playing the ball, not the referee” (WSJ Editorial Board)
Hoje: PCE de junho às 9h30, PIB do 2T, jobless claims; BoE de manhã e BoJ à noite (WSJ, XP Furla News)
Geopolítica / Petróleo
Irã lançou mísseis contra bases dos EUA na Jordânia (interceptados); EUA e Arábia Saudita atacaram milícias no Iraque; Trump prometeu “beating” e a retaliação americana já ocorreu (Bloomberg, NYT, WSJ, FT, News XPress)
Brent +8% ontem a US$ 90,8 na máxima; hoje devolve a US$ 87,60 (-0,56%) (XP Macro Strategy, XP Furla News, Bloomberg)
Dois navios (um deles tanker de gás dos EUA) em chamas em porto do Egito, aparente drone (NYT, Bloomberg)
Irã rejeitou proposta de Omã sobre compartilhamento de Ormuz (WSJ)
Estoque comercial de petróleo dos EUA é o menor desde 2018: 404,5 mi de barris (Valor via Furla)
Mercados / Tech
Dow -2,19% (-1.153 pts), pior dia desde abril de 2025; S&P -1,52%; Nasdaq -1,74%, mais de 10% abaixo do recorde (XP Furla News, Bloomberg, WSJ)
Microsoft +8% no pré/after: Azure +43% (mais rápido desde 2022) e capex contido em US$ 175 bi vs US$ 190 bi antes; mercado premiou a “disciplina” (Bloomberg, WSJ, XP Furla News)
Meta -9%: guidance fraco, capex de até US$ 145 bi, menor free cash flow desde 2022 (Bloomberg, WSJ, Barron’s, XP Furla News)
Pave Finance: “duas estratégias de IA”, uma lucra gastando, a outra deixa o custo corroer o resultado (XP Furla News)
Hoje: Amazon e Apple após o fechamento, últimos das Mag 7 do trimestre (WSJ, XP Furla News)
Kospi caiu mais 6%, -16% em dois pregões; Coreia anuncia freio em ETFs alavancados (Bloomberg, Barron’s, Bruno Paolinelli)
Nvidia negocia US$ 750 bi em novos deals com SK Group e OpenAI, reacendendo temor de circularidade; Burry e Goldman entre os céticos (Bloomberg)
Futuros hoje em leve alta: S&P +0,39%, Nasdaq +0,73% (XP Furla News)
Brasil
Caged: 145,1 mil vagas em junho, acima do consenso de 110-115 mil, mas pior junho desde a pandemia (XP Macro Strategy, CNN via Furla)
Ibovespa -1,52%, dólar R$ 5,12; CSN -7,8% liderou quedas (BTG, Bruno Paolinelli)
Juros futuros longos sobem com falta de planos fiscais de Lula e Flávio a 2 meses da eleição (O Globo via XP Clipping); Durigan discute aperto do arcabouço num Lula 4 (Folha, Poder, O Globo via News XPress)
Dívida pública federal a R$ 9,3 tri (+2,61% em junho); custo médio sobe a 12,68% a.a., prazo médio encurta a 4,01 anos (Folha via Furla, Bruno Paolinelli)
Tesouro amplia pós-fixados: dívida atrelada à Selic chega a 49% do estoque e teto de 50% deve ser revisto (O Globo via Furla)
Bradesco anuncia capitalização de até R$ 10 bi via subscrição privada; controladores entram com até R$ 8 bi (Valor via Furla)
El Niño pode bater recorde histórico (+3,6ºC, acima de 2015-16); governo prepara R$ 1,3 bi em contingência, térmicas e estoques de arroz e milho (Estadão, Folha, Globo Rural via Furla; Valor via XP Clipping já tinha citado El Niño no radar das campanhas)
TCU: irregularidades em 82% das emendas Pix auditadas (Valor via Furla)
Governo estuda reforçar o FGI para linhas de crédito (Valor via Furla)
Eleições
Alckmin oficializado vice de Lula pelo PSB (News XPress, G1, CNN)
Bolsonaro nega ter autorizado vídeo de IA; ministros do TSE veem abuso e STF se prepara pra agir (Folha, Estadão, O Globo via XP Clipping)
Quaest SP: Flávio com 53% dos válidos no 2º turno no estado, abaixo dos 55,2% de Bolsonaro em 2022 (XP Clipping)
Nos bastidores, a Folha mostra ministros do TSE lendo a cobrança de Moraes como pressão e tentativa de interferência: pra eles o tema é da Justiça Eleitoral; dos sete integrantes, ao menos dois tendem a abordagem liberal (a IA foi usada pra favorecer, não prejudicar) e outros dois a medidas de alerta, como multa ao PL, remoção do material e aviso de que reincidência configuraria abuso; nenhum grupo cogita sanção grave como cassação ou inelegibilidade, distante do sinalizado por Moraes (Folha)
Kassio Nunes Marques relata a representação no TSE e decide primeiro, sem prazo; pano de fundo: um grupo do STF vinha se preparando pra atuar como instância revisora das decisões do TSE, como no episódio da censura à pesquisa Atlas em junho (Folha, O Globo)
AGENDA DA SEMANA
Hoje: PCE de junho (9h30) e PIB do 2T nos EUA, o primeiro teste de dados da era pós-coletiva; Apple e Amazon após o fechamento encerram a temporada das Mag 7 no trimestre; BoE decide pela manhã e BoJ à noite. Por aqui, PNAD e, de resto, agenda doméstica fraca com o Copom em silêncio: o dia é digerir o juro americano. PoderData pode sair.
Sexta: Chevron e Exxon reportam; índice de custo do emprego nos EUA; expiram as tarifas temporárias de 10% de Trump, com as substitutas já anunciadas. Pesquisa Vox pode sair.
Semana que vem: Copom decide terça e quarta (4 e 5), com o IPCA-15 de 0,06% no bolso e o Caged na mesa. Faltam 66 dias pro primeiro turno.

